Arqueólogos não param de descobrir novos pedaços de construções, de objetos e de corpos que permitem imaginar como era a vida nas várias Romas de outras épocas Monte Capitolino, praça em Roma, na Itália — Foto: Pexels De volta a Roma, que conheci aos 19 anos, graças a uma viagem de intensivão cultural que meus pais deram a mim e minhas irmãs, e valeu mais do que anos de faculdade, um presente inesquecível que mudou nossas vidas. Vocês sabem, ninguém volta o mesmo de uma viagem, imaginem uma primeira viagem dessas. Às oito da manhã, estremunhados de sono, o guia já nos esperava no hotel, e rodávamos o dia inteiro por museus, igrejas, ruínas e monumentos fartamente explicados. Doutorei em Império Romano, que já me interessava muito pelos livros, mas ao vivo é outra coisa, você imaginar as pessoas e a cidade daqueles tempos de poder absoluto em que Roma era a capital do Império. De lá para cá, voltei incontáveis vezes a Roma, a cidade que mais visitei em minha longa vida viajeira, cada vez com mais amor e deslumbramento pela beleza generalizada e emocionante: para onde apontar sua câmera, ou seus olhos, é bonito, é muito bonito sempre. Em todos os tons de ocre, terracota e rosa, Roma abriga várias Romas e de todas as épocas históricas, sobre as várias camadas de ruínas e vestígios em que se ergue a Roma atual. Mas que está sempre em movimento: para trás. Os arqueólogos e historiadores não param de descobrir novos pedaços de construções, de objetos e de corpos que permitem imaginar como era a vida na Roma Imperial, Medieval, Renascentista, Iluminista, Cinquentista e Sessentista, e desfrutá-la como nos anos 1950, quando a Itália saía devastada da guerra e vivia uma assombrosa reconstrução, com o seu cinema, sua literatura, sua fabulosa base cultural, rodando pelas ruas de Roma em Vespas e carrinhos Fiat Cinquecento na Via Veneto da “Dolce Vita”. Em 1983, me mudei para Roma, onde vivi quatro anos, aprendendo civilização, artes, história e principalmente política. Ainda estávamos na ditadura no Brasil, e a Itália tinha o Partido Comunista, o Socialista, a Democracia Cristã e o Movimento Social Italiano, de extrema-direita nacionalista e neo-fascista, que conviviam civilizadamente no Parlamento — e eu morria de inveja dos italianos. O que mais me atraía em Roma era a beleza, da língua, da cidade, dos romanos, a riqueza da cultura e principalmente o humor, o dom para humor dos italianos, comediantes natos, espalhados por todas gerações e classes sociais. Eram saraivadas de gargalhadas diárias, a vida como comédia, como filmes de Fellini e Dino Risi. Em Roma conheci o poderoso feminismo italiano, o mais articulado da Europa na época, com milhares de mulheres desfilando pela Via Nazionale vestidas de lilás (viola, em italiano) ovacionadas pelo povo no Dia da Mulher. Afinal, a Itália é um matriarcado familiar, dominado pela mamma, que nos almoços de domingo esbofeteia o filho mafioso, que decide quem casa com quem, quem manda na família e quem faz a comida. Mas o machismo italiano, lendário, quase caricato, mas violento, ainda detém o poder politico e econômico e não larga o osso. A primeira-ministra é mulher... mas de extrema direita, que por sua vez é machista raiz.
Roma, um caso de amor
Arqueólogos não param de descobrir novos pedaços de construções, de objetos e de corpos que permitem imaginar como era a vida nas várias Romas de outras épocas







