“Não vejo a trilogia há uns 20 anos, mas acredito continuar me orgulhando dela”, diz Peter Jackson — Foto: Sipa USA via AP Ao vasculhar suas memórias, em razão do 25º aniversário de lançamento de “O senhor dos anéis’’ (2001), Peter Jackson admite que a adaptação da saga ambientada na Terra-Média nasceu de uma necessidade empresarial. “E não de um motivo pelo qual devemos fazer filmes. Como tínhamos investido em empresa de efeitos visuais, precisávamos mantê-la funcionando”, diz o cineasta neozelandês de 64 anos, um dos fundadores da Weta FX, nos anos 90. “‘Os espíritos’ (1996) é o que está por trás de ‘O senhor dos anéis’”, afirma Jackson, referindo-se à comédia de terror que ele dirigiu com Michael J. Fox no papel de médium charlatão contratado para limpar uma casa mal-assombrada. “Essa produção nos levou à abertura da Weta, na Nova Zelândia, onde tínhamos cerca de 30 computadores e 30 profissionais encarregados dos efeitos de computação gráfica.” E quando “Os espíritos” foi concluído, Jackson não queria desperdiçar toda a infraestrutura montada nem tirar o emprego dos funcionários. “Começamos então a pensar no que poderíamos fazer para manter toda a nossa equipe de efeitos. Colocamos essa pressão sobre nós mesmos”, recorda o cineasta, que logo sugeriu à produtora e roteirista Fran Walsh, sua mulher, um filme do gênero fantasia, por exigir um espetáculo visual. Fã desde criança de Ray Harryhausen (1920-2013), Jackson propôs que o casal se inspirasse nas obras do pioneiro na criação de monstros e criaturas extraordinárias em stop-motion em Hollywood. “Cresci vendo filmes como ‘Simbad e a princesa’ (1958) e ‘Jasão e os argonautas’ (1963)”, conta o diretor, durante a 79ª edição do Festival de Cannes, em encontro com o público e a imprensa, do qual o Valor participou. “Mas quando pensávamos em enredos originais, percebíamos que algo parecido já tinha sido feito em ‘O senhor dos anéis’. Depois de umas duas semanas tentando sair do lugar, veio a pergunta: por que diabos não tentamos descobrir quem detém os direitos de ‘O senhor dos anéis’ para uma adaptação?”, lembra Jackson, em um auditório lotado por mais de mil pessoas em Cannes, onde o cineasta ganhou uma Palma de Ouro honorária. Os direitos sobre a obra do escritor inglês J.R.R. Tolkien (1892-1973), que criou um universo mitológico próprio para o embate entre as forças do bem e do mal, pertenciam ao produtor Saul Zaentz. E o mesmo já tinha realizado, sem muito sucesso, a animação “O senhor dos anéis”, dirigida por Ralph Bakshi, em 1978. “Como Zaentz ficou desiludido e não tinha pressa em fazer mais nada com o material, foi necessária a participação especial do infame Harvey Weinstein”, diz o cineasta. Na época, Jackson tinha um acordo de exclusividade com a Miramax, a empresa de Bob e Harvey Weinstein, com quem Zaentz tinha acabado de produzir “O paciente inglês” (1996). “Como a 20th Century Fox desistiu do filme durante a pré-produção, Harvey foi quem salvou ‘O paciente inglês’. Então ele sabia que Zaentz lhe devia um favor”, conta Jackson, lembrando que filmes são “resultados de estranhos acidentes e coincidências”. No caso de “O senhor dos anéis”, um acidente que inaugurou uma trilogia de filmes responsável pela bilheteria mundial de quase US$ 3 bilhões. Se somada a quantia arrecadada pela saga “O hobbit”, trilogia também dirigida por Jackson, que veio depois, apesar de seus eventos antecederam os de “O senhor dos anéis”, a renda dos seis longas-metragens ultrapassa os US$ 5,8 bilhões. Os três primeiros filmes, “O senhor dos anéis: A sociedade do anel”, lançado em dezembro de 2001; “O senhor dos anéis: As duas torres” (2002) e “O Senhor dos anéis: O retorno do rei” (2003), voltaram aos cinemas neste ano como parte das celebrações. A bilheteria de relançamento totalizou mais de US$ 20 milhões ao redor do globo, onde diferentes eventos complementam a programação do aniversário da chegada às telas dos guerreiros, guardiões, monstros e seres mágicos de Tolkien. A Casa da Moeda britânica lançou no final de maio a primeira de sete moedas comemorativas colecionáveis. A primeira peça traz a imagem de um anel dourado, com a inscrição em élfico, a língua dos elfos. Concertos com a trilha sonora da jornada épica, assinada por Howard Shore, ainda se espalham pelo mundo. Como o “Candlelight”, com quarteto de cordas à luz de velas, programados ao longo do ano pelo Brasil (passando por São Paulo em agosto). Lançamentos de livros, turnês de reencontro do elenco em convenções e outras aparições de atores também reforçam as festividades. A Fan Expo Chicago promove uma noite especial com o time de hobbits, em agosto. E Elijah Wood, eternizado como Frodo, vem ao Brasil para a Comic Con Experience (CCXP), agendada para dezembro em São Paulo. Tudo para honrar o legado da franquia que marcou a cultura pop, contribuiu para a avanço dos efeitos especiais, fez da Nova Zelândia um polo turístico e ainda legitimou o gênero fantasia na indústria, abrindo caminho para “Game of Thrones” (2011-2019), por exemplo. A Academia de Hollywood até passou por cima de um antigo preconceito contra o gênero, entregando 17 prêmios Oscar à trilogia. Onze dos troféus foram conquistados por “O retorno do rei”, incluindo a estatueta de melhor filme, sendo o primeiro título de fantasia a alcançar a façanha na história da Academia. “Com os prêmios técnicos conquistados pelos primeiros filmes, ficamos com a sensação de que os membros segurariam os seus votos até a terceira aventura. Foi mesmo uma noite surreal”, recorda o diretor, com os característicos cabelos desgrenhados. Atualmente, Jackson se dedica à produção de mais um desdobramento da franquia, com a estreia em 2027. “O senhor dos anéis: A caçada por Gollum” tem direção de Andy Serkis, justamente o ator que deu vida ao personagem escravizado pelo anel. “Ninguém melhor do que Andy para se aprofundar na psique de Gollum”, afirma Jackson, explicando por que não é ele o diretor. Como cineasta, sua próxima missão será dar continuidade às peripécias de Tintin, o jovem repórter nascido nos quadrinhos de Hergé. “Pelo acordo com Steven Spielberg, ele dirigiria um filme [‘As Aventuras de Tintin’, em 2011], e eu, outro. Já se passaram 15 anos, e eu ainda não me decidi, o que me deixa muito constrangido. Mas Steven é educado demais para me pressionar”, conta Jackson, jurando que finalmente começou a escrever o roteiro. “Será que algum dia vou fazer algo tão bem-sucedido comercialmente quanto ‘O senhor dos anéis’? Tenho quase certeza que não”, diz o diretor, rindo. “E tudo bem. Tanta gente faz filmes a vida toda e não alcança esse tipo de reconhecimento. Não vejo a trilogia há uns 20 anos, mas acredito continuar me orgulhando dela. Pelo menos o público ainda parece gostar do que fiz.”
Nos 25 anos de ‘O senhor dos anéis’, Peter Jackson revela que um acaso deu início ao filme
Atualmente, o diretor se dedica à produção de ‘A caçada por Gollum’, com direção de Andy Serkis













