Aos 8 anos, a bola muitas vezes é hipnótica. Quase nada tem o direito de atrapalhar uma relação que, mesmo com os desgastes que a vida traz, promete durar para sempre. Dani Olmo tinha 8 anos e chutava uma bola contra uma parede, completamente alheio a uma partida local disputada em Castelldefels, a meia hora de Barcelona. Seu pai, Miguel, se aproximou e sussurrou que Lionel Messi estava na arquibancada. “Ele me disse: ‘Vai lá tirar uma foto’. Mas eu queria continuar jogando. Claro que meu pai insistiu”, lembra Dani. “Inacreditável, mas devo confessar que fui contrariado, e dá para perceber pela minha cara que eu não estava nada feliz com aquilo. Me colocaram ao lado do Messi e eu nem falei nada com ele. Esperei o clique e depois voltei para a minha bola, como se fosse eu quem estivesse fazendo um favor para ele. Hoje, passados 20 anos, fico feliz por terem me obrigado, porque essa foto está emoldurada lá em casa”, conta, simpático. Mas, no fundo, Dani Olmo sente que precisa se redimir daquela imprudência que virou uma anedota em sua vida. Dani Olmo em atuação pela Espanha — Foto: JAVIER SORIANO / AFP 'Isso me incomoda' “Nunca, mas nunca mais, cruzei com o Leo. E isso me incomoda, sabe? Contra Cristiano Ronaldo já tive a oportunidade de jogar, mas contra o Leo nunca. A primeira vez seria na Finalíssima contra a Argentina, mas não aconteceu. E quando o Leo estava no Paris Saint-Germain, jogamos duas partidas de Champions. Na primeira, eu fiquei fora por uma lesão leve; na segunda, eu joguei, mas ele nem viajou. Ainda não aconteceu. Tomara que seja nesta Copa do Mundo, mas só queremos nos encontrar na final”, brinca Dani, camisa 10 e uma das estrelas da Espanha, que estreia no Mundial contra Cabo Verde, em Atlanta. O meia do Barcelona também foi formado em La Masia e também precisou deixar seu país para impulsionar a carreira. Mas tudo a seu tempo. Você disse que preferiria encontrar a Argentina apenas na final... Mas isso pode acontecer já nos 16 avos de final... Sim, e seria um jogaço, disso não tenho dúvida. Mas quanto mais tarde, melhor. Pode acontecer, claro, e no fim, para ganhar a estrela, é preciso vencer os melhores. Não é preciso vencer os melhores, mas sim quem estiver pela frente. Bom, isso também. Mas eu gosto mais de ganhar dos melhores. Dá mais brilho e o sabor é diferente. Voltamos ao Messi, com quem você nunca dividiu um campo. Nem mesmo numa cerimônia de premiação? Ainda não aconteceu. Estive na cerimônia da Bola de Ouro de dois anos atrás, mas o Leo já estava em Miami. Tomara que um dia aconteça, mas acho que cheguei um pouquinho tarde à vida dele. E se ele voltar ao Barcelona e vocês forem companheiros? Meu Deus, isso seria lindo. Seria um sonho, e estou falando como torcedor. Ter o Leo mais um ano, ou no último ano da carreira dele, no Barcelona, seria um sonho. Mas essas coisas são complicadas, não? Falo como torcedor do Barça. Temos um carinho muito especial por ele, e não sei o que ele pensa, mas ele não nos deve nada. Tudo o que fez pelos torcedores foi incrível e irrepetível. Então será quando o clube fizer uma homenagem a ele. Aí eu espero conseguir encontrá-lo! Olmo no Barcelona — jogador pretende pedir camisa de Messi caso o enfrente na Copa do Mundo — Foto: Michal Cizek / AFP Mas antes disso, se houver Espanha x Argentina nesta Copa, você vai pedir a camisa dele? Pelo menos vou tentar. Vai ser cara, vai ser difícil, isso é certo, mas vou tentar. Você tem algo em comum com Messi: ambos deixaram o país muito jovens em busca da carreira. Ele foi para a Espanha aos 13 anos e você para a Croácia aos 16. Nada comparável ao que aconteceu com o Leo. Ninguém troca Barcelona pela Croácia, mas eu fiz isso. Parecia o passo natural. Meu pai me disse: “O Dínamo de Zagreb quer construir um projeto em torno de você. Quer apostar tudo em você”. Era tudo o que eu precisava ouvir. Não me importava onde estava, nem que fosse fora das cinco grandes ligas. Não é fácil, mas você toma essa decisão pensando no que será melhor para o seu futuro. Depois precisa trabalhar muito, porque não é simples ir para um país novo, onde não conhece ninguém, falam outra língua e há uma cultura diferente. Mas dentro de campo a bola é igual em qualquer lugar e essa linguagem é fácil de entender. Eu sabia que precisava trabalhar para construir uma carreira no futebol. No fim, tanto eu quanto o Leo conseguimos jogar no clube dos nossos sonhos, o Barcelona. Espero conquistar muitas coisas com o clube, como ele conquistou. Leo é uma inspiração, um ídolo, o melhor da história. Sim, ele é. E meu pai vai ter que me perdoar porque ele é muito fã do Diego também. Mas eu cresci na era do Leo. Para nós, ele é a referência. Seu pai era fanático por Maradona? Era? Não! É! Ainda é! Para ele, Diego é o máximo. E, veja bem, para mim também é uma referência histórica. Mas quando surge aquela pergunta clássica, Messi ou Maradona, eu sou do time do Messi. Porque eu o vi jogar. Mas quem escolhe o Diego merece todo respeito. Imagino quantas vezes vocês, argentinos, fazem essa pergunta. Mas é uma divisão amigável. É como perguntar se você ama mais a mãe ou o pai. Os dois! Bem, ele viu os dois no Barcelona, Maradona e Messi. Claro. Não conversamos muito sobre isso, mas sim, ele teve essa sorte. O que fascina meu pai no Diego é o que ele fez em todos os clubes pelos quais passou, além da Copa do Mundo que ganhou. E existe também a questão de Nápoles, onde ele é um Deus. Eu gostaria de não ser tão conhecido para poder visitar todos esses lugares. Tenho um amigo que esteve lá há poucos dias e me mandou fotos de todos os cantos onde Diego continua tão presente. É impressionante. Você pode ir disfarçado. Sabe que sim? Talvez um dia eu faça isso. Acho que pelo menos uma vez na vida é preciso ver aquilo. Você tinha 12 anos quando a Espanha ganhou sua primeira Copa do Mundo, na África do Sul. Ser campeão do mundo quando criança é maravilhoso. Minhas lembranças são com a família, assistindo aos jogos em casa, sempre com a camisa da seleção. E quando fomos campeões, fomos para a praça da cidade, em Terrassa, comemorar com todo mundo. Isso nunca se esquece. Quem era o seu ídolo? Aquele que você imitava? Era um, claro, mas não era espanhol. Vou te surpreender: quando eu era pequeno tinha cabelo comprido, jogava como centroavante e gostava muito do Diego Forlán. Naquela Copa ele foi espetacular. Era minha referência, e o Uruguai fez um torneio incrível. Claro que na Espanha havia jogadores que eu adorava, como Iniesta, Villa e Xavi. Mas se tiver que escolher um, digo Iniesta. Porque ele passou por dificuldades antes daquela Copa, teve lesões, precisou trabalhar muito e acabou sendo recompensado com o gol da final, o gol de todos, como chamamos na Espanha. Que coincidência. A Espanha perdeu para a Suíça na estreia de 2010 e a Argentina perdeu para a Arábia Saudita em 2022. Mesmo assim, foram campeãs. O que aconteceu com a Argentina depois daquela derrota você pode me contar melhor. Mas em 2010, depois da derrota para a Suíça, parecia o fim do mundo na Espanha. De repente, já não éramos candidatos ao título. E veja só: as duas seleções acabaram campeãs. Se me perguntar, eu prefiro vencer todos os jogos. Mas isso mostra que, se houver um tropeço, é possível se recuperar. Um tropeço apenas, porque a Copa do Mundo não costuma dar uma segunda oportunidade. Já que você jogou com argentinos, escolha um atual com quem gostaria de atuar e outro já aposentado. Dos atuais, acho que Alexis Mac Allister. Temos características que combinariam. Ele é um jogador com muito futebol, companheiro do Szoboszlai, que é um grande amigo meu, e sempre ouvi coisas muito boas sobre ele. E entre os aposentados não tenho dúvida: Riquelme. É um dos ídolos da minha infância, desde os tempos de Villarreal e Boca Juniors. Uma vez pediram que você escolhesse entre Pelé e Maradona e você respondeu Riquelme. De onde vem essa admiração? Vem um pouco do meu pai, que é torcedor do Boca e me transmitiu esse sentimento. Se me falam de um clube argentino, eu digo Boca. Para mim, Riquelme foi um símbolo. Fazia tudo em campo com classe e elegância. Era um jogador diferencial. O camisa 10 está em extinção? Ainda existem camisas 10, mas hoje exercem funções diferentes por causa do futebol moderno. Há menos treinadores que utilizam esse perfil clássico. Hoje vemos mais jogadores completos, como Enzo Fernández, que pode atuar como 10, mas também como um meio-campista de área a área. O camisa 10 continua existindo, aqueles jogadores que atuam entre as linhas, gostam da pressão, do drible, do passe inesperado. Só que hoje eles aparecem menos por causa dos sistemas de jogo. Você nunca esteve na Argentina? Nunca. E olha que o Leo Sigali já insistiu bastante para eu ir. É algo que quero fazer. Para visitar... A Bombonera, sem dúvida. Ouvi dizer que estão discutindo reformas. Pelo que entendi, os torcedores não querem perder a essência do estádio. Um dia estarei lá como torcedor. E se for em um Superclássico, melhor ainda. Entre os argentinos que enfrentou, cite um que o incomodou pela intensidade e outro que o impressionou pela qualidade. Pela intensidade, poderia citar qualquer zagueiro argentino (risos). Mas lembro de um dos meus primeiros jogos de Champions pelo Dínamo Zagreb contra o Manchester City. Eu era muito jovem e tinha o Otamendi pela frente. Meu Deus... Não sabia para onde correr. Ele era agressivo, intimidador, extremamente competitivo. E pela qualidade, digo Lautaro Martínez. No ano passado fez uma grande eliminatória de Champions contra nós. E no Atlético de Madrid, o mais intenso é o treinador... O Cholo tem sua ideia de jogo. Pode agradar mais ou menos, mas seus times sempre competem. Talvez em breve você tenha um companheiro argentino no Barcelona: Julián Álvarez. Fala-se muito disso. Mas é normal. Grandes jogadores sempre serão associados aos maiores clubes do mundo, como o Barça. Outro dia compararam Messi e Lamine Yamal, e você rejeitou a comparação de forma enfática. Às vésperas dos 39 anos, Messi ainda é o melhor de todos? Não importa a idade que tenha, o Leo continuará sendo um jogador diferente até se aposentar. Se cruzarmos com a Argentina, vamos marcar o Leo como se ele tivesse 20 anos. Não se pode dar um metro de espaço para ele. A comparação com Lamine não faz sentido, e o próprio Lamine diz isso. Não faz sentido comparar nenhum jogador da atualidade, nem da história — talvez apenas o Diego — com o Leo. Porque ele é único. Oito Bolas de Ouro, tudo o que conquistou... É único. Lamine também é único à sua maneira, mas está construindo o próprio caminho. Além de Espanha, Argentina, Inglaterra, Portugal e Brasil, você aposta em alguma surpresa? Em toda Copa aparece uma seleção que surpreende. Mas se eu tiver que citar uma que quase ninguém menciona, digo os Estados Unidos. Gosto do trabalho que Pochettino vem desenvolvendo. Acho que podem ser uma dessas seleções-surpresa, ainda mais jogando em casa. Dizem que é fácil jogar ao lado dos melhores. É verdade? Os melhores exigem muito de você. Quando vê um companheiro correndo e se entregando ao máximo, você não pode ficar para trás. Precisa corresponder. Quando as individualidades entendem o sentido coletivo do futebol, o time se torna poderoso. Um jogador pode ganhar uma partida. Mas um jogador sozinho não ganha um campeonato. Pode haver alguma exceção, talvez. Mas é uma exceção entre milhares.
Fã de Messi quando criança, meia da Espanha prevê encontro com argentino na Copa: 'Vamos marcá-lo como se ele tivesse 20 anos'
Dani Olmo pretende pedir a camisa do capitão argentino caso o enfrente: 'Vai ser cara, vai ser difícil, isso é certo, mas vou tentar'













