Os relógios mecânicos e outras linhas de maior valor agregado passaram a puxar o crescimento da Orient Brasil. Após registrar faturamento bruto de R$ 136,1 milhões no primeiro trimestre de 2026 e lucro líquido 93,7% superior ao de um ano antes, a operação brasileira do grupo japonês Seiko Epson projeta alcançar R$ 700 milhões em faturamento bruto até o fim do ano. A empresa de capital fechado, com números auditados pela BDO RCS, é a operação brasileira do grupo Seiko Epson, um dos maiores conglomerados mundiais do setor de relojoaria, com ações negociadas no Japão. Há 53 anos no Brasil, mantém um portfólio de 14 marcas — entre elas Orient, Seiko e Grand Seiko — e também fabrica produtos de marcas próprias para grandes varejistas nacionais. Os relógios dessas três marcas têm preços que partem de cerca de R$ 1 mil e podem superar R$ 40 mil nas linhas mais sofisticadas. O crescimento de margem segundo Rodrigo Anzanello, diretor de produtos da companhia, reflete uma mudança deliberada de mix. Os modelos mecânicos com preço acima de R$ 2 mil foram os que mais cresceram no período. “O consumidor não busca mais um relógio como acessório de moda. Ele busca uma forma de expressar o seu estilo de vida”, afirma o executivo em entrevista ao Valor. Para ele, o Brasil estaria “ao menos dez anos atrasado” em maturidade de mercado em relação a Europa, Ásia e Estados Unidos — onde o consumidor já percorreu a trajetória de smartwatch para mecânico e passou a tratar o relógio como ativo. Esse movimento tem uma lógica financeira clara. De acordo com Anzanello, relógios mecânicos — automáticos e de quartzo de alta precisão — respondem por fração pequena do volume de unidades comercializadas globalmente, mas concentram parcela expressiva do valor financeiro do mercado. No Brasil, a Orient aposta que esse deslocamento está se acelerando. Para sustentar a aposta, a companhia está migrando o portfólio para produtos autossuficientes em energia, eliminando a dependência de troca de pilha e, com isso, criando um argumento de durabilidade frente aos relógios conectados. A estratégia se divide em duas frentes. Nos modelos automáticos, a energia vem do próprio movimento do pulso, que carrega uma mola responsável por acionar o mecanismo. Nos modelos a quartzo, a empresa adota a tecnologia Soltech, desenvolvida pelo grupo Seiko Epson, que usa qualquer fonte luminosa para recarregar baterias de íon de lítio com vida útil estimada de até 15 anos. “Após carga total, o relógio solar funciona por até seis meses sem exposição à luz e mantém 70% da capacidade após esse período”, explica Anzanello. A linha inclui um modelo solar com calendário perpétuo, sem necessidade de ajuste manual de data, e o calibre Astron, que sincroniza com 11 satélites com precisão equivalente à de um relógio atômico. Contraste com smartwatches O contraste com o segmento de smartwatches é parte central do posicionamento. De acordo com o executivo, a Orient também comercializa relógios conectados — e afirma ser, entre os fabricantes de relógio da Zona Franca de Manaus, o maior vendedor em volume de unidades nessa categoria, com modelos a partir de R$ 299. Mas o segmento representa fração pequena do faturamento total. Anzanello resume a diferença: “O relógio mecânico atravessa gerações. O conectado tem a obsolescência dos eletrônicos e com três ou cinco anos as baterias perdem eficiência”. A produção ocorre em Manaus, em uma operação que chega a reunir mais de 600 funcionários nos períodos de maior atividade. A fábrica adota o modelo SKD (Semi-Knocked Down), no qual os mecanismos dos relógios chegam do Japão já montados e são integrados localmente às demais peças, como caixa, mostrador e pulseira. Segundo a empresa, a unidade também tem capacidade técnica para operar no sistema CKD (Completely Knocked Down), que prevê a montagem completa do relógio a partir de componentes desmontados, incluindo o próprio calibre, mas esse modelo não é o padrão atual da operação. Como parte relevante dos componentes é importada do Japão, alterações no câmbio e nos preços internacionais de metais e energia impactam diretamente os custos de produção. “Produzir uma caixa em aço demanda energia; transportar demanda energia. Qualquer variação no petróleo ou em metais preciosos afeta a cadeia”, explica o executivo. Para reduzir essa exposição, a companhia mantém estoques equivalentes a aproximadamente cinco ou seis meses de operação. A política busca compensar a longa cadeia de suprimentos, já que o intervalo entre o pedido dos componentes no Japão e a chegada do produto ao mercado brasileiro pode alcançar cerca de 120 dias. No horizonte do segundo semestre, a Orient calibra suas expectativas diante de um calendário que impõe desafios logísticos e macroeconômicos ao varejo. Entre feriados prolongados, que a empresa estima terem o efeito de um “domingo adicional” na redução do fluxo de vendas, e o impacto ambíguo da Copa do Mundo, que pode retrair o tráfego em lojas físicas, mas estimular o setor de presentes, o principal ponto de atenção recai sobre as urnas. Para Anzanello, as eleições representam um risco para as margens da empresa porque podem provocar oscilações no câmbio. “Historicamente, eleições causam volatilidade no dólar. Isso pode afetar nossa rentabilidade e o preço final ao consumidor”, afirma.
Com avanço dos modelos premium, Orient projeta faturamento de R$ 700 milhões em 2026
Operação brasileira do grupo Seiko Epson vê crescimento de modelos mecânicos e solares e afirma que consumidor tem migrado para produtos de maior valor agregado
Orient pivota a relógios mecânicos premium Soltech; Q1 2026 R$ 136,1M, lucro +93,7%, R$ 700M. Shift de smartwatch (obsoleto 3-5 anos) para durability assets geracionais com margens altas marca maturação do mercado premium.






