Órgão americano recomendou a aplicação de taxas de 25% sobre os produtos brasileiros e argumentou que o país utiliza políticas desleais para favorecer método próprio de transações Na esquerda e na direita, Pix virou tema eleitoral — Foto: Reprodução RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 06/06/2026 - 21:30 Pix vira tema central em disputas políticas e comerciais no Brasil O Pix, sistema de pagamento instantâneo brasileiro, tornou-se peça central na política nacional, especialmente nas campanhas eleitorais desde 2022. O método está no centro de uma disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, que reivindica a criação da ferramenta pelo pai, Jair Bolsonaro. Recentemente, os EUA recomendaram tarifas sobre produtos brasileiros, alegando favorecimento ao Pix. O governo brasileiro respondeu com o lema "O Pix é nosso", destacando a popularidade do sistema, utilizado por 80% da população. A questão gerou debates sobre a soberania nacional e a influência política, refletindo a importância do Pix na vida cotidiana dos brasileiros. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Na mira dos Estados Unidos, o Pix está no centro da disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que resgatou o discurso em defesa da soberania nacional, e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que credita ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, a criação da ferramenta. O uso eleitoral do tema remonta à campanha de 2022 e reflete o espaço que o sistema de pagamentos passou a ocupar na vida dos brasileiros, alterando, por vezes, a percepção sobre o governo. O assunto voltou a ganhar força na última semana, após o anúncio da conclusão de uma investigação do Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR). O órgão recomendou a aplicação de taxas de 25% sobre os produtos brasileiros, sob o argumento de que o país utiliza políticas desleais para favorecer seu método próprio de transações em detrimento de empresas de serviços de pagamento eletrônico americanas. Em reação, o Palácio do Planalto recuperou o lema “O Pix é nosso”, lançado no ano passado após o início da apuração dos Estados Unidos e em meio aos desdobramentos do primeiro tarifaço. A estratégia também serviu para alfinetar Flávio Bolsonaro, acusado por governistas como o culpado pela reação americana, após um encontro com Donald Trump na semana que antecedeu a crise. O senador negou ter envolvimento com a medida e apostou na criação de um slogan próprio: “O Pix é do Brasil e do Bolsonaro”. Capitalização Em 2022, quando disputou a reeleição, Bolsonaro se colocou como o responsável pela invenção do mecanismo em uma propaganda eleitoral gratuita exibida na TV no final de agosto, cerca de um mês antes do segundo turno. Na peça publicitária, ele diz que sua gestão criou o sistema de pagamentos em 2020 e relembra “a dificuldade para fazer uma transferência de recursos” no passado. “É o nosso governo inovando”, acrescentou. Para Maurício Moura, fundador do instituto de pesquisa Ideia, apesar da tentativa de capitalizar o assunto, a opinião pública não identifica quem esteve por trás da criação da ferramenta, mas a reconhece como valiosa. — Não há uma identificação da população sobre um padrinho do Pix. Ele já foi incorporado como um serviço público que gerou um efeito muito importante ao aumentar a bancarização, no sentido de que é muito mais fácil utilizá-lo do que lidar com dinheiro em espécie. Isso facilitou, principalmente, as transações de empreendedores e trabalhadores informais — afirma. O Banco Central estima que o método de pagamento é usado por mais de 170 milhões de pessoas, número que corresponde a cerca de 80% da população e, só em janeiro deste ano, foi responsável por movimentar R$ 7 bilhões. Já uma pesquisa Radar Febraban feita em setembro de 2024 pelo Ipespe identificou que a ferramenta é aprovada por 95% dos brasileiros e tem a melhor nota entre todos os meios de pagamento testados — à frente, em ordem, dos cartões de débito e crédito, das transferências TED e do cheque bancário. Em função de sua popularidade, qualquer ruído sobre a ferramenta representa para os eleitores uma “possível ameaça a algo que organiza a vida prática deles”, diz Felipe Nunes, CEO da Quaest. A percepção foi testada no início do ano passado, diante da repercussão de um vídeo publicado pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG). O parlamentar insinuava que o governo ia taxar as transações a partir de uma instrução normativa publicada pela Receita Federal sobre a necessidade de maior monitoramento das transferências. O discurso repercutiu nas redes sociais, replicado por bolsonaristas, e influenciou na perda de popularidade de Lula. O levantamento feito pela Quaest logo após o episódio mostrou que, pela primeira vez no terceiro mandato do petista, o percentual de reprovação do governo (49%) superou numericamente a aprovação (47%), tendência que não foi revertida até hoje. Antes, ainda durante a campanha de 2022, Lula afirmou que era alvo de “fake news” criadas pelos adversários segundo os quais, caso eleito, ele daria fim ao método de pagamento. — Na crise do Pix do ano passado, o governo sofreu porque ficou no lugar de quem precisava se explicar. Mesmo quando a ideia de taxação não correspondia ao que estava sendo feito, a percepção de risco já tinha se espalhado. E, em política, percepção de ameaça ao bolso costuma andar muito mais rápido do que explicação técnica. Depois, quando Lula consegue deslocar o debate para a defesa da soberania, a chave muda — afirma Nunes. Por trás do discurso do governo, pontua Murilo Medeiros, cientista político da Universidade de Brasília (UnB), também há uma tentativa de alçar a ferramenta como um patrimônio afetivo nacional. — O Pix caminha na mesma direção de outros elementos que, ao longo da história, foram construídos no Brasil como símbolos que ultrapassaram o campo econômico e se transformaram em elementos de identidade nacional. Foi assim com a campanha “O petróleo é nosso”, nos anos 1950, durante o governo Vargas — diz Medeiros. Já o CEO da Quaest avalia que, na disputa de votos contra Lula, Flávio tem buscado se inserir no debate a partir de uma “reação defensiva”, que pode funcionar para a base bolsonarista ao reforçar uma memória positiva de apoiadores em relação ao governo do pai, afirma Felipe Nunes. Ao ser expandida para o restante da população, porém, a estratégia apresenta seus riscos, segundo ele. — O Pix é tão popular que a população tende a vê-lo como dela, não como propriedade de um político. Quando alguém tenta personalizar demais uma ferramenta desse tipo, pode parecer oportunismo. E o risco aumenta se a narrativa dominante for a de que o clã Bolsonaro se aproximou de Trump e dos EUA num momento em que o sistema e produtos brasileiros passaram a ser alvo de pressão externa — considera. Novo desgaste Na campanha bolsonarista, um novo desgaste foi gerado na última semana com uma declaração do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP). Em entrevista à rádio TMC, ele disse que existem mecanismos semelhantes ao Pix nos Estados Unidos, onde reside desde o ano passado, e citou o sistema de transferências Zelle como um elemento que poderia ser levado para “uma mesa de negociação com os americanos”. A declaração foi criticada nas redes sociais por perfis que o acusaram de “vassalagem” em relação ao governo americano.