Capricornianos trabalham muito. Cancerianos são emotivos. Sagitarianos adoram uma festa. Geminianos mudam de opinião facilmente. Seja numa festa, num papo de bar, numa conversa informal, você provavelmente já ouviu generalizações desse tipo após alguém mencionar a própria data de aniversário. No mundo atual, mais diverso, plural e com respeito a pautas identitárias (apesar de movimentos retrógrados), parece haver algo de profundamente anacrônico nessas descrições de signos solares. A pauta decolonial, no entanto, chegou também à astrologia para refletir novas demandas da sociedade. Se, no passado remoto, o entendimento da dinâmica planetária era restrito a poucos estudiosos, este século XXI vê um boom da astrologia em redes sociais, podcasts, apps etc., acredite-se ou não em signos e previsões a partir de movimentos celestes. Uma profecia, diz Alice Sparkly Kat, é ‘apenas uma história que te ajuda a dar sentido ao passado e imaginar um futuro possível’ — Foto: Divulgação Astrologia é também um negócio. O valor do mercado global de apps do setor passou de US$ 4,73 bilhões em 2025 para US$ 5,69 bilhões em 2026. Em 2030, deve chegar a US$ 11,7 bilhões, de acordo com a Research and Market. O relatório atribui os números “ao interesse cultural pela astrologia, à adoção precoce de aplicativos móveis, ao crescimento do uso de smartphones, ao aumento do consumo de entretenimento digital e à demanda por conteúdo personalizado”. Para a Allied Market Research, esse mercado como um todo deverá valer US$ 22,8 bilhões em 2031 — os números variam entre relatórios e metodologias. Esse crescimento ocorre em paralelo a um cenário em que proliferam ataques à ciência, fake news, previsões apocalípticas, discursos de ódio e charlatanismo. Como manter vivo, de uma forma ética e responsável, um conhecimento cujas raízes datam de cerca de 4 mil anos atrás na Mesopotâmia (que hoje corresponde à região do Iraque)? Para um novo segmento de astrólogos, o momento não é de responder aos críticos e tornar a astrologia mais objetiva e científica, menos folclórica, mas sim propor uma concepção estendida e política. É uma astrologia que retoma sua face de linguagem cultural popular de sua própria época. ‘A astrologia torna-se nociva quando o astrólogo acredita que está a entregar uma verdade objetiva, preditiva e final sobre um assunto’, diz Simão Cortês — Foto: Divulgação Entre astrólogos que propõem um novo olhar, destacam-se nomes como Alice Sparkly Kat, que nasceu em 1992 na China e emigrou aos 5 anos para os EUA, onde vive atualmente no Brooklyn, em Nova York. Kat pede para ser identificada como pessoa não binária. “Há problemas dentro da astrologia”, escreve Kat em seu livro “Astrologia pós-colonial - A leitura dos planetas por meio do capital, do poder e do trabalho” (Autêntica Editora, trad. Rodrigo Seabra, 288 págs., R$ 87,90). Onde entra a “identidade de gênero nas binariedades de gênero atribuídas a Vênus e Marte?”. A percepção de diversidade, assim, chega a uma seara que está longe de ser um bloco único e que tem raízes no patriarcado, na branquitude, no imperialismo, mas que fornece material para releituras. “Escrevi este livro porque acredito que astrólogos trabalham com pessoas reais, e que nossas vidas, nossa prática de espiritualidade, são moldadas pelo colonialismo global”, diz Kat ao Valor. Em seu livro, Kat investiga como “as narrativas coloniais ou fantasias moldaram” os conceitos que embasam sete símbolos tradicionais da prática astrológica: Saturno, Júpiter, Marte, Sol, Vênus, Mercúrio e Lua. “Apenas reconhecendo e examinando esses sistemas em que trabalhamos é que podemos reparar aquilo que foi feito a nós ou o que nós fizemos.” O filtro decolonial no sentido mais amplo também é usado em relação à própria astrologia, que, em épocas remotas, era uma ferramenta do poder, consultada por reis e governantes em tomadas de decisões. “Os astrólogos fariam bem em abdicar dos seus sonhos de demonstrar a astrologia como ciência”, diz o português Simão Cortês, 33, que tem formação em linguística e ciências da religião. Ele é o tradutor de “O momento da astrologia: Origens na adivinhação” (Editora Pogo, 422 págs., R$ 172,17), do astrólogo britânico Geoffrey Cornelius (1945-2024). Obra controversa dentro da comunidade a que é destinada, o livro representa um divisor de águas, estimulando um debate que chega no momento certo, apesar de ter sido lançado originalmente em 1994 no Reino Unido e apenas no ano passado por aqui. Cornelius deixa de lado a busca por validação científica para redefinir a astrologia como uma espécie de fazer artístico e poético, que envolve as práticas oraculares e adivinhatórias. Para Cortês, que foi aluno de Cornelius, a astrologia faz parte de um conjunto de tradições “que tendem a ser descartadas como crendice: mitologia, pensamento metafísico, espiritualidade”. Tal preconceito diz mais sobre a “relação rasa que a modernidade tem com a imaginação do que ao valor da astrologia”. Durante o século XX, não foram poucas as tentativas de provar, por meio de métodos científicos, que a astrologia “funciona” e não é uma falácia. Um dos mais célebres estudos é o “Efeito Marte” (1967), do psicólogo e estatístico francês Michel Gauquelin (1928-1991). Ele usou os dados de milhares de atletas de destaque e buscou correlação entre o posicionamento do planeta Marte na hora do nascimento desses indivíduos e o sucesso nas atividades esportivas. Carl G. Jung (1875-1961), fundador da psicologia analítica, por sua vez, queria provar outro ponto. Em “Sincronicidade” (1952), fez uma análise quantitativa simples ao utilizar dados de centenas de casais relativos a posicionamentos de Sol, Lua, Marte e Vênus dos cônjuges. O psiquiatra suíço buscava investigar possíveis correlações significativas. Para ele não eram os planetas que “causavam” acontecimentos. Mas não se tratava de uma crítica à astrologia. Não foram poucos os questionamentos que a astrologia sofreu. No manifesto “Objeções à astrologia” (1975), 186 cientistas, incluindo vencedores de Prêmio Nobel, criticaram a crença em previsões de horóscopos diários. Já o filósofo alemão Theodor W. Adorno (1903-1969) contestou a padronização de comportamento das colunas de horóscopo como parte da indústria cultural. Nesse sentido, astrólogos como Cortês, que deixam de combater céticos, poderiam soar como fogo amigo. “Os esforços dos astrólogos em aproximar a astrologia da ciência têm sido vãos há quase um século”, afirma Cortês. “Não existe qualquer sentido em atrelar a nossa prática a uma metodologia em que ela claramente não demonstra resultados.” Para ele, a astrologia é mais próxima de uma “metáfora poética”, como dizia Marsilio Ficino (1433-1499), “um dos grandes astrólogos do Renascimento”. Quando signos astrológicos são usados para reduzir a amplitude dos comportamentos de um indivíduo a uma única fôrma, há algo similar ao que acontece no mau uso do conceito de raça. “Ambas são exercícios de imaginação, de criação de padrões e de tipificação”, escreve Alice Sparkly Kat, “construções sociais enraizadas nos circuitos da cultura”. Vieses estão na origem da astrologia, como mostra o tratado “Tetrabiblos”, um dos textos mais importantes do setor. Escrito pelo astrônomo e matemático Cláudio Ptolomeu no século II, a obra reflete o etnocentrismo da Antiguidade greco-romana, por exemplo. Questionamentos a esses textos e contextualizações relembram que a astrologia é um sistema feito por seres humanos, e não uma “verdade” inquestionável que caiu do céu. Em “Júlio César”, William Shakespeare (1564-1616) já notava, por meio do personagem Cássio: “A culpa, meu caro Brutus, não está nas estrelas, mas em nós mesmos”. Kat afirma que a Roma Antiga (e a branquitude) é transmitida por meio do sistema de “dignidades essenciais”, uma espécie de “tabela periódica”, fundamental na astrologia clássica (o Sol fica forte em Leão; Marte perde força em Câncer etc.). Se cada planeta tem força ou debilidade quando posicionado em determinado signo, isso deriva das hierarquias nesse antigo império, em que “cidadãos romanos eram representados no Estado, enquanto estrangeiros eram sempre escravizados”, escreve Kat. Do mesmo modo, análises que usam Saturno como o planeta da agricultura, “sem considerarmos o colonialismo de povoamento, pareceria muito abstrata e irreal”. Tanto Kat quando Cortês apontam para uma prática astrológica mais horizontal na relação entre astrólogo e consulente. “A astrologia torna-se nociva quando o astrólogo acredita que está a entregar uma verdade objetiva, preditiva e final sobre um assunto”, afirma Cortês. Para Kat, os astrólogos não possuem a mesma “autoridade moral” de um padre, de um terapeuta. Nessa visão atualizada de astrologia como uma construção criativa conjunta, o papel do astrólogo, segundo Cortês, é “iluminar o caminho mais auspicioso numa determinada situação” em diálogo com a pessoa que vai se consultar. Esta deve, segundo ele, ponderar o conselho do astrólogo e usar a clareza que recebe para “exercer o seu livre-arbítrio de uma forma que a beneficie”. “Deste ponto de vista, a querente [a pessoa que se consulta] não deve ‘acreditar’ em nada do que eu digo.” Para furar a bolha, Kat leva conceitos astrológicos a instituições culturais como o MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York), Philadelphia Museum of Art e Brooklyn Museum. Em 2023, por exemplo, Kat facilitou um workshop de escrita no MoMA envolvendo questões como a luz solar, o luar e profecias, a partir da obra do artista japonês On Kawara (1932-2014). Já Cortês ministra cursos, oficinas e é ativo nas redes sociais, além de oferecer atendimentos. A astrologia, para Kat, pode ser uma prática terapêutica, mas também simplesmente uma “leitura informal feita por alguém em uma festa”. Não é uma religião ou ciência. “Acho que não levar os astrólogos muito a sério é uma coisa boa, porque permite maior experimentação na leitura.” Kat ressalta o aspecto social da astrologia. No livro, conta que millennials, baby boomers, pessoas brancas ou não, queer ou cisnormativas, disseram terem sido atraídas pela astrologia porque ela “parece oferecer uma forma de falarmos entre nós sobre nós mesmos sem precisarmos recorrer às armadilhas da identidade”. Muitas vezes, perguntar a uma outra pessoa qual é seu signo solar ou ascendente é apenas uma forma delicada de dizer “quero te conhecer melhor”. A astrologia é usada “para enxergarmos uns aos outros”. Dessa forma, seu potencial terapêutico pode vir do simples convite ao diálogo nestes tempos em que muitos se negam a ouvir o outro e aceitar diferenças. Leia, a seguir, as entrevistas com Alice Sparkly Kat e Simão Cortês. Valor: Por que você decidiu escrever o livro “Astrologia pós-colonial - A leitura dos planetas por meio do capital, do poder e do trabalho”? Você se sentia uma pessoa isolada na abordagem pós-colonial da astrologia? Alice Sparkly Kat: Sim e não. Escrevi “Astrologia pós-colonial” a partir de muitas perguntas e reflexões que surgiram quando ministrei oficinas e eventos comunitários sobre astrologia. Também tenho muitos colegas com quem me identifico politicamente e que são astrólogos praticantes. Quando escrevi “Astrologia pós-colonial”, a astrologia não estava apenas passando por um renascimento, mas chegando a um ponto em que muitos astrólogos estavam refletindo sobre o papel da astrologia na história e o significado político do nosso trabalho. Valor: Você poderia fornecer exemplos de como um(a) astrólogo(a) deveria conduzir uma consulta numa abordagem pós-colonial? Kat: Não existe uma forma específica de conduzir uma leitura astrológica pós-colonial. Pelo que entendo, o pós-colonialismo é a teoria de que: 1) o colonialismo pode acabar, que isso é possível, e: 2) que podemos construir um mundo pós-colonial possível examinando e reparando os danos que ele causou. Eu diria que qualquer trabalho astrológico, ou espiritual, que reconheça esses dois aspectos do pós-colonialismo como teoria seria pós-colonial. É claro que, em uma leitura astrológica, geralmente não se discute teoria política com alguém. Você está falando com as pessoas sobre suas vidas, sobre términos de relacionamento, candidaturas a empregos, filhos e irmãos. Escrevi este livro porque acredito que os astrólogos trabalham com pessoas reais e que nossas vidas, nossa prática de espiritualidade, são moldadas pelo colonialismo global. Somente reconhecendo e examinando isso podemos reparar o que nos foi feito ou o que criamos, esses sistemas nos quais trabalhamos. Investigar os sete símbolos astrológicos tradicionais, os sete planetas da astrologia, e descobrir como narrativas ou fantasias coloniais podem tê-los moldado foi significativo para mim porque me ajudou a realizar esse trabalho quando me sento com uma pessoa real. Por exemplo, acho que qualquer discussão sobre Saturno como o planeta da agricultura, sem considerarmos o colonialismo de povoamento, pareceria muito abstrata e irreal. A figura de Saturno como um agricultor parece muito abstrata quando não se leva em conta a história. Trabalho com clientes cujas relações com a terra são moldadas pelo colonialismo, então fez sentido avaliar esses planetas à luz dessa história. Valor: Por que existe um excesso de misticismo na astrologia contemporânea que afasta muitos de seus praticantes dos fatores terrenos, políticos e históricos ligados aos planetas e signos do zodíaco? Kat: Quando se trata de espiritualidade, religião ou qualquer coisa profética que nos ajude a narrar nosso futuro, temo que seja muito fácil esperar por uma solução mágica. Criar o futuro não é uma solução mágica. Uma profecia é apenas uma história que ajuda a dar sentido ao passado e a imaginar um futuro possível que você não considerava possível antes de se dar a oportunidade de contar essa história. Não é um salvador, um redentor ou uma solução mágica. Você ainda precisa construir esse futuro com sua criatividade, da mesma forma que prepara sua comida todos os dias. Estou realizando este trabalho na América do Norte, em terras que foram colônias de povoamento justificadas por razões religiosas. Aqui, sempre houve muito pensamento catastrófico e narrativas sobre o Armagedom ou algo do tipo, que são usadas para justificar o roubo de terras e jogos de azar. Isso cria muita espiritualidade especulativa que não se baseia em nada além da destruição. A religião e a espiritualidade sempre desempenharam um papel importante na forma como as pessoas compreendem nossa história, política e nossas relações com outros seres humanos, animais, a terra e o tempo. Mas a espiritualidade não se resume a acreditar que um homem mágico virá à Terra e nos tornará imortais. A espiritualidade precisa estar fundamentada na história e na ecologia para fazer sentido e, de fato, nos ajudar a imaginar nosso futuro. Valor: Você poderia descrever sua trajetória na astrologia, incluindo sua formação, quando começou a oferecer consultas e quando adotou uma perspectiva pós-colonial? Kat: Comecei a aprender astrologia por meio de livros. Gosto de ler e sempre aprendi mais lendo do que assistindo a vídeos ou ouvindo palestras. Conforme fui me aprofundando, comecei a conhecer outros astrólogos e a fazer cursos. Comecei a fazer leituras na rua. A rua é sempre o melhor lugar para começar qualquer projeto criativo, porque é um espaço público e de uso gratuito. Até hoje, continuo realizando oficinas e encontros na rua. Conforme minha prática se desenvolveu, comecei a ministrar mais workshops, principalmente em espaços da comunidade LGBTQIA+. Em 2017, coletivos artísticos como o BUFU e o Yellow Jackets Collective promoviam muitos eventos presenciais, e foi ali que conheci diversas pessoas que também buscavam transcender o colonialismo enquanto eu aprimorava meu trabalho. Sou muito grata por ter participado desse momento da cultura nova-iorquina. Valor: Como a astrologia pode contribuir para o autoconhecimento e a compreensão da vida por parte dos indivíduos? Você acredita que as consultas astrológicas podem ter um papel terapêutico? Em seu livro, você menciona o senso de comunidade promovido pela astrologia. Poderia elaborar mais sobre esse ponto? Kat: Sim, acredito que a astrologia pode influenciar a forma como as pessoas se relacionam com o tempo e o espaço. E também umas com as outras. A astrologia pode ser terapêutica, se você a utilizar dessa forma. Pode ser também algo tão simples quanto uma leitura informal feita por alguém em uma festa. Você pode se profissionalizar como astrólogo por ter dedicado muito tempo à leitura de mapas astrais e ao aprendizado de como acolher outras pessoas, mas, em sua essência, penso que a astrologia é, na verdade, uma ferramenta de apoio mútuo. Os astrólogos não têm a mesma autoridade moral que um padre, um terapeuta ou uma pessoa com um perfil mais formal. As pessoas não levam os astrólogos tão a sério, e não deveriam. A astrologia não é uma religião nem uma ciência. Acho que não levar os astrólogos tão a sério é algo positivo, pois permite maior experimentação em uma leitura. Você pode convidar a pessoa que está sendo analisada a ter autonomia criativa sobre o próprio mapa astral, da mesma forma que um professor de arte convidaria um aluno a pintar. É apenas uma prática humana, aparentemente absurda, de observar as estrelas e criar histórias, algo que fazemos há séculos para interpretar o tempo. Qualquer pessoa pode fazer isso. *** Valor: Estão certas as pessoas que criticam a astrologia por ela não ser uma prática científica? Não há correlação direta e objetiva entre o movimento dos planetas e os acontecimentos aqui no planeta Terra? Se assim for, a astrologia é “apenas” uma crendice? Simão Cortês: Tanto quanto podemos entender não existe uma relação causal entre os planetas e a vida na Terra. Eu não descarto a possibilidade de certos efeitos, como aqueles que Michel e Françoise Gauquelin tentaram demonstrar. Mas mesmo que existam alguns efeitos objetivos desse tipo, é bastante claro que a esmagadora maioria da prática da astrologia não se baseia neles. Quando consideramos isto em conjunto com o fato de quase todas as investigações estatísticas sérias terem dado resultados nulos, eu acho que os astrólogos fariam bem em abdicar dos seus sonhos de demonstrar a astrologia como ciência. Desse ponto de vista, os nossos críticos estão certos e é nossa responsabilidade criar uma visão coerente da astrologia em resposta. Quanto a ser apenas uma crendice, é difícil responder. A astrologia cabe num conjunto de tradições que tendem a ser descartadas como crendice: mitologia, pensamento metafísico, espiritualidade. Isto provavelmente atesta mais à relação rasa que a modernidade tem com a imaginação do que ao valor da astrologia. Valor: Por que você diz no prefácio do livro “O momento da astrologia” que “Só astrólogos é que insistem que a astrologia não é um oráculo”? Os astrólogos, em geral, deveriam parar de provar que a astrologia é próxima da ciência? Na sua opinião, a astrologia é algo mais próximo da poesia, da literatura? Cortês: Os esforços dos astrólogos em aproximar a astrologia da ciência têm sido vãos há quase um século. Não existe qualquer sentido em atrelar a nossa prática a uma metodologia em que ela claramente não demonstra resultados. Desse ponto de vista, ela é mais próxima de uma “metáfora poética”, como dizia o Marsilio Ficino, um dos grandes astrólogos do Renascimento. Mas eu estou convencido que a dicotomia ciências-humanas não é suficiente para dar sentido total à questão da astrologia e do oráculo. A adivinhação existe, tanto quanto sabemos, em todas as culturas humanas. Isso me faz pensar que ela pode ser qualificada como uma função em si mesma: humanos estudam o seu meio ambiente, produzem arte, contam histórias e fazem oráculo. Valor: Você escreveu que a astrologia é “uma prática augural que depende inteiramente da participação do astrólogo como intérprete oracular”. Você poderia explicar melhor essa afirmação? O que é um oráculo? Cortês: Oráculo é um método através do qual praticamos a adivinhação. A adivinhação é qualquer prática de especulação estruturada através de símbolos utilizada para obter informações a que não teríamos acesso de outra forma. Geralmente fazemos isto com a intenção de ajudar a querente a escolher um bom caminho para as suas ações. Eu, como sou dado a crendices, tendo a entender isto num esquema metafísico de comunicação entre humanos e espíritos, mas isso não é necessário. Aquilo que é realmente central na adivinhação é a interpretação estruturada do símbolo como ele se apresenta à consciência, normalmente de acordo com um cânone interpretativo. Este processo interpretativo produz um conhecimento que é inseparável do adivinho — ele não é objetivo no sentido que podemos desejar que uma observação científica seja. É nessa tensão entre símbolo, adivinho e querente que se produz um significado. Um dos argumentos que Geoffrey Cornelius faz no “O momento da astrologia” é que ao tentar estudar a astrologia como um fenômeno objetivo, acabamos por amputar os mecanismos através dos quais ela produz significado. Valor: Na cultura popular e nas redes sociais, astrologia é quase um sinônimo de caracterização psicológica das pessoas, baseadas nos signos. É quase como um racismo (por exemplo, “Escorpianos são vingativos”; “Leoninos são egocêntricos” etc.). Isto é astrologia? Na sua opinião, isto deveria acabar? Cortês: Neste caso eu acredito divergir de muitos astrólogos, mas eu acho que a astrologia popular é astrologia, sim. Talvez um dos ramos mais importantes da astrologia contemporânea. Ela faz aquilo que 70 anos de astrólogos de bata branca em laboratórios nunca conseguiram fazer: mantém o público em geral interessado, respira vida nestes símbolos antigos, garante um lugar na imaginação pública. Eu duvido sempre de astrólogos que criticam a astrologia popular com demasiado fervor. O primeiro contato da maioria de nós com a astrologia foi verificar ansiosamente a compatibilidade entre o nosso signo e o signo da crush na [revista] Capricho quando éramos adolescentes. Honrar isso é também honrar a história da astrologia. Aquilo que é importante fazer é garantir que sabemos a função da astrologia pop: divertir, entreter, divulgar. Nós temos maturidade para saber que um “experimento científico” dirigido a crianças num programa de televisão não é uma aplicação rigorosa do método científico. Mas também entendemos a importância desse tipo de divulgação para a ciência. Valor: Como a astrologia pode ajudar as pessoas, na sua opinião? Quando ela é perigosa e nociva para o consulente? O consulente deve acreditar em tudo o que um astrólogo diz numa consulta? Cortês: Eu digo sempre que a astrologia entra em cena quando o discernimento do querente colapsa. Ou seja, a astrologia é útil quando estamos frente a frente com um impasse e queremos descobrir o caminho mais auspicioso a seguir. Mas aquilo que a interpretação inaugura é um processo através do qual o querente recupera o seu discernimento. Ou seja, a astrologia torna-se nociva quando o astrólogo acredita que está a entregar uma verdade objetiva, preditiva e final sobre um assunto. O papel do astrólogo é iluminar o caminho mais auspicioso numa determinada situação em diálogo com o querente. O papel do querente é ponderar o conselho do astrólogo e usar a clareza que recebe para exercer o seu livre-arbítrio de uma forma que o beneficie. Deste ponto de vista, o querente não deve “acreditar” em nada do que eu digo. Deve levar a interpretação a sério, ponderá-la com generosidade e cuidado, e a partir disso escolher o caminho que só ele pode caminhar.