Pilhas de livros e documentos sobre cinema, literatura, jornalismo e história dividem espaço com tipos móveis e equipamentos de impressão tipográfica no antigo escritório de Alberto Dines. No centro da sala, onde antes escrevia o jornalista, está o computador diante do qual Norma Couri, sua viúva e também jornalista, trabalha.

A cena encerra "Alberto Dines – Vínculos de Liberdade", documentário lançado neste ano por Ugo Giorgetti. O filme serviu de ponto de partida para a conversa entre o diretor e o crítico da Folha Inácio Araújo, realizada nesta quarta-feira (3), como parte da programação do Festival Cineastas de São Paulo, com apoio da Folha.

Na abertura do encontro, no Espaço Petrobrás de Cinema, na região central de São Paulo, Araújo destacou a singularidade da obra de Giorgetti no cinema brasileiro. Segundo o crítico, seus filmes escapam das classificações mais usuais da historiografia nacional, sem se encaixar plenamente no Cinema Novo, no cinema marginal ou na tradição acadêmica. Em comum, disse, está a atenção aos ambientes, aos pequenos gestos e às transformações captadas em escala cotidiana.

Ao comentar títulos exibidos na retrospectiva, Araújo citou especialmente "O Príncipe" (2002), que acompanha o retorno de um intelectual a uma São Paulo transformada. Para o crítico, o filme registra um momento específico da cidade e sintetiza uma característica recorrente da filmografia do diretor: personagens confrontados com o tempo, a mudança e a desilusão.