O governo chinês acredita que o episódio é página virada, mas há quem discorde Campo de futebol na Universidade de Pequim, berço do movimento pró-democracia de 1989 — Foto: Marcelo Ninio/O Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 04/06/2026 - 11:46 Massacre da Praça da Paz Celestial: 37 Anos de Censura na China Há 37 anos, o massacre da Praça da Paz Celestial marcou a história da China, onde estudantes protestaram por democracia e liberdade, resultando em repressão brutal. O evento é censurado e desconhecido por muitos jovens chineses. Um estudante de Pequim reflete sobre a importância de lembrar o ocorrido, criticando a "amnésia coletiva" imposta pelo governo. A liberdade de expressão continua sendo um tema sensível na China atual. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Em 1989, estudantes chineses tiveram a ousadia de lançar um movimento em defesa da liberdade e da democracia no coração de Pequim, acampando durante meses na Praça da Paz Celestial (Tiananmen, em mandarim). Pagaram caro por isso. Muitos foram mortos na repressão do governo — o número exato jamais ficou conhecido. Milhares terminaram atrás das grades, outros fugiram para o exterior e jamais voltaram. Desde então, a economia da China disparou e o país cada vez mais consolida seu status de superpotência global. O desenvolvimento é inegável, num ritmo sem precedentes. Mas o massacre de Tiananmen, que completa hoje 37 anos, continua sendo um tabu, cercado de forte censura oficial. O episódio não consta nos currículos escolares e é ignorado pela mídia estatal. Muitos jovens sequer ouviram falar do massacre. Isso ainda tem importância? O governo chinês acredita que é página virada. Há quem discorde. Ele tem 21 anos, mesma faixa etária dos estudantes que participaram dos protestos de 1989. Estuda na Universidade de Pequim, onde nasceu o movimento. Com os amigos mais próximos, mantém discretamente um grupo de discussão política, movido por um desejo de liberdade semelhante ao de 1989, atualizado para os dias atuais. Mesmo ocupado com os exames finais do semestre, ele se ofereceu para compartilhar seus pensamentos neste dia. Para evitar retaliações, sua identidade será mantida em sigilo. Homenagem silenciosa aos manifestantes Para mim são heróis, que se sacrificaram por um bem maior. Terminou em tragédia, mas o espírito deles merece ser lembrado. Tenho orgulho da busca por liberdade daqueles estudantes. Sinto profundo pesar e tristeza pelo desfecho. O governo chinês usou métodos extremamente cruéis e desumanos para limpar violentamente a área, resultando na morte de inúmeros estudantes. Lamento por eles e condeno as brutais atrocidades cometidas pelo governo. Eles lutavam contra a corrupção e pediam liberdade. Erradamente, foram vistos como ameaça à segurança nacional. Que tragédia. Sobre a 'amnésia coletiva' Muitos jovens chineses desconhecem este incidente. Não há um único motivo para isso, mas uma combinação singular de fatores complexos. Primeiro, a China tem algumas das tecnologias de internet mais avançadas do mundo. Há uma barreira entre o país e a internet global. Isso significa que informações externas não podem entrar ou sair livremente da China. Por exemplo, Google e Twitter não podem ser usados livremente na China. Em segundo lugar, os canais de informação são rigidamente controlados. A mídia é controlada pelo governo e há restrições rígidas à mídia independente. Só há liberdade para elogiar, nunca para criticar. A mídia se dedica a exaltar tudo o que esteja relacionado ao Partido. Qualquer notícia desfavorável é censurada. Além disso, os chineses são doutrinados desde cedo a evitar a política por medo do autoritarismo. Se você conversar casualmente sobre o 4 de junho com outros chineses pode ser denunciado e levado à delegacia para receber doutrinação ideológica. Se for estrangeiro, pode ser denunciado como espião. Mais importante ainda, os chineses são muito obedientes. Seguem cegamente, em vez de refletir e questionar. Importância em aprendam sobre Tiananmen Acredito que lembrar dessas coisas é de grande importância para o povo chinês. Poucos chineses realmente entendem que seu destino deve estar em suas próprias mãos. O povo chinês precisa entender que uma vida feliz vem de seu próprio trabalho e de diligência, não das esmolas do governo. O partido governante não é seu pai, muito menos Deus. Os protestos de 1989 foram uma luta do povo chinês contra a injustiça. Foi um despertar da autoconsciência, um prelúdio para a libertação ideológica. As pessoas não devem se lembrar apenas do custo e dos sacrifícios, mas também da liberdade e da coragem que esse evento representou. Assunto oculto É impossível discutir livremente esse assunto em qualquer outro lugar. Os ‘pequenos rosas’ [xiaofenhong, como são conhecidos os jovens ultranacionalistas] alegam que foi uma revolução instigada por forças estrangeiras. Essa é a causa que o Partido Comunista quer promover. Mas se você tentar expressar outros pontos de vista, como "a repressão sangrenta do governo contra estudantes universitários que buscavam liberdade e democracia", você desaparecerá junto com seu ponto de vista. É preciso discutir por que o PC tem tanto medo de que esse evento seja mencionado e por que os protestos fracassaram. O próprio PC se originou da resistência, da rebelião contra o governo e da mobilização das massas. Estou apenas relatando os eventos objetivos. Na narrativa do PC, esses eventos são retratados como justos, como resistência contra a injustiça. No entanto, em 1989, quando o povo queria exercer seus direitos como senhores de seu próprio país e defender sua liberdade de expressão, o Partido Comunista viu essas manifestações como ameaça à segurança nacional — um claro exemplo de duplo padrão. Liberdade de expressão Acredito que isso seja essencial, tanto do ponto de vista social quanto acadêmico. A liberdade de expressão deve ser protegida. Diversos projetos de pesquisa, como engenharia genética em biologia, desenvolvimento de novos medicamentos em farmácia e questões de sociologia, são altamente progressistas. Na verdade, no atual sistema de ensino superior da China a liberdade é parcialmente garantida, mas não totalmente. As instituições oferecem alguma proteção, mas ainda se recusam a permitir que os alunos discutam qualquer assunto politicamente relevante em fóruns independentes no campus. Isso impede que os alunos reflitam e compreendam as questões sociais. O governo não quer que aqueles com formação superior compreendam os problemas sociais, que o ensino superior possa produzir os componentes avançados de que a sociedade precisa, sem ameaçar toda a estrutura de poder e a legitimidade do governo. Aos olhos do governo, certos assuntos não exigem liberdade.
37 anos do massacre da Praça da Paz Celestial: reflexões de um estudante de Pequim
O governo chinês acredita que o episódio é página virada, mas há quem discorde











