Bancos centrais da América Latina e do Caribe, incluindo o do Brasil, estão acompanhando um projeto-piloto do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para testar uma infraestrutura regional de liquidação de valores com moedas digitais emitidas por autoridades monetárias. A iniciativa, chamada CBWeb3, tem entre seus objetivos permitir pagamentos transfronteiriços e operações de câmbio entre países da região sem depender necessariamente do dólar ou de bancos correspondentes como intermediários. O projeto ocorre em um momento em que bancos centrais de diferentes países reavaliam o desenho de suas moedas digitais. No Brasil, o Drex perdeu tração no formato originalmente pensado, depois de o BC apontar dificuldades técnicas relacionadas à privacidade. A nova iniciativa regional, porém, tem escopo mais restrito: em vez de uma moeda digital de uso amplo no mercado doméstico, o foco está em pagamentos entre países, câmbio “tokenizado” e liquidação em ambiente de testes. A proposta é criar uma infraestrutura em que cada banco central possa emitir sua moeda tokenizada, preservando a autoridade monetária de cada país. Não se trata, portanto, de uma moeda única regional. Em um exemplo hipotético, um importador brasileiro poderia pagar uma empresa colombiana em reais tokenizados, enquanto o exportador receberia pesos colombianos tokenizados, com a conversão feita dentro da própria infraestrutura. Projeto foi desenhado como um bem público digital, com códigos e modelos disponibilizados em formato aberto Apesar de muitas vezes ser associado ao conceito de CBDC, as moedas digitais emitidas pelos BCs, o projeto usa uma nomenclatura mais específica. Segundo Marcos Sarres, CEO da GoLedger, empresa que participa do desenvolvimento tecnológico da iniciativa, a moeda usada no piloto é chamada de TCBM, sigla para dinheiro tokenizado por banco central. A iniciativa foi idealizada pelo BID Lab, braço de inovação do BID, e executada com apoio da LNET, fundação ligada ao ecossistema da antiga LACChain. O consórcio formado pela Águila Hub e pela GoLedger foi selecionado para apoiar o desenvolvimento da solução. Segundo Luiz Fernando Jeronymo, sócio da Águila Hub, o projeto começou a ser estruturado no fim de 2024 e entrou em fase final de codificação neste ano. O projeto testa dois modelos principais. O primeiro replica, em ambiente tokenizado, a lógica dos bancos correspondentes, usados em transferências internacionais. O segundo é considerado mais inovador: envolve o uso de “pools” de liquidez, em que a conversão entre moedas poderia ser feita por meio de algoritmos, com base na oferta e demanda de cada par. A promessa é reduzir custos e prazos de transferências internacionais. Hoje, remessas e pagamentos entre países costumam depender de uma cadeia de intermediários, além de conversões que frequentemente passam pelo dólar. Em uma infraestrutura tokenizada, a liquidação poderia ocorrer em minutos, segundo Sarres. Segundo fontes ouvidas pelo Valor, instituições brasileiras foram procuradas ou demonstraram interesse em acompanhar a iniciativa. O Banco do Brasil estava em conversas avançadas para participar dos testes, segundo pessoas familiarizadas com o assunto. Procurado, o banco não quis comentar. Do lado técnico, um dos principais desafios é a privacidade. Esse ponto foi central no Drex e continua sendo uma preocupação para projetos que envolvem ativos tokenizados em ambiente regulado. Em uma rede compartilhada, bancos e autoridades precisam garantir que as transações sejam verificáveis, mas sem expor informações sensíveis, como posição de liquidez, valores negociados e relacionamento entre instituições. Sarres afirma que a privacidade foi tratada desde o início no CBWeb3. Segundo ele, o projeto utiliza técnicas de prova de conhecimento zero, conhecidas como ZKP, para permitir que apenas as partes envolvidas na operação e os respectivos bancos centrais tenham acesso às informações da transação. “Se eu tiver um banco querendo fazer uma operação com um segundo banco, ele não quer que o resto do mercado compreenda a sua operação, saiba quanto ele tem de liquidez ou quais são as ações nesse sentido. Isso é natural”, diz Sarres. Jeronymo afirma que o piloto do BID aproveita aprendizados do Drex, mas não substitui o projeto brasileiro. Segundo ele, a iniciativa regional pode funcionar como um complemento, ao permitir que o Banco Central brasileiro teste ferramentas de privacidade que não chegaram a ser experimentadas no Drex. O projeto também foi desenhado como um bem público digital. Isso significa que os códigos e modelos desenvolvidos devem ser disponibilizados em formato aberto, permitindo que outros países, bancos centrais ou instituições financeiras testem a infraestrutura no futuro. A expectativa dos envolvidos é que os testes com bancos centrais avancem ao longo do segundo semestre. Por ora, não há previsão de entrada em produção. O piloto deve servir para que cada autoridade monetária avalie, de acordo com sua maturidade tecnológica e regulatória, se pretende usar a infraestrutura em novos casos de uso. Em nota ao Valor, o Banco Central afirmou que acompanha “com interesse” o piloto, conduzido pelo BID e voltado ao desenvolvimento de infraestruturas digitais para negociação de ativos e liquidação em moedas de bancos centrais na América Latina. O Banco Central, no entanto, disse que “não tem mantido participação ativa na iniciativa”. Ainda assim, afirmou buscar acompanhar a evolução do projeto “com vistas a incorporar aprendizados relevantes e permanecer alinhada às discussões internacionais sobre o tema”.
BID testa pagamento internacional com ‘cripto’ na AL
Iniciativa, chamada CBWeb3, tem entre seus objetivos permitir pagamentos transfronteiriços e operações de câmbio entre países da região sem depender necessariamente do dólar ou de bancos correspondentes








