Operação de cartão consignado pertencia à Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), que era dona da rede de supermercados Cesta do Povo A essência do Banco Pleno, liquidado em fevereiro pelo Banco Central, era a operação de cartão consignado CredCesta, que foi trazida para o conglomerado do Master por Augusto Lima quando ele se juntou a Daniel Vorcaro, em 2019. Ele havia comprado o CredCesta poucos meses antes e chegou a bater na porta de outros bancos para tentar encontrar um parceiro antes de se ligar ao Master. Em 2018, o então governador Rui Costa (PT) resolveu privatizar a Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), que era dona da rede de supermercados Cesta do Povo. Foram precisos três leilões e mudanças no CredCesta para tornar a operação mais atrativa e conseguir um comprador. Dentro do governo, um dos responsáveis pela privatização era o então secretário de Desenvolvimento Econômico Jaques Wagner. Hoje líder do governo no Senado, ele é um dos principais alvos da 9ª fase da operação Compliance Zero, deflagrada nesta quinta-feira (18). Tanto Costa como Wagner defendem publicamente a operação de venda da Ebal. "Eu vendi um supermercado falido. Teve (leilão) três vezes, só consegui vender na terceira vez, um supermercado que dava quase R$ 200 milhões de prejuízo todo ano [...]. Eu livrei o povo da Bahia de um prejuízo de quase R$ 200 milhões por ano, e vendi o supermercado com tudo o que ele tinha", comentou Costa recentemente. O ex-governador ainda ressaltou que foi o CredCesta que viabilizou o negócio. "Se não [estivesse inclusa a operação do cartão], nem tinha vendido. Se alguém [Augusto Lima] pagou uma merreca de R$ 15 milhões, é porque tinha o cartão [CredCesta]. Se não tivesse o cartão, nem isso tinha pago, porque ninguém queria pagar." Na época do leilão, que venceu foi a NGV, que tinha como único sócio o espanhol Ignácio Moralez. Conforme revelado pelo portal UOL, no entanto, antes mesmo do leilão o advogado Daniel Monteiro mandou um e-mail para Lima e Carlos Peretto (fundador da fintech Cartos, preso na operação Compliance Zero), para que eles subscrevessem debêntures da NGV. Na véspera do leilão, o CredCesta obteve uma exclusividade de 15 anos na exploração do cartão consignado junto aos três poderes da Bahia, podendo ficar com até 30% da margem consignável. Após o certame, o governo ainda assegurou que não haveria sucessão de dívidas para a NGV, o que abriu caminho para a associação de Lima com Vorcaro. A NGV cedeu os direitos do CredCesta para a PKL e o Master comprou 50% dessa empresa por R$ 22 milhões. Os fundos por meio dos quais Lima controlaria a PKL são o Diamond e o Reag 34, segundo fontes com conhecimento do assunto, administrados pela empresa de João Carlos Mansur, fundador da gestora Reag, que além de alvo da Compliance Zero também está entre os investigados na operação Carbono Oculto. Daniel Lopes Monteiro é citado na decisão do ministro do STF André Mendonça desta quinta-feira. Ele é descrito como como operador jurídico financeiro associado ao núcleo do Banco Master e às tratativas posteriores envolvendo o apartamento Poème Horto. Esse apartamento teria sido dado por Augusto Lima a Wagner. "Após a deflagração da primeira fase da Operação Compliance Zero, Daniel teria atuado na tentativa de reorganizar juridicamente a situação do imóvel, inclusive por envio de minutas contratuais, instrumentos de cessão de direitos aquisitivos e comunicações com Guilherme Sodré, Márcio Domingues dos Santos e André Pissolito Campos. A continuidade dessas tratativas após a deflagração das investigações indica risco concreto de interferência sobre a prova e de preservação artificial de aparência negocial, justificando as medidas postuladas", diz a decisão. A PKL também aparece na decisão de hoje. A empresa teria transferido R$ 3,5 milhões para a BN Financeira, da filha de Wagner, Bonnie Toaldo Bonilha. "Posteriormente, a autoridade policial indica que teria sido efetivada transferência de R$ 3.500.000,00 à BN Financeira Ltda pela PKL One Participações SA, pessoa jurídica vinculada ao núcleo de Augusto Ferreira Lima e dirigida por Andréia Lima Novaes." Senador Jaques Wagner (PT-BA) no plenário do Senado — Foto: Carlos Moura/Agência Senado