Os Estados Unidos e o Irã trocaram ataques pelo segundo dia consecutivo, deixando o Oriente Médio e o mundo apreensivos nesta quinta-feira quanto à possibilidade do reinício de uma guerra em larga escala na região e de um novo bloqueio completo ao Estreito de Ormuz. O ataque americano, que teve início às 0h45 de Teerã (18h15 de ontem em Brasília), se estendeu até a manhã desta quinta-feira no Irã e foi mais intenso e mais amplo do que o anterior, mas há poucas informações sobre os danos causados. Segundo comunicado do Comando Central dos Estados Unidos (Centcom), a nova série de ataques poderia ser descritas como “ações de autodefesa contra múltiplos alvos no Irã, por determinação do comandante-em-chefe, informou o Exército americano” e “uma resposta” àquilo que descreveu como a “agressão contínua e injustificada” de Teerã. Explosões foram ouvidas em Qeshm, próxima a Ormuz, além das cidades de Bandar Abbas, Minab e Sirik, no sul do Irã, de acordo com veículos de imprensa iranianos, de acordo com informações do New York Times. O presidente Donald Trump já havia ameaçado prosseguir com os bombardeios na quarta-feira se Teerã não fechar um acordo. No mesmo dia, o secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, também elevou o tom e reiterou que as forças americanas lançariam ataques com o objetivo de pressionar o país persa a fechar um acordo nos termos defendidos por Washington. Fontes iranianas disseram à agência Reuters que as negociações entre as partes se intensificaram apesar da nova rodada de hostilidades. Como resposta, o regime iraniano disse ter fechado o Estreito de Ormuz para todo tipo de embarcação, como petroleiros e navios comerciais – o que foi negado pelo Centcom. Além disso, Teerã também anunciou ter retaliado com duas ondas de ataques contra alvos americanos no Kuwait e no Bahrein. As autoridades kuwaitianas afirmaram que suas defesas aéreas interceptaram projéteis hostis e fecharam temporariamente o espaço aéreo do país. No Bahrein, sirenes soaram em diversas áreas, embora o governo não tenha detalhado o motivo do alerta. A Jordânia, por sua vez, disse ter interceptado 20 mísseis iranianos lançados contra a região de Azraq. Um bombeiro trabalha após ataques de drones iranianos , segundo o Ministério do Interior do Bahrein, em um local identificado como sendo no Bahrein, nesta imagem divulgada em 11 de junho de 2026 — Foto: Ministério do Interior do Reino do Bahrein/Divulgação via REUTERS Em comunicado divulgado nesta quinta-feira, o Ministério das Relações Exteriores da República iraniano classificou os bombardeios americanos como uma “grave violação” do cessar-fogo iniciado em abril e enfatizou que o governo americano será responsável pelas consequências “extremamente perigosas” que surgirão deles. “Não há dúvida de que o silêncio e a inação diante das violações da lei e da intimidação praticadas pelos Estados Unidos e pelo regime sionista empurrarão o mundo ainda mais para o caos e a insegurança”, afirma o texto. Também nesta quinta-feira, o vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, Kazem Gharibabadi, reiterou que os novos bombardeios americanos em território iraniano constituem uma violação da soberania e da integridade territorial da República Islâmica e esvaziam o significado do cessar-fogo em vigor. “Descrever esses ataques como ‘legítima defesa’ não produz qualquer efeito jurídico. No direito internacional, o agressor não escapa às consequências de seus atos simplesmente mudando sua denominação, e uma agressão militar não se torna legítima pela criação de novas palavras”, afirmou. Já Mohsen Rezaei, assessor do líder supremo do Irã, o aiatolá Mojtaba Khamenei, chamou Trump de “o presidente desequilibrado dos EUA” e disse que Washington terá de escolher entre aceitar as condições impostas pelo Irã ou abrir mão de seu prestígio internacional. A nova escalada das ofensivas ocorre um dia após os Estados Unidos bombardearem múltiplos alvos no Irã em resposta à derrubada de um helicóptero Apache americano próximo ao Estreito de Ormuz. Teerã retaliou com ataques contra posições americanas na região. A guerra, iniciada após os ataques aéreos de EUA e Israel contra o Irã em 28 de fevereiro, já deixou milhares de mortos, sobretudo em território iraniano e no Líbano, e provocou uma disparada dos preços globais do petróleo com a interrupção de passagens por Ormuz. Apesar de Trump ter dito reiteradamente que um acordo final estava próximo de ser alcançado, o atual estágio das negociações mediadas pelo Paquistão é incerto, uma vez que as posições das partes ainda parecem distantes. Fontes iranianas afirmam que a prioridade de Teerã é obter espaço para aliviar a crise econômica e preservar a estabilidade do regime, incluindo o desbloqueio de ativos congelados e o fim das hostilidades em todas as frentes de batalha, incluindo contra o Hezbollah, no Líbano. Os Estados Unidos, por outro lado, condicionam qualquer entendimento à normalização da navegação no Estreito de Ormuz e a restrições permanentes ao programa nuclear iraniano. O prolongamento da guerra também tem aumentado a pressão sobre a Casa Branca, diante da alta dos preços da energia e das preocupações republicanas com as eleições de meio de mandato previstas para novembro, quando o controle do Congresso, atualmente de maioria republicana, vai ser disputado. Um homem caminha ao lado de uma réplica simbólica de um míssil iraniano , em uma rua de Teerã, Irã , em 11 de junho de 2026 — Foto: Majid Asgaripour/WANA (West Asia News Agency) via REUTERS