No ano em que o Mundial tem tem sedes — Estados Unidos e Canadá, além do México —, a música que embala a competição espelha a multiculturalidade doa atletas que correm atrás da bola 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Os cantores Katy Perry (à esq.), Anitta, Michael Bublé e Alanis Morissette — Foto: Colagem de fotos de Edilson Dantas (Katy Perry), Divulgação/Jhuan Martins (Anitta), Devin Oktar Yalkin/The New York Times (Michael Bublé) e Essene Hernandez/ Eyepix Group/AFP (Alanis Morissette) RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você A abertura da Copa de 2026 reflete a globalização com shows de Shakira, Anitta e Burna Boy. As apresentações celebram a mistura cultural em três países-sedes diferentes. O torneio registra um recorde de atletas defendendo seleções de nações onde não nasceram. Jogadores como o francês Michael Olise simbolizam essa nova realidade sem fronteiras rígidas. Apesar de apenas 3,7% da população mundial viver fora de sua terra natal, a fusão cultural impulsiona a criatividade na música e no esporte contemporâneos. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Waka waka, ê, ê! Quem viu Shakira no lendário estádio Azteca, na Cidade do México, na abertura da Copa do Mundo, ontem à tarde? A cantora colombiana de ascendência libanesa foi uma das atrações antes do jogo inaugural, entre La Tri (como é chamada a seleção mexicana, por causa das três cores da bandeira) e a África do Sul, os Bafana Bafana (“os garotos, os garotos”, em dialeto zulu). Chegou ao fim o casamento de Rafa Kalimann e Nattan? Cantor esclarece crise após relato de abandono na gravidezPedro Bial conta que ele e Cazuza beberam uísque com Vinicius de Moraes quando crianças: 'Voltamos bêbados' Além dela, a festa contou com o nigeriano Burna Boy (que gravou com Shak a música oficial da Copa, “Dai dai”, uma expressão em italiano que significa algo como “bora lá”); outro colombiano, J Balvin; e os locais da banda Maná, entre outros. Como a Copa tem três sedes — Estados Unidos e Canadá, além do México — são três festas: hoje, às 14h30, na cidade canadense de Toronto, Alanis Morisette e Michael Bublé (os nomes não soam franceses por acaso) fazem a festa de seus conterrâneos, enquanto, às 20h30, em Los Angeles, Katy Perry, garota da Califórnia, comanda a tertúlia que tem ainda a carioca Anitta, a tailandesa Lisa, o rapper de Atlanta Future e outros. A (con)fusão de nações lembra a da própria Copa do Mundo, que neste 2026 tem a maior quantidade da História de atletas vestindo a camisa de países onde não nasceram. — O bom de hoje é que ninguém precisa imigrar para viver entre culturas — diz o antropólogo Hermano Vianna, profundo conhecedor de música e de globalização. — Quando comprei os primeiros lançamentos da tal world music, lá nos anos 1980, era impossível encontrar discos africanos ou asiáticos por aqui. Hoje, não. Podemos escutar estações de todos os países no Radio Garden (radio.garden). Os aplausos dele vão também para o público, hoje acostumado a ouvir música em diversos idiomas. — O coreano do K-pop, o espanhol de Bad Bunny e todos os idiomas de Rosalía — ele lista. — E estas talvez sejam as duas pessoas mais influentes da música contemporânea. O mais curioso (e talvez triste) em todo esse caldeirão multinacional talvez seja o outro lado: a intolerância com imigrantes (à qual o show apoteótico do porto-riquenho Bad Bunny foi uma resposta, no Super Bowl, em fevereiro) e a xenofobia, que estão mostrando a cara nos próprios Estados Unidos, sede da Copa. Os EUA já mandaram o Irã (país classificado para o torneio) se hospedar no México (mesmo com jogos marcados em cidades americanas); negaram a entrada do árbitro somali Omar Artan (eleito o melhor do continente africano); não deram vistos a torcedores escoceses, além de outras atitudes lamentáveis. — Os africanos e os árabes estão em todas as seleções — lembra Marcelo Lobato, ex-integrante do Rappa e militante da música africana em sua outra banda, o Afrika Gumbe, que reúne sons e dialetos daquele continente a elementos brasileiros. — Eu comecei a curtir a música da África nos anos 1980, quando estudava vibrafone na faculdade e conheci um pessoal que tocava num bar na Lapa, embaixo de uma agência de viagens angolana. Foi um baixista panamenho que me levou. Nos encontros semanais, músicos da Guiné-Bissau, de Angola e do Senegal se uniam a latinos para levar um som. — Ali eu descobri que a música não respeita essas fronteiras geopolíticas — conta Lobato, que tem os teclados, a bateria e a produção como especialidades. — A salsa, com aquela batida caribenha que a gente conhece, vem da música africana. A música afro-cubana influencia o som africano moderno, de países como a Nigéria e a República Democrática do Congo, antigo Zaire. Ou seja, a música sai da África, chega ao Caribe e volta à África, com um sotaque diferente. Afinal, os países africanos são invenção dos europeus, né? As tribos não pediram a ninguém que inventasse aquelas fronteiras. Alexandre Nero defende por que torcer pela Seleção Brasileira na Copa do Mundo: 'Expectativa das crianças' A mesma indefinição estará em evidência na Copa do Mundo, em jogadores como Michael Akpovie Olise, astro da seleção francesa e candidato a craque do torneio: nascido em Londres, filho de mãe argelina e pai nigeriano, ele optou pela bandeira bleu-blanc-rouge (mesmo sem falar o idioma fluentemente). “Sou da Inglaterra, da França, da Argélia e da Nigéria”, já disse ele em entrevistas. Olise, aliás, chama-se Michael, nome tipicamente inglês, assim como outros jogadores da seleção francesa: Mike Magnan, Brice Samba (sim, um goleiro chamado Samba), William Saliba e Warren Zaïre-Emery. Mas franceses não se chamavam Pierre, Jean-Philippe e Antoine? Pois é. Os filhos de camaroneses (como outro astro, Kylian Mbappé) e malineses (como N’Golo Kanté), talvez não. — Pense no hit parade britânico recente — convida Hermano, trazendo o papo de volta para a música. — Alguns dos nomes mais consagrados, em vendas ou aclamação crítica: Stormzy, que já foi atração principal do festival de Glastonbury, é nome artístico de Michael Ebenazer Kwadjo Omari Owo Jr; Skepta se chama Joseph Junior Adenuga; Olivia Dean é neta de imigrantes da Jamaica e da Guiana. E assim por diante, sem parar. É uma criatividade que recria o que são essas culturas. Stormzy, Skepta e Olivia Dean são agentes centrais, de maneiras muito diversas, na invenção do que é ser britânico, da nacionalidade do Reino Unido hoje. No Brasil, não faltam exemplos do português sendo cantado pelo mundo, de Tom Jobim e Marcos Valle, passando por Anitta, Cansei de Ser Sexy e Michel Teló e seu hit “Ai se eu te pego”, regravado em versões diversas e sucesso em países como a Itália, a Alemanha e a Eslováquia. Não é exatamente que as nações não existam mais. Mas a noção de país e fronteira pode estar um pouco borrada. — Como eu digo na minha música, o mundo é pequeno pra caramba — diz André Abujamra sobre “O mundo”, já gravada por Ney Matogrosso, Paulinho Moska, Pedro Luís e outros. — Se os caras nasceram na Holanda e querem jogar por Curaçao, ótimo. A diferença é o que nos une. Sim! Além das conhecidas correntes migratórias (por exemplo: Adnan Januzah, que defendeu a Bélgica em 2018, quis representar o país onde nasceu, mas poderia vestir as camisas de Albânia, Kosovo, Sérvia, Turquia e Croácia), a Copa 2026 mostra uma liberdade de ir e vir inédita: se craques holandeses de décadas passadas, como Clarence Seedorf, eram nascidos no Suriname, hoje os holandeses vestem a camisa do país sul-americano (que quase foi à Copa), assim como franceses representam com orgulho o Haiti de seus pais. Doutor Hermano Vianna tem dados: — De acordo com o mais recente relatório da ONU apresentando dados da imigração global, 304 milhões de pessoas viviam, em 2024, fora de seus países de nascimento — diz ele. — O número absoluto impressiona, mas são só 3,7% da população mundial, ou seja, 96,3% nunca imigraram. E por que se fala tanto em imigração? — A propaganda diz que houve uma explosão de imigrantes recentemente, mas esse número cresceu bem vagarosamente, mesmo com tantas novas possibilidades de transporte: era 2,9% em 1990 — diz o antropólogo. E por que os imigrantes e seus descendentes fazem tanto sucesso, em áreas diversas? — Talvez essa criatividade seja uma reação contra a dureza da vida de imigrante, mas também consequência da riqueza de viver entre culturas diferentes.
Nos palcos e na trilha da Copa, artistas borram a ideia de separação entre os países
No ano em que o Mundial tem tem sedes — Estados Unidos e Canadá, além do México —, a música que embala a competição espelha a multiculturalidade doa atletas que correm atrás da bola
Abertura Copa 2026 (EUA, Canadá, México) com artistas globais (Shakira, Anitta, Burna Boy, Katy Perry) coincide com recorde de atletas em seleções não-nativas, transcendendo fronteiras geográficas. Talento sem restrição geográfica é vantagem competitiva estrutural; para gestores tech, recrutamento global é agora norma, não exceção.















