A organização global de saúde Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias (Cepi) destinará cerca de US$ 60 milhões à Moderna e a outros dois grupos para acelerar o desenvolvimento de vacinas contra o ebola da cepa bundibugyo, vírus letal que se espalhou pelo leste da República Democrática do Congo. Separadamente, a aliança global de vacinas Gavi, the Vaccine Alliance anunciou na sexta-feira um compromisso de até US$ 50 milhões para apoiar a resposta ao surto, enquanto o Pandemic Fund, vinculado ao Banco Mundial, disponibilizou até US$ 220,6 milhões em doações. A Cepi foi uma das primeiras organizações a investir no desenvolvimento de vacinas durante o auge da pandemia de Covid-19. Richard Hatchett, diretor da Cepi, disse à Reuters nesta segunda-feira que é possível ter vacinas contra o ebola bundibugyo (BDBV) prontas para testes clínicos dentro de alguns meses. Atualmente, não existem vacinas ou tratamentos aprovados contra essa variante do vírus. Segundo Hatchett, a perspectiva de vacinas em um horizonte relativamente próximo deve estimular discussões sobre quem financiará sua aquisição e eventual distribuição em larga escala. Ele alertou, porém, que o desenvolvimento de vacinas é imprevisível e que a situação de segurança no leste da República Democrática do Congo tornará os testes clínicos particularmente complexos. Até o momento, foram confirmados 321 casos no Congo, incluindo 48 mortes, além de aproximadamente 1.100 casos suspeitos, segundo os Centros para Controle de Doenças da África, Organização Mundial de Saúde, e autoridades na RDC. Outros nove casos foram confirmados em Uganda, incluindo uma morte. Agências internacionais de saúde classificaram o surto como uma emergência de saúde pública. Moderna faz testes clínicos iniciais A Cepi comprometeu até US$ 50 milhões para apoiar o desenvolvimento pré-clínico e os primeiros testes clínicos da vacina experimental da Moderna contra o ebola bundibugyo. Segundo a Moderna, os recursos também financiarão a fabricação das doses e o avanço para testes em fases mais avançadas, caso os resultados iniciais sejam positivos. “Trabalhamos com ebola em modelos pré-clínicos e obtivemos resultados excelentes”, afirmou o diretor-presidente da Moderna, Stephane Bancel, em entrevista por telefone. Dada a alta letalidade da doença, o objetivo é criar uma vacina capaz de prevenir a infecção ao mesmo tempo em que simplifica o esquema de vacinação, explicou. Neste estágio, ainda não está claro se a vacina exigirá uma ou duas doses. Essa questão deverá ser definida durante os testes de fase 1, antes da realização de estudos maiores, que deverão ocorrer na África. “Nosso objetivo é avançar o mais rápido possível sem comprometer a segurança e ser o mais útil possível”, afirmou Bancel. Outros projetos apoiados A Cepi também anunciou investimento de até US$ 8,6 milhões em uma vacina desenvolvida pela University of Oxford e produzida pelo Serum Institute of India, além de um aporte inicial de US$ 3,2 milhões para uma vacina desenvolvida pela Iniciativa Intercional da Vacina da Aids (Iavi). A candidata da Iavi utiliza a mesma tecnologia da vacina Ervebo, desenvolvida pela Merck e aprovada contra a cepa zaire do ebola — a primeira variante da doença identificada, na região que hoje corresponde à RDC. Estudos em animais demonstraram benefícios de sobrevivência com essa vacina. O diretor-presidente da IAVI, Mark Feinberg, afirmou que ainda não está definido quais parceiros serão responsáveis pela organização e condução dos testes clínicos. Ele lembrou que diversos estudos foram realizados durante o surto de ebola na África Ocidental entre 2014 e 2016, com apoio de agências americanas e da Organização Mundial da Saúde. “Entendemos, por declarações recentes da OMS, que ela não assumirá esse papel no futuro”, disse Feinberg, acrescentando que serão necessários “dezenas de milhões de dólares” antes que a vacina esteja pronta para entrar em testes clínicos. A OMS não esclareceu imediatamente sua posição sobre o patrocínio ou a condução desses estudos. Tecnologia usada na vacina de Oxford A vacina candidata da Universidade de Oxford, chamada ChAdOx1 Bundibugyo, utiliza a mesma tecnologia empregada na vacina contra Covid-19 desenvolvida em parceria com a AstraZeneca. Segundo Hatchett, Oxford e o Serum Institute demonstraram durante um surto de febre do Vale do Rift na Mauritania e no Senegal, no ano passado, que conseguem produzir doses prontas para testes em cerca de seis semanas — prazo muito inferior aos cronogramas tradicionais, que frequentemente levam anos. Após o desenvolvimento da vacina, o principal desafio será garantir que as doses cheguem às regiões mais afetadas, afirmou Hatchett. Ele lembrou que cerca de 300 mil doses da vacina Ervebo foram necessárias para controlar o surto de ebola Zaire entre 2018 e 2020 em uma região semelhante da RDC.