O caso dos "cientistas desaparecidos", assim apelidado pelos autores de teorias da conspiração que circularam pela Internet nos últimos meses, pode estar um passo mais próximo do fim depois de os restos mortais de Melissa Casias terem sido encontrados durante o fim-de-semana na Floresta Nacional de Carson, a cerca de dez quilómetros do local onde a assistente administrativa do Laboratório Nacional de Los Alamos, no estado norte-americano do Novo México, foi vista com vida pela última vez.Casias foi uma das doze pessoas ligadas à investigação espacial, de defesa e nuclear que morreram ou desapareceram nos últimos meses nos Estado Unidos. Algumas das mortes foram consideradas suicídios ou podem ser explicadas por outras razões, como a do físico português Nuno Loureiro, morto a tiro à porta de casa em Boston por um ex-colega de curso. Mas, em conjunto, as mortes e desaparecimentos foram alimentando narrativas que atribuíam a responsabilidade a planos secretos de inimigos dos EUA. As teorias proliferaram-se de tal maneira que o Comité de Supervisão da Câmara dos Representantes dos EUA e o FBI anunciaram investigações sobre os casos, depois de Donald Trump afirmar que se tratava de "coisas muito sérias".Num comunicado divulgado no fim-de-semana, a polícia do Novo México confirmou que os restos mortais encontrados por um transeunte a 28 de Maio pertenciam a Casias, que foi vista pela última vez a caminhar numa estrada nacional não muito longe dali. O corpo da mulher foi encontrada numa área que já tinha sido alvo de buscas. “Os investigadores também descobriram uma pistola junto aos restos mortais”, lê-se no comunicado da polícia do estado, que continua a investigar o caso. Ainda não é conhecida a causa da morte da mulher de 53 anos.Numa entrevista à NBC em Julho de 2025, o marido, Mark, disse que viu Casias pela última vez por volta das 6h15 do dia 26 de Junho, quando a mulher o deixou no Laboratório Nacional de Los Alamos (LANL), onde ambos trabalham. Este centro pertence ao Departamento de Energia dos EUA e foca-se na segurança nacional, supercomputação, exploração espacial, medicina e energia limpa — foi ali, aliás, que foram desenvolvidas as primeiras armas atómicas do mundo durante a Segunda Guerra Mundial. Casias terá dito a Mark que se ia deslocar para outro local dentro do campus, que tem cerca de 64 quilómetros, e que voltaria mais tarde para lhe entregar o carro do casal.Os investigadores descobriram que Casias regressou inesperadamente a casa, em Ranchos de Taos, a mais de uma hora do LANL. Questionada pela filha sobre o porquê de ter regressado a casa, terá dito que se esqueceu do cartão de acesso ao centro, algo que o marido tem a certeza que transportava consigo quando entraram juntos no LANL, horas antes. Segundo a filha, Melissa parecia normal e afirmou que tinha decidido "trabalhar de casa ou faltar ao trabalho naquele dia". Por volta das 12h50, entregou o almoço à filha no centro comercial local.Quando Casias não apareceu no LANL, Mark presumiu que estivesse ocupada com o trabalho, até receber uma chamada do supervisor da mulher a perguntar o porquê de esta não ter ido trabalhar. Segundo os investigadores, o último avistamento confirmado de Casias aconteceu por volta das 14h18, quando um conhecido da família a viu a caminhar pela estrada nacional 518 do Novo México, perto de Talpa, uma pequena vila no condado de Taos. A polícia encontrou “todos os pertences, incluindo a mala de Melissa e os seus telemóveis, restaurados às definições de fábrica", dentro da sua casa.Desaparecimentos com contornos suspeitosAinda antes do desaparecimento de Casias, o FBI já estava a investigar outras mortes e desaparecimentos com contornos suspeitos, todos em pessoas ligadas de alguma forma à comunidade científica, depois de a Comissão de Supervisão e Reforma Governamental da Câmara dos Representantes ter enviado cartas a várias agências governamentais a exigir informações sobre estes casos.A 27 de Fevereiro, o general reformado da Força Aérea William McCasland desapareceu em Albuquerque, Novo México. A mulher saiu para uma consulta e quando regressou já não encontrou o marido, que terá saído de casa com uma arma e botas de caminhada, mas sem o telefone, os óculos ou o relógio electrónico que usava diariamente. O general supervisionava projectos de materiais avançados e vigilância espacial. A mulher recusou-se a acreditar em quaisquer teorias da conspiração e afirmou que o marido já estava em declínio físico, uma realidade que tinha dificuldade em aceitar.A lista de pessoas mortas ou desaparecidas incluía ainda o astrofísico Carl Grillmair, baleado fatalmente por um vizinho no alpendre de casa em Fevereiro deste ano, a cientista de materiais Monica Jacinto Reza, que desapareceu durante uma caminhada nas montanhas de San Gabriel, na Califórnia, em Junho de 2025, dois funcionários do Laboratório Nacional de Los Alamos, o mesmo onde trabalhava Casias, e Steven Garcia, que trabalhava no Campus de Segurança Nacional de Kansas City, em Albuquerque. Desapareceu a 28 de Agosto, depois de sair de casa com uma arma, mas sem as chaves ou o telemóvel.Os familiares das vítimas tentaram, sem sucesso, dissipar os rumores com detalhes sobre as mortes, apelidando os autores das teorias da conspiração de "repugnantes", detalha a BBC. Um investigador morreu de doença cardíaca e um biólogo da empresa farmacêutica Novartis suicidou-se depois da morte súbita de ambos os seus pais, com poucas horas de diferença.Mas o caso mais mediático, principalmente por incluir dois cidadãos portugueses, foi o de Nuno Loureiro, professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), morto a tiro à porta de casa, em Brookline, Estados Unidos, em Dezembro, uma morte inicialmente apontada como uma possível “ameaça grave à segurança nacional e a elementos norte-americanos com acesso a segredos científicos”.Três dias depois, as autoridades norte-americanas identificaram o autor de um ataque na Universidade Brown, que matou dois estudantes, e o responsável pelo assassínio do cientista português como sendo a mesma pessoa: Cláudio Neves Valente, de 48 anos, antigo aluno da Universidade Brown, também português, que foi encontrado morto com um ferimento de bala auto-infligido.
Encontrados restos mortais de cientista que desapareceu há um ano nos EUA
Corpo da assistente do Laboratório Nacional de Los Alamos foi encontrado junto a uma arma numa área que já tinha sido alvo de buscas. Caso dos “cientistas desaparecidos” gerou especulações online.










