Caução de US$15 mil e alto custo de visto e da viagem impediram Ana Cândida Évora de viajar aos EUA para ver seu filho na Copa do Mundo Ana Cândida Évora, mãe de Vozinha (segunda à direita), com familiares do goleiro em Praia, Cabo Verde — Foto: REUTERS/Davidson Alves O goleiro cabo-verdiano Vozinha surpreendeu o mundo ao impedir que o poderoso ataque da Espanha marcasse na estreia histórica de Cabo Verde em Copas do Mundo, na segunda-feira (15). Mas houve uma pessoa que não ficou nem um pouco surpresa. Um dia antes da partida, a mãe de Vozinha, Ana Cândida Évora, apareceu na televisão estatal e previu com confiança que ninguém conseguiria marcar um gol contra seu filho — algo que ela fez questão de lembrar à Reuters nesta terça, enquanto seus compatriotas ainda se recuperavam das comemorações que atravessaram a madrugada após o empate por 0 a 0 na fase de grupos. “Eu disse que nenhuma bola entraria no gol dele, e foi exatamente isso que aconteceu”, afirmou Évora, uma empregada doméstica de 59 anos. “Ele é um grande goleiro. Tenho muito orgulho de ser mãe do Vozinha e espero que ele continue defendendo todas as bolas que vierem em sua direção.” Após o apito final da partida realizada na segunda-feira, em Atlanta, o goleiro de 40 anos — cujo nome verdadeiro é Josimar Dias — caiu em lágrimas. Mais tarde, explicou aos jornalistas que uma das razões para sua emoção foi o fato de sua mãe não ter conseguido viajar para assistir à sua atuação histórica pessoalmente, devido a questões relacionadas ao visto. Caução para visto e custos elevados Em janeiro, Cabo Verde foi incluído em uma lista de dezenas de países cujos cidadãos precisavam apresentar cauções de até US$ 15 mil para entrar nos Estados Unidos, conforme regulamentações introduzidas pelo governo do presidente Donald Trump com o objetivo de reduzir permanências além do prazo permitido pelos vistos. No mês passado, Washington anunciou que eliminaria essa exigência para portadores de ingressos da Copa do Mundo, afirmando que desejava facilitar “viagens legítimas para o próximo torneio da Copa do Mundo”. No entanto, a essa altura, os custos elevados já haviam levado Ana Cândida Évora a desistir de tentar fazer a viagem de aproximadamente 6.400 quilômetros até Atlanta. “Eu adoraria ter viajado para assistir à partida, mas não foi possível”, disse ela. Segundo Mário Semedo, presidente da Federação Cabo-Verdiana de Futebol, os altos custos para chegar à Copa do Mundo seriam um problema para os moradores do arquipélago de dez ilhas independentemente da exigência da caução. “Não é fácil para um residente de Cabo Verde viajar para uma Copa do Mundo. Passagens aéreas, hospedagem e ingressos para os jogos envolvem custos significativos”, declarou Semedo à Reuters. “Certamente existem maneiras de lidar com as preocupações relacionadas à imigração e, ao mesmo tempo, criar condições para que os torcedores possam viajar. Se um familiar de um jogador, por exemplo, quiser assistir ao torneio, todos os esforços deveriam ser feitos para facilitar isso.” Um importante líder democrata do Congresso dos EUA pediu uma intervenção do governo Trump para ajudar Ana Cândida. “Nenhuma mãe deveria perder a oportunidade de ver seu filho fazer história”, escreveu nas redes sociais Hakeem Jeffries, líder democrata da Câmara dos Representantes. “Pedi ao secretário de Estado, Marco Rubio, que faça tudo ao seu alcance para garantir que ela possa assistir à próxima partida no domingo”, dissem Jeffries. “Esta Copa do Mundo também é nossa” Família de Vozinha vê fotos do goleiro de Cabo Verde na casa de sua mãe, Ana Cândida Évora, na cidade de Praia — Foto: REUTERS/Davidson Alves Apesar de ter acompanhado o jogo do outro lado do Atlântico, a família de Vozinha disse estar encantada com sua atuação diante da Espanha, campeã europeia, que controlou 75% da posse de bola e finalizou 27 vezes durante a partida válida pelo Grupo H. “A atuação dele foi maravilhosa, espetacular. Ele conseguiu fazer uma nação inteira feliz, o que é uma conquista enorme para o nosso país. É difícil descrever exatamente o que estou sentindo”, afirmou o irmão do goleiro, Davidson Évora. Perto da casa da família, na ilha de São Vicente, multidões celebraram o empate até altas horas da madrugada de terça-feira, agitando bandeiras, dançando e buzinando pelas ruas. “Eu chorei até não conseguir mais chorar. Tenho orgulho de você, orgulho do nosso povo. Continue assim, porque esta Copa do Mundo também é nossa”, disse a torcedora Magali Monteiro. Será que a família de Vozinha tentará obter um visto de última hora para assistir aos próximos jogos dos Tubarões Azuis, apelido do time, que voltam a campo no domingo contra o Uruguai, em Miami? Davidson Évora respondeu que seria uma excelente ideia, embora a família ainda não tenha feito planos nem procurado apoio da federação de futebol. “Seria algo maravilhoso”, afirmou, “porque estamos vivendo um momento histórico e sem precedentes.”