Apesar de gastos no varejo e hotelaria, a expectativa é que campeonato custe até 1,4 bilhão de libras em produtividade Jogador Ollie Watkins, da seleção de futebol da Inglaterra — Foto: Reuters A Inglaterra estreia na Copa do Mundo 2026 nesta quarta-feira (17) contra a Croácia para a alegria de milhares de torcedores que planejam diminuir as horas de trabalho para acompanhar os jogos da seleção. Por outro lado, empregadores estão preocupados que a animação com o torneio traga baixa produtividade e gastos não essenciais, o que pode prejudicar a economia nacional. No Reino Unido, a perda de produtividade é estimada em 681 milhões de libras (R$ 4,62 bilhões), segundo a UKG, uma fornecedora de software para gestão de força de trabalho. Essa é uma estimativa mais conservadora que a do economista Tony Syme, em texto publicado no site da Universidade de Salford, que espera uma perda de produtividade superior ao 1,4 bilhão de libras (R$ 9,50 bilhões), uma vez que a fadiga dos trabalhadores deve crescer à medida que a Inglaterra avance no campeonato. Além disso, entre os ingleses, 29% dos funcionários pretendem tirar folga após uma vitória da Inglaterra, enquanto uma parcela menor, de 22%, planeja seguir com a rotina normal de trabalho, segundo a UKG. Outro ponto que pode impactar a produtividade é que, devido à diferença de fuso horário com os países sede da Copa, os jogos da Inglaterra devem acontecer após 21h no horário do Reino Unido. Assim, 22% dos ingleses preveem que trabalharão cansados ou exaustos durante a Copa do Mundo e 11% admitem que poderão trabalhar de ressaca, aponta a pesquisa da UKG. Uma pesquisa da consultoria de RH Brightmine revelou que 40% dos empregadores esperam que o torneio interrompesse o ambiente de trabalho, enquanto 42% não possuem um plano para lidar com isso. Licença médica O economista Charles Nimoh disse, em texto publicado na Universidade de Salford, que as empresas também podem ser afetadas no dia seguinte aos jogos por ausências justificadas como licença médica. Uma análise da BrightHR, fornecedora de software de RH, prevê que pelo menos 3,6 milhões de dias de licença médica serão utilizados durante o torneio, custando aos empregadores cerca de 94 milhões de libras (R$ 637,95 milhões) em auxílio-doença. Esse custo está relacionado a mudanças recentes na legislação de auxílio-doença obrigatório no Reino Unido. Antes, o empregador começava a pagar pela licença após o quarto dia de afastamento por doença, mas a Lei dos Direitos Trabalhistas de 2025 estabeleceu que, a partir de agora, o pagamento deve ser feito desde o primeiro dia de ausência. Com o auxílio-doença estatutário fixado em 123,25 de libras (R$ 836,46) por semana, essas empresas podem ter um custo adicional de 73,95 (R$ 501,88) de libras para cada funcionário que tirar três dias de folga. Perdas emocionais Além do impacto na produtividade, os jogos de uma Copa do Mundo também possuem um efeito direto na Bolsa de Valores devido à variação de humor dos agentes financeiros. Um estudo publicado no Journal of Finance mostra que o mercado de ações de um país cai no dia seguinte à eliminação de um grande torneio e que, normalmente, a derrota derruba os mercados mais do que a vitória os impulsiona. “Uma Copa do Mundo não é apenas um evento de gastos, é um choque de humor que influencia a confiança das famílias e dos investidores. Para o Reino Unido, o verdadeiro risco econômico não é uma fase de grupos tranquila, mas sim uma eliminação precoce”, diz Syme. Mas há um impacto positivo “A maior variável continua sendo o desempenho da Inglaterra. Historicamente, uma boa campanha em um torneio gera um sentimento positivo que incentiva o consumo discricionário. Portanto, é improvável que o impacto econômico da Copa do Mundo seja inexistente; ele simplesmente se manifestará de forma diferente, chegando mais tarde, impactando diferentes setores e se concentrando em menos momentos, porém mais impactantes”, diz Nimoh. A Associação Britânica de Cerveja e Pubs estima que o setor de bares e restaurantes fature 898 milhões de libras (R$ 6,09 bilhões) durante o torneio, quase o dobro do valor de 2022. Nimoh, porém, acredita que devido aos horários tardios dos jogos, parte dos consumidores prefira assistir à Copa do Mundo em casa, o que deve beneficiar mercados, lojas de conveniência e aplicativos de entregas. “O gasto total do consumidor no varejo e na hotelaria deve atingir 3,8 bilhões libras (R$ 25,78 bilhões), com o varejo sozinho representando 2,9 bilhões libras (R$ 19,68 bilhões), um aumento de 81% em relação a 2022. Em resumo, a festa não para; ela apenas se muda para dentro de casa”, diz Nimoh. No total, a estimativa de Syme é que os gastos totais relacionados à Copa do Mundo fiquem em torno de 3,8 bilhões de libras (R$ 25,78 bilhões) no Reino Unido. “O receio comum é que os gastos com futebol prejudiquem o restante da economia. Mas a economia comportamental sugere o contrário: as pessoas encaram um grande torneio como um evento único e reservam um ‘cofrinho da Copa do Mundo’ do qual nunca mexeriam em uma semana normal. Grande parte do aumento nas vendas de supermercados e lojas de bebidas, portanto, representa gastos extras, e não dinheiro retirado de outras áreas”, explica o economista. “Grande parte do gasto extra é real, mas os preços mais altos absorvem parte dele e a perda de produtividade puxa na direção oposta, de modo que o efeito líquido sobre o PIB provavelmente é modesto”, acrescenta.