O ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Aragchi, confirmou esta sexta-feira que um memorando de entendimento com os Estados Unidos para o fim da guerra “está mais perto do que nunca”, segundo a agência Reuters, mas pediu o fim da especulação sobre os seus detalhes.Pouco depois, o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, anunciou que há um “texto final” que mereceu o acordo dos lados, que estão agora a “finalizar os próximos passos”. Sharif pediu o fim do que classificou como “a campanha de desinformação sem fim que está a ser levado a cabo pelos que querem sabotar o acordo”. Mas “a paz nunca esteve tão perto como agora”, garantiu.Um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão disse à televisão estatal que os “órgãos de decisão do país se estão a reunir para discutir o memorando”.Um alto responsável dos Estados Unidos confirmou à agência Reuters que “há um texto em cima da mesa de que o Irão e os EUA gostam”​ e adiantou que está a ser discutido o local para a assinatura do memorando, repetindo que uma cidade europeia seria uma possibilidade, como afirmara Donald Trump na véspera.O Presidente dos Estados Unidos tinha dito, na quinta-feira, que um acordo estava para breve, mas dado já afirmara 38 vezes, pelo menos, que um acordo iminente ou próximo (a conta foi mesmo feita pela CNN no início desta semana), e como horas antes tinha ameaçado de novo com mais ataques, a afirmação foi vista com algum cepticismo.Como comentou o correspondente da Economist no Médio Oriente Gregg Carlstrom na rede social X (antigo Twitter), “a credibilidade americana deteriorou-se ao ponto de que o Presidente pode anunciar um acordo diplomático e a reacção quase universal é: “vamos esperar pela confirmação da Tasnim’”, uma das agências de notícias iraniana, associada aos Guardas da Revolução.Os media iranianos garantiram que o país não irá ceder o controlo do estreito de Ormuz em caso de acordo, segundo a agência oficial IRNA – Trump tinha afirmado que mal for assinado um acordo, o estreito iria voltar a ter navegação livre sem o Irão exigir taxas pela passagem segura.As águas do estreito são divididas entre o Irão e Omã, mas na sequência da guerra iniciada pelos EUA e Israel, o país atacou navios levando assim a que a maioria optasse por não passar, fazendo com que de mais de cem navios por dia que passavam pelo local antes da guerra, passassem entretanto apenas um ou dois e assumindo na prática o controlo da via marítima.Para evitar que o Irão lucrasse com as taxas que estava a cobrar pela passagem pelo estreito, os EUA declaram o seu próprio bloqueio, a 13 de Abril, dizendo desde então que 134 navios desistiram de passar pelo estreito após avisos, e que impediram a passagem de oito – num deles, o disparo de um míssil para o motor causou um incêndio e enquanto 20 marinheiros foram resgatados por forças de Omã, três morreram.Na sua plataforma de rede social, Trump repostou a publicação do ministro iraniano dizendo que um entendimento está mais próximo do que nunca. Antes, tinha usado a rede social para dizer que o Irão estava a caracterizar de modo errado um potencial acordo, dizendo que estava a ser “desonesto” e “patético”.Ponto de partidaAs versões contraditórias diziam respeito não só ao estatuto de Ormuz, como até que ponto o programa nuclear seria incluído no acordo, com fontes a dizerem que este memorando seria só um ponto de partida que possibilitaria negociações sobre o nuclear e outra a dizer que já incluía provisões para o desmantelamento do programa.Na véspera, a jornalista do serviço persa da BBC Ghoncheh Habibiazad afirmou que vários media iranianos classificaram o anúncio de Trump de que desistia de mais ataques contra o Irão (poucas horas apenas depois de ter dito que gostaria de tomar a ilha de Kharg mas que “a América não teria estômago” para isso) como uma “retirada” dos Estados Unidos.Para o analista Trita Parsi, o facto de “certos elementos dos dois lados estarem a divulgar versões falsas ou exageradas do acordo para o sabotar” é “um sinal de que o acordo pode realmente estar próximo”. Um lado que tem “amplificado todos os exageros”, indicou ainda, foi Israel.No Estado hebraico um acordo poderá ser visto de um modo menos positivo, já que os objectivos não foram cumpridos: o regime mantém-se, os mísseis iranianos não se esgotaram, o país não caiu no caos.O analista Danny Citrinowicz, que tem sido muito crítico da guerra contra o Irão, sublinhou no X que “Israel está a ser forçado a aceitar um acordo que nunca quis e que teria rejeitado se as circunstâncias fossem outras”. Mas o primeiro-ministro de Israel “não está em posição de desafiar abertamente” o Presidente dos EUA. “É impossível não imaginar qual teria sido a reacção em Israel se tivesse sido Barack Obama ou Joe Biden a conseguir um acordo exactamente igual – é difícil pensar que a resposta política seria tão contida”.