Na sexta-feira, Elon Musk tornou-se, oficialmente, o primeiro trilionário do planeta. Em sua estreia na Nasdaq, as ações da SpaceX encerraram em alta de 19,22%, a US$ 160,95 — durante as negociações, registraram a máxima de US$ 176,52, um salto de 31%. Na quinta-feira, os papéis haviam sido precificados em US$ 135, mas já abriram o pregão a US$ 150. Com isso, o valor de mercado da SpaceX ficou em US$ 2,2 trilhões, a sétima mais valiosa do mundo e a sexta nos Estados Unidos. Já a fortuna de Musk atingiu o inimaginável patamar de US$ 1,1 trilhão, de acordo com o Índice de Bilionários da Bloomberg. É o triplo do que detém o segundo homem mais rico do mundo, Larry Page, do Google, e o equivalente ao Produto Interno Bruto (PIB) da Suíça. O trilionário, porém, não participou da abertura do pregão no Nasdaq MarketSite. Ele estava na sede da SpaceX em Starbase, no Texas, onde houve o lançamento de 29 satélites Starlink. Ele falou por vídeo: Ações da SpaceX — Foto: Criação O Globo — É realmente difícil acreditar que aquela pequena empresa que começou em um galpão em El Segundo agora está abrindo capital no maior IPO da História — afirmou Musk. — Se alguém me dissesse que isso aconteceria, eu responderia que essa pessoa estava usando drogas pesadas, porque achava que a empresa iria fracassar. Participaram da cerimônia a presidente da SpaceX, Gwynne Shotwell, o diretor financeiro, Bret Johnsen, e a mãe de Musk, Maye Musk. ‘Obcecado por poder’ Desde 2021, a fortuna de Musk, de 54 anos, mais do que quintuplicou. Nesses últimos anos, ele comprou a rede social Twitter — transformada em X —, fundou uma startup de inteligência artificial, a xAI, fundiu essas empresas com a SpaceX e levou o conglomerado a ser listado na Bolsa. Nesse período, Musk também gastou mais de US$ 250 milhões para ajudar a eleger Donald Trump e atuou como conselheiro do governo. O crescimento de sua riqueza se acelerou, consolidando a influência do magnata sobre a sociedade, a cultura e a política globais. — O fato é que a riqueza para alguns e a desigualdade patrimonial estão crescendo em dimensões que nunca vimos antes — afirmou ao New York Times Steven Durlauf, diretor do Stone Center de pesquisas em desigualdade da Universidade de Chicago. Quando a fortuna do magnata do petróleo John Rockefeller atingiu seu auge, em 1937, seu patrimônio líquido de US$ 1,4 bilhão representava cerca de 1,5% do PIB dos Estados Unidos, disse Durlauf. No caso de Musk, essa proporção supera 3% do PIB americano. Adeo Ressi, que foi colega de Musk na Universidade da Pensilvânia, argumenta que o CEO da SpaceX nunca se importou com ganhos financeiros, e sim em obter recursos para alcançar seus objetivos. Ele diz ainda que o trilionário “não é um símbolo da desigualdade patrimonial”, pois Musk não possui símbolos típicos dos ricos, como ilhas particulares e megaiates: — Isso será literalmente usado para transformar a humanidade em uma espécie multiplanetária — contou Ressi ao NYT, referindo ao projeto de Musk de colonizar Marte. O senador Bernie Sanders, de 84 anos, também acha que Musk não tem interesse em ilhas ou iates. Em sua opinião, o trilionário só está interessado em uma coisa: — Esse cara é obcecado por poder — disse Sanders ao NYT. — E agora ele é a pessoa mais poderosa da Terra. Elon Musk e o foguete SpaceX Falcon Heavy no Centro Espacial Kennedy da NASA em Cabo Canaveral, Flórida. — Foto: Todd Anderson/The New York Times A Oxfam, entidade focada no combate à pobreza e à desigualdade, classificou o novo marco da fortuna de Musk como “um dia sombrio para a democracia”. Segundo a entidade, o trilionário agora é mais rico que os 46% mais pobres da população mundial, ou 3,8 bilhões de pessoas, quase metade do planeta. A concentração extrema de riqueza é resultado de “décadas de políticas pró-bilionários”, que permitiram aos super-ricos “moldar as regras econômicas em seu próprio benefício”, afirmou em relatório Nabil Ahmed, diretor sênior de Justiça Econômica da Oxfam América. “As pessoas comuns acabam pagando o preço enquanto os bilionários escrevem as regras em benefício próprio.” Segundo a Oxfam, boa parte da fortuna de Musk vem do apoio governamental — já que a SpaceX tem vários contratos com órgãos públicos dos EUA —, como do período em que o magnata trabalhou na administração Trump, usando sua posição para proteger e ampliar sua riqueza. BDRs na B3 têm alta de 18% O IPO atraiu mais de US$ 350 bilhões em demanda de investidores institucionais e de varejo, segundo pessoas familiarizadas com o assunto. Cerca de 70% das ações destinadas aos investidores institucionais foram alocadas para fundos de longo prazo e fundos soberanos. A BlackRock buscou comprar cerca de US$ 5 bilhões em ações na oferta, enquanto os fundos soberanos da Arábia Saudita e do Kuwait fizeram pedidos entre US$ 1 bilhão e US$ 5 bilhões, de acordo com a Bloomberg News. Entre as instituições que apresentaram ordens de compra, quase um terço não recebeu nenhuma ação. A demanda foi tão grande que o site Downdetector registrou cerca de 5 mil interrupções nas negociações pouco antes do meio-dia em Nova York. Na B3, os BDRs (recibos de ações) da SpaceX saltaram 18,15%, a R$ 54,74. Apesar do entusiasmo, muitos investidores mostraram ceticismo quanto à elevada valorização de uma empresa que ainda não registrou lucro. — Do ponto de vista dos fundamentos, os investidores se empolgaram demais — disse à Bloomberg Amanda Lyons, chefe de pesquisa da Energy Group Capital, para quem a SpaceX valeria US$ 600 bilhões. — Mas chamar algo de caro nunca foi um catalisador quando se trata de Elon Musk, e apostar contra esse prêmio tem sido uma estratégia perdedora há uma década. Já os investidores de longa data de Musk veem valor justamente nesse prêmio (ágio) associado às empresas do empresário. — O IPO da SpaceX sinaliza a transição de um mundo dominado por software para um mundo dominado por hardware — afirmou à Bloomberg Shaun Maguire, sócio da Sequoia Capital. Anthropic e OpenAI na fila Essa é uma das razões pelas quais o IPO da SpaceX atraiu tanta atenção: a expansão da inteligência artificial (IA). Musk uniu a xAI a sua empresa aeroespacial, apostando no uso dos foguetes desta última para lançar satélites e instalar data centers no espaço — uma infraestrutura crucial para suportar o crescimento da IA no mundo. Para os investidores, a operação de ontem foi uma espécie de teste para os IPOs da Anthropic (criadora do Claude) e da OpenAI (dona do ChatGPT), que planejam abrir capital ainda este ano — com expectativas elevadas. — Acredito que é um bom sinal para o mercado e para os outros IPOs que estão por vir e que também serão bastante grandes — disse à Bloomberg Robert Gruendyke, gestor sênior de portfólio da Allspring Global Investments. Os ricaços globais desde 1900 Andrew Carnegie: Dono de indústrias, era o homem mais rico do início do século XX, com fortuna de US$ 380 milhões* em 1901, em valores da época. John D. Rockefeller: A partir do petróleo, foi o mais rico nas décadas de 1910, 1920 e 1930. Em 1937, ele tinha US$ 1,4 bilhão*. Henry Ford: O homem que revolucionou a indústria automotiva tinha US$ 14,6 bilhões em 1947*. J. Paul Getty: O magnata do petróleo foi o mais rico do mundo nas décadas de 1950, 1960 e 1970. Em 1976, tinha US$ 6 bilhões*. Yoshiaki Tsutsumi: Por meio da incorporadora Seibu Corporation, dominou o ranking dos ricaços de 1987, quando a Forbes publicou sua primeira lista, até 1990, ano em que sua fortuna era de US$ 16 bilhões*. Família Walton: Os donos do Walmart encabeçaram a lista da Forbes de 1991 a 1996; naquele ano, sua fortuna era de US$ 22,9 bilhões*. Bill Gates: O fundador da Microsoft ficou no topo por uma década, de 1997 a 2007, voltando em 2009 e depois, de 2014 a 2017; naquele ano, sua fortuna era de US$ 86 bilhões*. Warren Buffett: O megainvestidor encabeçou a lista em 2008, com US$ 62 bilhões*. Carlos Slim e família: Com negócios que vão de telecomunicações ao setor financeiro, o magnata mexicano liderou o ranking de 2010 a 2013, quando sua fortuna era de US$ 73 bilhões*. Jeff Bezos: O dono da Amazon foi o mais rico do mundo de 2018 a 2021, com US$ 177 bilhões. Bernard Arnault e família: O controlador do conglomerado francês de luxo LVMH encabeçou o ranking em 2023 e 2024, com US$ 233 bilhões. Elon Musk: O dono de Tesla, SpaceX e X estreou no topo do ranking em 2022 e voltou em 2025. Agora é o primeiro trilionário do mundo. *Valores da época Fonte: Madison Trust Co. e Forbes (*Com Bloomberg News e The New York Times)