Estados Unidos e Paraguai estreiam hoje pelo Grupo D da Copa do Mundo, no que será apenas o segundo jogo entre eles em mundiais. Mas se dentro de campo a história entre os dois países é curta, fora dele as relações atravessam mais de 160 anos e refletem diferentes fases da política americana para a América Latina. Do combate ao comunismo e apoio à ditadura de Alfredo Stroessner, da guerra às drogas à disputa geopolítica com a China, ambas reforçadas sob Donald Trump, Assunção têm um papel mais relevante para Washington do que seu peso econômico e político sugere. Os países quase entraram em guerra antes mesmo de estabelecer relações diplomáticas formais em 1861. Cinco anos antes, em 1855, forças paraguaias dispararam contra o USS Water Witch, navio da Marinha americana que fazia levantamentos hidrográficos na Bacia do Prata. Três anos depois, o presidente James Buchanan enviou 19 navios de guerra à região, na maior mobilização naval da história dos EUA até então. A crise foi resolvida diplomaticamente, mas marcou uma das primeiras demonstrações do interesse estratégico americano pela região, já sob a Doutrina Monroe, de hegemonia sobre os vizinhos, hoje reeditada Trump. Após décadas de relativa distância, Washington passou a acompanhar mais atentamente o Paraguai nos anos 30, quando a expansão da influência econômica da Alemanha nazista na América do Sul despertou preocupações na Casa Branca de Franklin D. Roosevelt. Mas foi a chegada de Stroessner ao poder, em 1954, que transformou o país em aliado prioritário. O golpe ocorreu no auge da Guerra Fria. Em troca de alinhamento político e apoio à estratégia anticomunista americana, Assunção recebeu ajuda econômica, treinamento militar, financiamentos e respaldo diplomático. Estudos sobre o período apontam que a consolidação inicial do regime esteve diretamente associada ao apoio recebido de Washington. Os americanos instalaram uma estrutura de monitoramento eletrônico destinada à coleta de informações sobre o Cone Sul, tendo na capital paraguaia o maior contingente diplomático da região. A primeira grande crise na relação surgiu nos anos 1970, em um episódio que já sinalizava uma guinada na política externa americana em relação à região. Depois de muita pressão e ameaças de Richard Nixon de cortar a ajuda econômica e militar ao Paraguai, Stroessner aceitou extraditar o francês Augusto Ricord, apontado pelas autoridades americanas à época como operador de uma rede responsável por até 75% da heroína que chegava aos EUA. O episódio marcou um ponto de inflexão na relação bilateral, com a guerra às drogas se tornando um elemento central da política externa americana para a região. Com Jimmy Carter, os direitos humanos e a democracia também entraram na agenda diplomática. Os EUA reduziram a ajuda militar ao Paraguai e outros países, bloquearam empréstimos multilaterais e passaram a criticar publicamente a ditadura. A relação nunca voltou ao padrão dos anos 1950 e 1960. Quando Stroessner caiu, em 1989, Washington já apoiava discretamente setores democráticos da oposição. A relação bilateral ganhou novos contornos após os atentados de 11 de setembro de 2001. Embora muitos analistas descrevam o período como uma fase de desinteresse americano pela América do Sul, devido ao foco no Oriente Médio, a região continuou sob atenção de órgãos como DEA, a agência de combate ao tráfico de drogas dos EUA, o FBI, Departamento de Estado e Comando Sul das Forças Armadas americanas. O Paraguai, então, passou a ser visto principalmente pela lente da segurança nacional dos EUA. A Tríplice Fronteira com Brasil e a Argentina tornou-se foco permanente de preocupação para Washington, que identificava a região como vulnerável à lavagem de dinheiro, ao contrabando, ao narcotráfico e ao financiamento de grupos extremistas, como o Hezbollah, a milícia xiita libanesa apoiada pelo Irã. Ao mesmo tempo, os EUA acompanhavam com desconforto a ascensão dos governos de esquerda e iniciativas de integração regional sem participação americana, como a Unasul. Santiago Peña, presidente do Paraguai, ao lado de Donald Trump — Foto: Divulgação Foi nesse contexto que ocorreu o impeachment de Fernando Lugo, em 2012. Ex-bispo católico, Lugo havia encerrado mais de seis décadas de hegemonia do Partido Colorado e aproximado o Paraguai dos governos de Luiz Inácio Lula da Silva, Cristina Kirchner e Hugo Chávez. Sua destituição, em um julgamento político concluído em menos de 48 horas, provocou forte reação regional. Brasil, Argentina e Venezuela classificaram o episódio como ruptura democrática. O Paraguai foi suspenso do Mercosul e da Unasul. Os Estados Unidos, porém, adotaram posição diferente. O governo Barack Obama evitou classificar a destituição como golpe e rapidamente reconheceu o novo governo de Federico Franco. Nos últimos anos, a importância estratégica do Paraguai voltou a crescer. O país é o único da América do Sul que mantém relações diplomáticas com Taiwan, transformando-se em peça relevante da disputa geopolítica entre EUA e China. Mas o anseio de agradar a Washington também se manifestou em outras frentes. Em 2018, durante o governo de Horacio Cartes, o Paraguai tornou-se um dos poucos países do mundo a acompanhar os EUA e transferir sua embaixada em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, atendendo a um pedido de Donald Trump. Poucos meses depois, o sucessor de Cartes, Mario Abdo Benítez, reverteu a decisão. A volta de Trump à Casa Branca reaproximou os países. O novo governo flexibilizou parte das restrições impostas à estrutura empresarial ligada a Cartes, alvo de sanções financeiras sob Joe Biden por corrupção. A DEA renovou sua parceria com a Secretária Nacional Antidrogas do Paraguai (Senad), com o adquirindo sistemas de radar por meio de programas americanos de assistência militar e ampliando o intercâmbio de inteligência. O símbolo mais visível dessa nova fase veio neste ano, quando Santiago Peña sancionou um acordo que autoriza a presença de militares americanos no país. O governo o apresenta como instrumento para combater o crime organizado transnacional. Críticos afirmam que o texto concede privilégios excessivos aos EUA e limita a jurisdição paraguaia sobre militares americanos. Recentemente, os dois países também passaram a classificar como terroristas as organizações brasileiras Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC), ambas com forte atuação no território paraguaio. A aprovação ocorreu poucos dias depois da participação de Peña na cúpula do Escudo das Américas, iniciativa de segurança hemisférica promovida por Trump. No evento, o presidente americano apresentou Peña ao público chamando-o de “jovem bonito”. A frase repercutiu na imprensa local, mas o simbolismo político era mais relevante do que a brincadeira: em um momento de competição crescente com a China, poucos governos sul-americanos demonstram alinhamento tão explícito aos EUA quanto o do Paraguai. A camaradagem, porém, não deve se repetir na partida de hoje no Sofi Stadium, em Los Angeles. Em entrevista antes do jogo, o zagueiro Gustavo Gómez, capitão paraguaio, projetou marcar um gol sobre os americanos, que venceram o único duelo entre os dois países em Copas, em 1930, por 3 a 0. “Não sei se Trump estará no jogo, mas acho que vai estar meio triste se nós ganhamos”, disse o zagueiro do Palmeiras.