Enquanto bilhões de dólares deixam fundos de bitcoin e ether, o dinheiro começa a migrar para um lado do mercado cripto que promete algo que investidores há muito têm dificuldade de encontrar nos ativos digitais: uma ligação mais clara entre atividade econômica e valor do token. O principal sinal desse movimento é o HYPE, token ligado à Hyperliquid, corretora cripto que vem crescendo rapidamente. Enquanto bitcoin, ether e altcoins menores tropeçam em meio à piora do mercado neste ano, o HYPE renovou máximas históricas. O token chegou ao recorde de US$ 75,50 na segunda-feira e acumula alta de cerca de 180% no ano, elevando seu valor de mercado para mais de US$ 16 bilhões e colocando-o entre os dez maiores ativos digitais por capitalização, segundo dados da CoinGecko. O avanço chama atenção em um mercado marcado pela redução do apetite por risco. ETFs americanos de bitcoin e ether registraram saídas líquidas de cerca de US$ 3,4 bilhões e US$ 674 milhões, respectivamente, desde maio. Na direção oposta, dois fundos recém-listados da Bitwise Asset Management e da 21Shares, que acompanham o HYPE, captaram cerca de US$ 180 milhões em ativos em três semanas desde o lançamento. Os ingressos são modestos em comparação com a corrida vista nos ETFs de bitcoin à vista. Ainda assim, destacam-se em um momento em que o dinheiro deixa muitos dos maiores produtos de investimento em cripto, sugerindo que os investidores estão se tornando mais seletivos sobre onde querem exposição. Em vez de comprar a classe de ativos como uma aposta macro ampla, eles estão apoiando tokens ligados a plataformas específicas de negociação, fluxos de receita e desempenho operacional. “A era institucional das criptomoedas resultou em decisões de alocação de capital mais disciplinadas e em foco nos fundamentos”, disse Zach Pandl, chefe de pesquisa da Grayscale Investments, que estreou um ETF de Hyperliquid na quarta-feira. “O sucesso do token HYPE depende, em última instância, da receita de taxas da plataforma, como qualquer outra fintech.” Durante a maior parte de sua história, o mercado cripto foi negociado como uma narrativa única. O bitcoin era o ouro digital. O ether era uma aposta na adoção da blockchain. Tokens menores eram versões mais arriscadas de aplicações construídas em infraestrutura descentralizada. O que normalmente faltava era uma resposta clara a uma pergunta básica dos investidores: como o valor gerado por um negócio em blockchain chega aos detentores do token? A Hyperliquid oferece uma resposta. A plataforma é uma corretora de derivativos on-chain em rápido crescimento e uma das mais lucrativas do mercado cripto. Seu token HYPE se beneficia de um mecanismo de recompra financiado por taxas, no qual volumes maiores de negociação podem gerar mais receita e, por consequência, mais compras do token no mercado aberto. Isso cria uma ligação direta entre a atividade na corretora e a demanda pelo ativo. “Investidores tradicionais que olham para fluxos de caixa veem no HYPE uma história muito mais fácil de entender e muito mais simples de justificar como investimento comprado”, disse Jeff Dorman, diretor de investimentos da Arca. O apelo surge depois de um dos períodos mais duros da história cripto para tokens especulativos. O bitcoin, negociado em torno de US$ 67 mil, cai quase 50% em relação à máxima histórica registrada em outubro. Milhares de altcoins que antes eram negociadas com base em euforia, endossos de celebridades e tração nas redes sociais entraram em colapso ou perderam relevância, deixando os investidores mais atentos à capacidade de um projeto gerar receita, atrair usuários e criar valor além da simples alta do preço do token. Alguns investidores veem paralelos com a evolução das empresas de internet depois do estouro da bolha pontocom. “Há alguns paralelos entre os ativos digitais e o boom das pontocom, quando, no entusiasmo inicial com a internet, quase qualquer startup do setor conseguia atrair capital de investidores”, disse Stephen Coltman, chefe de macro da 21Shares, que oferece o THYP, ETF de Hyperliquid lançado em maio. “Depois veio a quebra, em que a maioria desses novos negócios fracassou, e só gradualmente, nos anos seguintes, os vencedores em cada segmento de mercado começaram a surgir.” A alta também reflete o crescente interesse por projetos cripto que geram receita e usam parte dela para recomprar tokens. Esse apelo aumentou à medida que a Hyperliquid avança além de seu negócio principal de derivativos para áreas como ativos reais tokenizados, mercados pré-IPO e contratos no estilo de mercados de previsão. Quase um terço da atividade de negociação na plataforma já vem de ativos reais tokenizados, segundo a Hyperscreener. Timothy Misir, chefe de pesquisa da BRN, disse que as listagens de ETFs adicionaram uma nova categoria de compradores. Antes do lançamento dos fundos, a demanda pelo HYPE vinha em grande parte de traders e investidores cripto já ativos no ecossistema. Os ETFs permitem que investidores tradicionais apostem no crescimento da Hyperliquid sem precisar administrar carteiras digitais ou negociar diretamente em plataformas cripto, afirmou. Isso importa porque o modelo de negócios da Hyperliquid foi desenhado para criar sua própria fonte de demanda. Dados da DefiLlama mostram que quase todas as taxas geradas pelos mercados à vista e de contratos perpétuos da Hyperliquid são usadas em recompras de tokens, excluindo algumas taxas de builders e de unidades. A Hyperliquid responde por mais de um terço da receita total distribuída a detentores de tokens entre 855 protocolos acompanhados pela DefiLlama. O modelo tem gerado comparações com recompras de ações. Diferentemente de acionistas, porém, detentores de tokens não têm direito direto aos lucros. Por isso, é difícil separar totalmente esses fundamentos do impulso de mercado. Os volumes da Hyperliquid e a receita com negociação de criptoativos começaram a perder força, tornando a plataforma mais dependente dos ativos reais tokenizados para crescer. Essa frente pode se mostrar menos defensável à medida que instituições financeiras tradicionais avançam para negociações 24 horas por dia e futuros perpétuos. Há também pressão regulatória. A Bloomberg informou anteriormente que CME Group e Intercontinental Exchange pediram a autoridades que regulem a Hyperliquid. Qualquer medida punitiva poderia desacelerar o crescimento da plataforma ou reduzir o entusiasmo dos investidores. Os investidores também precisam acompanhar o risco de esgotamento dos fluxos após o lançamento inicial dos ETFs, a compressão de valuation caso o crescimento desacelere e riscos de estrutura de mercado ligados a liquidações, disse Misir. A expansão para ações tokenizadas, commodities, derivativos do S&P 500 e mercados de previsão também pode tornar a plataforma um alvo regulatório maior do que os contratos perpétuos restritos a cripto. Usuários dos Estados Unidos são proibidos de usar a Hyperliquid. Por ora, a alta do HYPE sugere que os investidores estão dispostos a pagar por uma ligação mais clara entre atividade econômica e valor do token. Se eles encontraram uma forma mais duradoura de avaliar criptoativos — ou apenas uma versão mais sofisticada do velho impulso especulativo — ainda é uma questão em aberto. “O mercado cripto está começando a se diferenciar pela economia dos projetos, e não apenas pela narrativa”, disse Ryan Rasmussen, chefe de pesquisa da Bitwise. “A Hyperliquid é um dos primeiros tokens cripto de ‘segunda geração’, em que a atividade econômica da plataforma é transferida diretamente para o token. Os investidores estão recompensando isso.”
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