O capitão Ricardo Portal, antigo comandante do Destacamento da Guarda Nacional Republicana (GNR) de Fafe, admitiu ter recebido por três vezes contentores que carregavam cocaína, no Porto de Leixões, no âmbito de uma rede internacional que se dedicava ao tráfico de droga. O Ministério Público (MP) estima que os lucros tenham sido superiores a um milhão de euros.Apesar de ter ficado em silêncio na sala de audiências, esta quarta-feira, no arranque julgamento em que é acusado dos crimes de tráfico de droga, associação criminosa e branqueamento de capitais, o tribunal leu as declarações prestadas pelo arguido no interrogatório após a detenção. Nesse momento, admitiu que tinha conhecimento de que os contentores carregavam droga – apesar de dizer desconhecer as quantidades – assumindo total responsabilidade e afastando a culpa da mulher e do irmão, também arguidos neste processo.A droga entrava em Portugal através do Porto de Leixões, em contentores que carregavam peles de animais, sendo depois transportada para um armazém em Fafe, cidade em que Ricardo Portal foi capitão do destacamento da GNR. O armazém era detido pelo arguido e pela mulher deste, estando em nome de uma empresa gerida por ambos.A operação seria desmantelada a 20 de Julho de 2025, dia em que chegaram ao Porto de Leixões três contentores de peles bovinas, provenientes da República Dominicana. A encomenda tinha como destinatário a sociedade gerida pelo casal.De acordo com um inspector da Polícia Judiciária ouvido em tribunal nesta manhã, as autoridades foram alertadas para a importação de cocaína nestes contentores com peles de animais. Os contentores foram abertos e, durante a fiscalização ao material nos contentores foram detectadas, “dissimuladas entre a restante mercadoria”, 2736 embalagens com cocaína, quantidade de droga suficiente para 5,5 milhões de doses individuais. A mercadoria seria levantada normalmente e, a partir desse momento, atentamente vigiada pelas autoridades.Tal como nos outros casos, a mercadoria foi transportada para um armazém em Fafe, registado em nome da empresa dos arguidos. Ao descarregar o material, o capitão da GNR reparou que a carga tinha sido remexida – deduzindo que as autoridades soubessem que os contentores transportavam cocaína e que seria descoberto.O Ministério Público (MP) diz que Ricardo Portal, para tentar ludibriar as autoridades, contactou o destacamento de Fafe, onde tinha exercido funções de comandante, para os avisar de que a encomenda continha droga. Ao mesmo tempo, disse à mulher para apagar todas as mensagens que tinha no telemóvel. Seria detido pela Polícia Judiciária (PJ) momentos depois.Ricardo Portal e o irmão estão actualmente em prisão preventiva, aguardando o desfecho do caso judicial. Já a mulher do ex-capitão da GNR está em liberdade, sujeita a termo de identidade e residência.Na acusação, o MP diz que as importações de droga geraram proveitos superiores a 1,2 milhões de euros. Nas mensagens encontradas nos dispositivos apreendidos, os arguidos falavam da preocupação com as fiscalizações dos contentores.Os proveitos seriam depois depositados em numerário na sociedade titulada por Ricardo Portal e pela mulher, dissimulados como operações para aumento de capital. Mas, de acordo com a análise fiscal e financeira levada a cabo pelo MP, a empresa não tinha volume de negócios que justificasse a entrada de tanto dinheiro.Nas buscas foram apreendidos relógios, veículos, computadores, telemóveis e outros equipamentos informáticos, que as autoridades acreditam terem sido usados para a actividade de tráfico de droga.