A decisão da administração Trump de desmantelar a maior parte de uma rede federal de observação oceânica avaliada em 386 milhões de dólares vai privar os cientistas de uma fonte insubstituível de dados, usados para compreender de que forma as alterações climáticas estão a afectar correntes vitais e ecossistemas marinhos, bem como a agravar as inundações costeiras.“Nenhum outro sistema tem esta abrangência”, afirmou Craig McLean, ex-cientista-chefe interino da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA, na sigla em inglês) e actualmente investigador sénior na Ocean Foundation. Outras redes de monitorização fornecem informações valiosas, mas representam apenas “fragmentos”, disse, daquilo que é medido de forma colectiva.A rede de sensores, bóias e instrumentos autónomos conhecida como Iniciativa dos Observatórios Oceânicos (OOI, na sigla em inglês) será despojada de quase toda a infra-estrutura subaquática, de acordo com os planos anunciados em finais de Maio pela Fundação Nacional para a Ciência (NSF). As autoridades federais enviarão embarcações para recolher os equipamentos instalados na maior parte das estações do Atlântico e do Pacífico.O sistema entrou em funcionamento em 2016 e foi concebido para fornecer observações contínuas durante pelo menos 25 anos. Os investigadores têm utilizado os dados recolhidos para estudar o papel dos oceanos na absorção de calor e dióxido de carbono, entre outros temas.Uma rede ao largo do Oregon que monitoriza a geologia do fundo marinho, bem como as condições vulcânicas e sísmicas, continuará a operar até 2028, segundo a NSF, tal como o centro de dados fundamental da iniciativa. Os investigadores manterão acesso aos dados já recolhidos.Ataques à investigaçãoEm comunicado, a NSF afirmou que a decisão reflecte “uma abordagem mais ágil para priorizar o apoio às prioridades científicas em evolução e às tecnologias emergentes, bem como uma gestão inteligente do ciclo de vida do seu portefólio de infra-estruturas de investigação.” O comunicado citou um relatório das Academias Nacionais de 2025 que recomendava uma revisão da rede de observação para a alinhar com as necessidades em evolução.Esta medida surge na sequência de um ataque em várias frentes da administração Trump à investigação e aos programas relacionados com o clima, bem como de esforços anteriores para reduzir o financiamento da iniciativa. O orçamento da NSF para o ano fiscal de 2026 propunha um corte de 80%, que o Congresso rejeitou.Ao contrário de amostras recolhidas de forma intermitente, a OOI monitoriza de forma contínua os locais observados, recorrendo a uma grande variedade de sensores. Os cientistas afirmam que isto lhes permite distinguir flutuações de curto prazo de mudanças ambientais de longo prazo.Os sensores da OOI no Mar de Irminger, entre a Gronelândia e a Islândia, ajudam a acompanhar a Circulação de Revolvimento do Atlântico — uma enorme correia transportadora de correntes quentes e menos profundas para norte, e frias e mais profundas para sul. A corrente está a enfraquecer e poderá colapsar nas próximas décadas, em vez de nos próximos séculos, como alguns cientistas agora admitem.Alternativas insuficientesOs especialistas afirmam que não existe alternativa capaz de substituir plenamente a rede. A rede de bóias Argo, apoiada por dezenas de países, a rede RAPID liderada pelo Reino Unido, e os observatórios operados pelo Canadá, Europa e Japão também recolhem dados oceânicos, mas esses e outros sistemas são geralmente considerados complementares à OOI e não intermutáveis com ela.A UE anunciou esta semana que vai expandir o seu investimento na monitorização oceânica, investindo 92 milhões de euros num programa chamado OceanEye.“Existem alguns grandes programas de observação oceânica liderados por outros institutos oceanográficos”, disse Penny Holliday, directora científica do Centro Nacional de Oceanografia do Reino Unido. Mas os dados da rede norte-americana têm sido “fundamentais para compreender o oceano, de que forma está a mudar e de que modo essas mudanças afectam as pessoas e o planeta.”A OOI oferece um nível de detalhe único, segundo Chris Robbins, director associado de iniciativas científicas na Ocean Conservancy. “O Argo é algo análogo à medição dos sinais vitais de alguém, na medida em que fornece um instantâneo da saúde,” disse. “A OOI proporciona um nível de diagnóstico mais aprofundado, equivalente ao que se obtém com exames de imagem e análises sanguíneas.”O que torna a rede tão valiosa para os investigadores é a sua combinação de observações em locais fixos com a capacidade de medir simultaneamente processos biológicos, químicos, físicos e geológicos, desde a superfície até ao fundo do mar. Mas, uma vez interrompidas as observações num determinado local, as lacunas resultantes no registo não podem ser recriadas.Robbins questionou por que razão o governo está a desactivar infra-estruturas que continuam a funcionar. Abandonar um investimento tão avultado “num sistema de vanguarda, uma proeza de engenharia já paga pelo povo americano, é absolutamente míope”, afirmou.As consequências serão de longo alcance, disse McLean. “Estaremos a desmontar os componentes que produzem resultados amanhã,” disse. “É muito mais fácil preocupar-se apenas com o que está a acontecer hoje, em vez de pensar no que se perspectiva a longo prazo.”Exclusivo PÚBLICO/Bloomberg
Trump desmantela sensores oceânicos que fornecem dados cruciais sobre clima e inundações
A rede de sensores, bóias e instrumentos autónomos conhecida como Iniciativa dos Observatórios Oceânicos será despojada de quase toda a infra-estrutura subaquática.










