Winston Churchill é conhecido por muitos britânicos como o homem que ajudou a salvar a nação da tirania nazista e uma das figuras mais importantes da história do país, a ponto de ter seu rosto estampado na nota de £ 5. Para outros, porém, a fervorosa defesa do projeto imperial britânico feita por Churchill ultrapassou a linha do racismo e conservadorismo. Agora, uma nova faceta do ex-primeiro-ministro pode ganhar destaque: a de artista. A Wallace Collection, em Londres, busca apresentar esse lado de Churchill com a exposição "Winston Churchill: O Pintor", que será a primeira grande retrospectiva das pinturas do estadista desde sua morte. A mostra reúne mais de 50 de suas obras e ficará em cartaz até 29 de novembro. Os curadores do museu retrataram Churchill não como um mero pintor amador, mas como um artista digno de consideração séria e um líder cujas vulnerabilidades são visíveis na tela. — Esta exposição busca avaliá-lo como pintor, algo que realmente não foi feito antes. Ela também mostra que os líderes não são intocáveis e que eles têm suas próprias fragilidades — disse Xavier Bray, diretor do museu, durante uma visita guiada recente à exposição. O diretor também afirmou que os críticos de arte foram injustos ao classificar Churchill como um alguém que pintava por hobby, quando na verdade, "sua habilidade era muito boa". Churchill começou a pintar durante a Primeira Guerra Mundial, quando tinha pouco mais de 40 anos — uma época difícil, segundo ele próprio. Em 1915, ele foi responsabilizado pelo fracasso catastrófico da campanha naval britânica na península de Galípoli, na Turquia otomana, e rebaixado a um cargo governamental secundário. "O Leão Rugindo", o retrato mais famoso de Winston Churchill — Foto: Yousuf Karsh / Wikipédia Poucos meses depois, ele assumiu um posto de comando na Frente Ocidental e levou junto seu cavalete. Uma de suas primeiras telas retratava um batalhão britânico bombardeado em uma vila belga. À medida que Churchill oscilava entre o auge do poder e derrotas políticas amargas, ele retornaria à tela centenas de vezes, abordando temas como o lago de peixes dourados em Chartwell, sua amada propriedade rural, e as enseadas da Riviera Francesa. Algumas de suas obras alcançaram milhões de dólares em leilões, mas nenhum grande museu na Grã-Bretanha exibiu seu trabalho desde 1959. Bay reconhece que o estilo de Churchill estava sempre pelo menos 30 anos atrasado em relação à moda da época. Sua afinidade por pinturas a óleo sobre tela e paisagens foi influenciada pela arte francesa do final do século XIX, particularmente por Claude Monet e outros impressionistas, segundo o diretor do The Wallace. Mas mesmo que seu estilo já estivesse ultrapassado no início do período entre guerras, em comparação com os movimentos de vanguarda do cubismo e do surrealismo, as telas ainda oferecem um vislumbre da vida interior de um homem que conduziu a Grã-Bretanha por alguns de seus momentos mais marcantes do século XX. —Elas oferecem uma visão dele alegre e apaixonada, o que pode surpreender as pessoas. Churchill às vezes se detinha nos momentos mais difíceis da vida, mas também se apegava à esperança. A pintura é uma expressão disso— disse Bray. Em uma visita ao território administrativo britânico da Palestina, como secretário colonial em 1921, Churchill pintou uma paisagem urbana de Jerusalém ao pôr do sol. Dias antes, ele havia presidido a Conferência do Cairo, que dividiu os antigos territórios do Império Otomano nos estados precursores do atual Oriente Médio. Mas no início da década de 1930, o ex-primeiro-ministro já estava novamente fora do poder e marginalizado. Em 1938, enquanto a Grã-Bretanha mantinha sua política de apaziguamento com a Alemanha nazista, Churchill pintou banhistas se divertindo em uma praia no sudeste da Inglaterra. Imponente à direita da tela, um canhão da era napoleônica aponta de forma ameaçadora na direção da Europa continental. —É um momento em que ele diz: 'Não podemos confiar na Alemanha nazista—disse o diretor do museu. Também pode haver pistas sobre o estado de espírito de Churchill em sua escolha de paleta de cores, que era repleta mesmo em momentos de desespero. Obra de Winston Churchill — Foto: Reprodução / Youtube De acordo com Jennie Churchill, uma bisneta do ex-primeiro-ministro britânico, o uso brilhante da cor poderia muito bem ser interpretado como uma forma de desafio. Segundo a parente, a pintura também era uma maneira de lidar com seus problemas mentais. O estadista frequentemente descrevia um "cão negro" que o seguia pela vida, embora historiadores tenham debatido se isso poderia ser uma referência à depressão. —Suas pinturas lhe proporcionavam um alívio e um prazer enorme — acrescentou sua bisneta —Acompanhando-o nos bons e nos maus momentos, nos dias sombrios e nos dias luminosos. Em um ensaio de 1921 explicando o fascínio da pintura como passatempo, o próprio Churchill descreveu a forma de arte como um tipo de terapia emocional. Obra de Winston Churchill — Foto: Reprodução / Youtube "Quaisquer que sejam as preocupações do momento ou as ameaças do futuro. Uma vez que a pintura começa a fluir, não há espaço para elas na tela da mente", escreveu ele. Em 1943, quando Churchill já era primeiro-ministro havia quase três anos, ele pintou sua única tela conhecida durante a Segunda Guerra Mundial. Na Conferência de Casablanca, no Marrocos, ele garantiu um golpe diplomático para a Grã-Bretanha: o compromisso do presidente Franklin D. Roosevelt de que as tropas aliadas lançariam sua invasão inicial da Europa ocupada pelo Eixo pela Itália, em vez da Normandia. Depois, ele convidou Roosevelt para passar alguns dias de descanso em Marrakech, e os dois passaram uma noite no terraço da vila, admirando a vista. Após a partida de Roosevelt no dia seguinte, Churchill permaneceu para pintar a cena que intitulou como: "Torre da Mesquita Koutoubia". Parte da obra "Torre da Mesquita Koutoubia" de Winston Churchill — Foto: Reprodução / Redes Sociais —Acho que muitas de suas melhores obras realmente capturam a sensação de um momento fugaz, como se ele estivesse tentando eternizar o momento por meio de sua arte — disse Catherine Katz, historiadora que estudou o estadista. A tela foi oferecida a Roosevelt como presente, o que, segundo Katz, representa um grande feito da diplomacia de poder brando. —Este é o momento em que ele captura o crepúsculo do auge do poder britânico e também o ápice de sua amizade com FDR—afirmou. Em um leilão realizado em 2021, a obra "Torre da Mesquita Koutoubia" bateu o recorde para uma obra de Churchill, sendo arrematada por 8,3 milhões de libras, cerca de 11,5 milhões de dólares. A vendedora foi Angelina Jolie, que havia recebido a pintura de presente de Brad Pitt. Muitas das outras pinturas de autoria do ex-primeiro ministro acabaram nas mãos de colecionadores particulares americanos atraídos pela "obra de Churchill". Cerca de metade das obras da exposição foram emprestadas de coleções particulares raramente acessíveis, e Bray afirmou que a maioria dos doadores particulares era americanos. No total, Churchill produziu mais de 500 telas antes de finalmente abandonar a pintura em 1962, quando já tinha quase 90 anos. — A quantidade de arte de Churchill realmente revela quanta ansiedade e preocupação ele sentia em relação ao mundo, ao futuro, ao seu lugar nele, mas também à humanidade em geral— disse Katz —É fácil perder a pessoa de vista em meio à imensidão da história. Mas, por meio da arte, podemos ver a pessoa que foi Churchill.