Hylde Lynn Helphenstein foi encontrada morta na cama ao lado de comprimidos e uma garrafa de vodca, um copo atirado ao chão da suíte onde dormia no luxuoso hotel Rosewood, no centro de São Paulo. O nome desconhecido de muitos, mais muito conhecido por trás do disfarce Jerry Gogosian, ganhou as manchetes na última semana, detonando uma onda de declarações dos mais poderosos personagens do mundo da arte, que em suas paródias ela fez parecer agressivos, ambiciosos, sexy, ingênuos, trapaceiros, criminosos, quando não assediadores —isso sem nunca perder a classe, a elegância e o humor dos mais sofisticados.

O perfil no Instagram que a jovem artista batizou com um mash-up dos nomes do crítico Jerry Saltz, da revista New York, e Larry Gagosian, marchand dono de um dos maiores impérios de galerias de arte no planeta, seguido por dez entre dez dos habitués desse mundo de altos e baixos, e altas baixarias, denunciava as contradições e as mais sedutoras idiossincrasias de um universo opaco e muitas vezes impossível de entender para quem não passa da porta ou da antessala das alcovas do chamado mundinho.

É tudo muito sedutor, ao mesmo tempo que pode ser raso, decepcionante, ou pior ainda, muito perigoso. Enquanto a polícia investiga o que terá acontecido a Helphenstein na tarde daquele último domingo do mês passado, quando ela foi encontrada já sem vida, é difícil não pensar que a jovem artista que fez de seu diário mordaz das extravagâncias desse sistema não pode ter sido mais uma vítima de suas engrenagens selvagens.