Num momento em que o mercado financeiro volta a redobrar a atenção - e as posições - para teses de Inteligência Artificial (IA), o destaque das carteiras de recomendações no exterior não é Nvidia, Micron nem qualquer nome ligado a esse mercado, mas uma farmacêutica. A Eli Lilly, fabricante do Mounjaro e do Zepbound - medicamentos que tratam diabetes e obesidade e viraram febre global -, foi a ação que mais ganhou espaço nas recomendações para junho. No levantamento mensal do Valor Investe de carteiras de recomendações de cinco instituições financeiras (Ágora, BTG Pactual, Empiricus, Santander e XP), o peso somado da Eli Lilly saltou de 6% em maio para 20% em junho. Para comparação, o peso da Nvidia, líder no ranking há dois meses e queridinha do trade de IA, cresceu 5 pontos percentuais de um mês para outro. O crescimento da Eli Lilly no último mês fica mais evidente no aumento de recomendações, que passaram de uma em maio (apenas o Santander a indicava) para três em junho, ganhando o aval da Ágora e do BTG. Com isso, a farmacêutica americana empata em número de citações com a Apple e a Meta - e ocupa agora a sexta posição no ranking geral, à frente de nomes como J.P. Morgan e Alphabet (dona do Google). O novo grau de convicção, com três relatórios independentes defendendo a alocação na empresa no mesmo mês, revela como a Eli Lilly e outras do setor de saúde se tornaram um contraponto às apostas em IA: a empresa está entregando valor no presente, enquanto o setor de tecnologia promete retornos para o futuro. Evolução dos pesos da carteira compilada de recomendações Classificação Ação Recomendações em junho/2026 Pesos em junho/2026 Variação (em ponto percentual)* Status 1 Nvidia (NVDC34) 4 43,00% 5 🟢 Aumento Forte 2 Microsoft (MSFT34) 4 36,00% 1 🟢 Aumento 3 Amazon (AMZO34) 4 23,00% 5 🟢 Aumento 4 Meta (M1TA34) 3 24,00% -1 🔴 Redução 5 Apple (AAPL34) 3 22,00% 0 ⚪ Estável 6 Eli Lilly (LILY34) 3 20,00% 14 🟢 Aumento Forte 7 JP Morgan (JPMC34) 2 15,50% 0 ⚪ Estável 8 Baidu (BIDU) 2 15,00% 0 ⚪ Estável 9 Uber (U1BE34) 2 15,00% 5 🟢 Aumento 10 Eaton (E1TN34) 2 12,00% 0 ⚪ Estável 11 Coca-Cola (COCA34) 2 11,00% 0 ⚪ Estável 12 Alphabet (GOGL34) 2 10,50% 0 ⚪ Estável 13 TSMC (TSMC34) 2 9,50% -5 🔴 Redução Forte 14 Aura Minerals (AURA33) 1 10,00% 0 ⚪ Estável 15 Berkshire Hathaway (BERK34) 1 10,00% -5 🔴 Redução Forte A ação que engordou as carteiras A razão por trás da convergência em torno do nome da Eli Lilly combina momento e estrutura. A tese difundida no mercado - e que pareceu mais convincente no último mês - é a de que os medicamentos da empresa, já populares pela capacidade de emagrecer as pessoas, devem ficar ainda mais “pop”. "O mercado global de obesidade pode superar US$ 100 bilhões na próxima década, impulsionado pela ampliação da cobertura no Medicare e no Medicaid [programa popular do governo federal americano para promover acesso à saúde de baixo custo], que podem adicionar milhões de pacientes ao mercado potencial - com destaque para idosos e público de baixa renda", traz o relatório do BTG. Além da demanda crescente, o banco aponta que acordos com planos de saúde nos Estados Unidos, com descontos estimados entre 10% e 15% nos preços dos medicamentos, devem ampliar o acesso e sustentar o volume de vendas no longo prazo. A Ágora segue uma lógica semelhante: incluiu a Eli Lilly no lugar do Mercado Livre - o maior detrator da performance da carteira em maio - para capturar o que chama de "crescimento visível com balanço forte". O Santander, que segura a recomendação de Eli Lilly há meses, se baseia nos dados de receita crescendo 45% ao ano, lucro por ação acima do esperado pelo mercado e margens em expansão trimestre após trimestre. O argumento dos três (BTG, Ágora e Santander) converge num ponto: diferentemente das big techs, cujos investimentos bilionários em IA ainda não geraram receita proporcional, a Eli Lilly está incrementando o faturamento, expandindo o universo de pacientes e monetizando seus acionistas. A posição serve, assim, como uma estratégia para equilibrar nas carteiras de ações os nomes que garantem liquidez com aqueles que só devem entregar lá na frente. A Eli Lilly está num setor que tem entregado retornos imediatos, enquanto Nvidia, Microsoft, Meta e Apple estão com preços esticados, mas não podem ser ignoradas hoje diante da elevada convicção entre investidores sobre a sua capacidade de transformar os mercados. Porém a Eli Lilly não é a única aposta do setor nas carteiras de recomendações para este mês. A Empiricus optou pela concorrente direta, a dinamarquesa Novo Nordisk, fabricante do Ozempic e do Wegovy, que voltou ao radar dos analistas brasileiros com essa recomendação. A Empiricus justifica a escolha pela Novo Nordisk dada a forte demanda pelos comprimidos do Wegovy e o fato de que a ação caiu significativamente nos últimos 12 meses, criando um ponto de entrada mais atrativo. Já a XP, que não fez alterações em junho, mantém a britânica AstraZeneca como sua maior posição individual, uma aposta em oncologia e saúde defensiva. Por fim, o BTG preservou a Johnson & Johnson como tese de resiliência na sua carteira para junho. Somando todos os nomes, o setor de saúde saiu de cerca de 10% do peso compilado em maio para quase 30% em junho. É a segunda tese de convicção a se consolidar nas carteiras - e a que pode ter mais apelo se a IA demorar a dar retorno ou se cambalear pelo caminho. IA ainda é a aposta, mas agora com troco O crescimento das ações de saúde nas recomendações não chegou a tomar o protagonismo das teses de IA. As ações da Nvidia, Microsoft e Amazon seguem com quatro recomendações cada, o maior nível no compilado. Mas o tom para elas mudou. O mercado passou a distinguir "empresas ligadas aos principais temas estruturais" das "empresas onde a assimetria está mais favorável". Em bom português, a preferência migrou das ações cujos preços subiram muito para as que ficaram baratas. O BTG resume essa lógica: "o objetivo é reduzir concentração em nomes que já tiveram forte valorização e aumentar exposição a empresas onde [sic] a relação risco-retorno está mais favorável". O banco fez três trocas de uma vez neste mês, retirando Micron, Walmart e Raytheon da carteira para dar lugar a Netflix, Palantir e Eli Lilly. A movimentação foi embasada pelos cálculos da equipe de analistas, que apontou como a ação da Netflix negocia com desconto de 37,8% sobre sua média histórica, enquanto a da Palantir está 56,1% abaixo da linha. A Empiricus elevou a exposição à Nvidia de 10% para 15% (o maior peso individual da carteira em junho) argumentando que "a empresa mais que triplicou o faturamento de um ano para o outro e mesmo assim suas ações negociam a um múltiplo em linha com o S&P 500 - ou seja, o mercado está pagando o mesmo que paga pela média das empresas americanas por uma companhia que cresce muito mais rápido." Porém o que melhor ilustra essa mudança de tom para a IA é a comparação entre Microsoft e Meta nos relatórios do Santander. O banco elevou o peso da Microsoft e, no mesmo documento, cortou a fatia da Meta na carteira recomendada. "A Azure [tecnologia em nuvem da Microsoft] vem apresentando forte crescimento dos resultados operacionais, levando o segmento de Intelligent Cloud a registrar margem operacional de 40%, superior à dos principais concorrentes. A expansão do capex [despesas de capital] para US$ 190 bilhões tem sido acompanhada da geração de resultados consistentes." Sobre a Meta, os analistas do Santander apontam o oposto: "por mais que tenha feito uma expansão do capex para uma faixa entre US$ 125 bilhões e US$ 145 bilhões, a Meta vem enfrentando dificuldades em conectar de forma mais clara os maiores investimentos à geração de resultados". Soma-se a isso a perda de usuários ativos por restrições de acesso à internet no Irã e ao WhatsApp na Rússia, efeitos colaterais do cenário geopolítico que devem perdurar. Em maio, essa tolerância com os gastos bilionários das empresas de tecnologia pareceu incondicional. Em junho, passou a exigir recibo, já que o mercado só está disposto a gastar com quem está mostrando resultados. Fuga controlada para os EUA A exclusão da Visa da carteira do Santander é o termômetro do mercado ligado à economia real e está associada à elevação do risco relacionado à atividade americana. "A inflação mais elevada pode, em algum grau, favorecer a Visa, dada a elevação dos preços dos itens transacionados. Contudo, uma menor confiança do consumidor pode levar a uma redução do consumo das famílias e afetar negativamente as transações processadas", diz o relatório do banco. O cenário pode se agravar caso os juros das principais economias voltem a subir, um cenário com o qual o mercado trabalha. E esse risco o Santander preferiu não correr neste mês. Mas, no plano geral, as trocas de recomendações nas cinco carteiras desenham uma migração geográfica do capital, que voltou a se concentrar nas bolsas de Nova York. Ficaram mais leves ou saíram do radar os papéis de Mercado Livre (argentino), Coinbase e TSMC (taiwanesa), abrindo espaço para aumento das posições nas americanas Uber, Palantir, Netflix, Eli Lilly. "Nem os juros param Wall Street", resume o título do relatório da Empiricus. As bolsas americanas renovaram máximas em maio puxadas pela temporada de balanços. Por isso, a casa associa a concentração ao crescimento de 28% nos lucros das empresas do S&P 500 no primeiro trimestre, "o maior aumento desde o segundo trimestre de 2021" e surpreendente ante uma estimativa de um crescimento de apenas 13% no período. A XP, que não fez alterações para junho, admite que a subexposição a ações de tecnologia americana custou caro em maio. Mesmo assim, a casa manteve a aposta em diversificação geográfica - com exposições à China (Alibaba, Baidu) e Europa (AstraZeneca, ASML, Santander). "Os fundamentos de nossa seleção permanecem sólidos", defende o relatório.
Analistas têm nova queridinha no exterior em junho - e essa ação não tem relação com IA
Farmacêutica triplicou de peso nas recomendações para junho; setor de saúde cresceu quase três vezes no compilado enquanto o mercado debate retorno em tecnologia










