Canadense de 59 anos responde por fraude e falsificação após investigação apontar que ele atuou por 16 anos sem a certificação exigida para comandantes de aeronaves comerciais Aviões da Air Canada no Aeroporto Internacional Pearson de Toronto, em Mississauga, Ontário — Foto: Laura Proctor/Bloomberg RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 10/06/2026 - 06:12 Ex-piloto da Air Canada opera 900 voos sem licença por 16 anos Geoff Wall, ex-piloto da Air Canada, é acusado de comandar 900 voos ao longo de 16 anos sem a licença obrigatória, levantando sete acusações criminais, incluindo fraude e falsificação. O caso, que remete a um "roteiro de cinema", gerou investigações sobre falhas de fiscalização tanto pela Transport Canada quanto pela Air Canada. Apesar de Wall ter tido um bom desempenho em treinamentos, a falta de licença levanta questões sobre a segurança aérea. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Autoridades canadenses acusaram um ex-piloto da Air Canada de ter comandado cerca de 900 voos sem possuir a licença obrigatória exigida para exercer a função de comandante de aeronaves comerciais. O caso levou à apresentação de sete acusações criminais contra Geoff Wall, de 59 anos, e foi descrito pela polícia como uma fraude elaborada que "parecia saída de um roteiro de cinema". Segundo a Polícia Regional de Peel, responsável pela investigação, Wall atuou como comandante entre 2009 e 2025 sem possuir a Licença de Piloto de Linha Aérea emitida pela Transport Canada, certificação necessária no país para assumir o comando de voos comerciais. Veterano da Air Canada, ele se aposentou antes do início das investigações. Embora possuísse outras habilitações válidas para pilotar aeronaves, os investigadores afirmam que faltava justamente a licença específica exigida para a função que desempenhava. Entre as sete acusações apresentadas estão fraude superior a 5 mil dólares canadenses, falsificação de documentos e comunicação enganosa às autoridades. A Polícia Regional de Peel, cuja jurisdição inclui o Aeroporto Internacional Pearson, em Toronto — um dos principais centros operacionais da Air Canada —, ressaltou que Wall teria sido responsável pela segurança de milhares de passageiros ao longo dos anos. — Isso é muito semelhante a um médico autorizado a atuar como clínico geral realizando cirurgias cerebrais em seu consultório — afirmou o vice-chefe da corporação, Nick Milinovich. Segundo ele, o caso envolve o exercício de uma atividade para a qual o profissional não possuía a habilitação específica exigida. Fiscalização de rotina deu origem ao Projeto Ícaro As suspeitas surgiram em março de 2025, durante uma fiscalização regulatória realizada no Aeroporto Pearson, onde Wall mantinha sua base operacional. De acordo com Chad Michell, o então comandante apresentou documentos considerados suspeitos durante a inspeção. O episódio levou à abertura de uma investigação administrativa que, posteriormente, evoluiu para uma apuração criminal batizada de Projeto Ícaro. Segundo a polícia, a licença apresentada por Wall foi considerada falsificada. O ex-piloto foi preso em 1º de junho, mas acabou liberado. A primeira audiência do caso está marcada para o fim deste mês. Wall não respondeu imediatamente aos pedidos de comentário feitos pela imprensa canadense. Autoridades e Air Canada investigam falhas nos controles A Transport Canada também realizou uma investigação própria e aplicou penalidades administrativas ao ex-piloto, embora não tenha divulgado detalhes sobre as multas impostas. Pelas normas canadenses, a Licença de Piloto de Linha Aérea exige aprovação em três exames teóricos e o cumprimento de pelo menos 1.500 horas de voo. O caso levantou questionamentos sobre os mecanismos de fiscalização adotados pelas autoridades reguladoras e pela própria companhia aérea. Segundo John Gradek, professor de gestão da aviação na Universidade McGill, tanto a Transport Canada quanto a Air Canada podem ser alvo de questionamentos caso fique comprovado que Wall realmente não possuía a certificação adequada. — Ele era um excelente piloto — afirmou: — Isso não significa que estivesse autorizado a voar. A Air Canada declarou que a segurança dos passageiros "não foi comprometida". Segundo a empresa, seus pilotos passam por treinamentos operacionais a cada seis meses e Wall apresentava desempenho satisfatório nessas avaliações. De acordo com a companhia, o ex-funcionário "cumpriu ou superou com sucesso os requisitos de treinamento recorrente, demonstrando alto nível de competência para operar aeronaves de grande porte". Wall trabalhou durante 27 anos na empresa. "No entanto, a licença apropriada constitui uma camada essencial da abordagem multifacetada da indústria aérea em relação à segurança, motivo pelo qual a Air Canada trata este assunto com máxima seriedade", afirmou a companhia. A empresa informou ainda ter realizado uma auditoria interna em seu quadro de pilotos e disse não ter identificado outros casos semelhantes. Ex-comandante atuava em faculdade após aposentadoria Depois de deixar a Air Canada, Wall passou a trabalhar no Georgian College como coordenador de estudantes com vínculos militares em sua cidade natal. O porta-voz da instituição, Philip Scheirich, confirmou que ele exercia a função em regime de meio período, mas afirmou que a faculdade não comentaria uma investigação criminal em andamento. Em um relato autobiográfico publicado anteriormente no site do Georgian College — posteriormente removido —, Wall afirmou ter iniciado sua trajetória na aviação ainda durante o ensino médio, quando obteve sua licença de piloto privado. Ele também relatou ter ingressado nas Forças Armadas canadenses, onde pilotou helicópteros "a partir dos convoos de navios da Marinha", antes de ser contratado pela Air Canada em 1998. "Ainda me lembro de pensar que não havia a menor chance de conseguir o emprego", escreveu. Daniel Blouin, porta-voz do Departamento de Defesa Nacional do Canadá, informou que um homem chamado Geoffrey Wall ingressou nas Forças Armadas em 1987, atuou como piloto de helicópteros marítimos e foi dispensado em 2004.