O dólar à vista exibiu desvalorização frente ao real no pregão desta segunda-feira, em dia em que a moeda americana seguiu mais forte na maioria dos mercados mais líquidos, ainda que o risco global tenha melhorado ao longo do dia. Se pela manhã havia a perspectiva de interrupção das negociações de paz entre Irã e Estados Unidos devido a ataques de Israel contra o Hezbollah, no Líbano, à tarde, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mudou o cenário, ao afirmar que teve conversas produtivas com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Isso levou a um alívio na percepção de risco, mas o dólar seguiu em alta na maioria dos mercados. Por aqui, o real se beneficiou tanto da melhora na percepção de risco quanto dos preços do petróleo ainda elevados. Terminadas as negociações desta segunda-feira, o dólar à vista fechou em queda de 0,39%, cotado a R$ 5,0226, depois de ter encostado na mínima de R$ 5,0116 e batido na máxima de R$ 5,0459. Já o euro comercial recuou 0,66%, a R$ 5,8423. Perto das 17h15, no exterior, o índice DXY, que mede a força do dólar contra uma cesta de seis moedas de mercados desenvolvidos, apreciava 0,28%, aos 99,187 pontos. Desde o começo da sessão, o dólar exibiu um viés de queda frente ao real. Nas últimas duas semanas, o real teve nas segundas-feiras um comportamento de recuperação da piora da sexta-feira, dia em que os investidores globais buscam hedge cambial para passar o fim de semana protegidos de uma possível piora no risco global. É possível, portanto, que esse comportamento de desmonte de hedge tenha ajudado o câmbio hoje. A volatilidade em relação ao risco se manteve presente, diante do vaivém nas negociações entre EUA e Irã. De todo modo, o real se beneficiou da apreciação dos preços do petróleo. Em nota, o Deutsche Bank aponta que o real continua demonstrando resiliência apesar do ruído político, e que os juros reais elevados, combinados com números positivos do setor externo, devem continuar sustentando a moeda. “O choque do petróleo teve um impacto positivo sobre os termos de troca do Brasil e sobre a conta corrente, e os dados mais recentes já mostram uma melhora das exportações, enquanto os dados de fluxo de capitais indicaram entradas líquidas em abril”, dizem estrategistas do banco alemão. Ainda na avaliação do banco, com a aproximação das eleições, o mercado parece mais sensível às acusações envolvendo a suposta ligação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com o Banco Master. “No entanto, não acreditamos que esse seja um fator determinante para os mercados no primeiro semestre do ano”, dizem os profissionais. “Em um cenário em que o apetite por mercados emergentes volte a ganhar força, o real está bem posicionado para ser um dos principais beneficiários.” Mas nem todo mundo segue com o viés construtivo para o câmbio. A combinação de fatores locais e externos favoráveis que deu ao real destaque global neste primeiro semestre de 2026 deve perder força na segunda perna do ano, conforme aponta o economista Rafael Rondinelli, da MAG Investimentos. “Até aqui neste ano, tivemos a combinação de dois cenários nos beneficiando, o local e o externo. No exterior, havia a busca por diversificação, que levava ao maior fluxo em mercados emergentes; e também havia a perspectiva de corte de juros pelo Fed. Isso mudou. O setor de tecnologia voltou a sugar capital e o Fed não irá mais cortar juros neste ano”, diz Rondinelli. “Já por aqui, o diferencial de juros nos beneficiou bastante em um período de volatilidade mais baixa, mas daqui para frente essa oscilação do mercado deve ficar mais alta por conta das eleições, e o prêmio de risco também tende a aumentar.” O economista diz que a casa projeta o dólar terminando o ano entre R$ 5,15 e R$ 5,20, nível acima dos R$ 5,02 atuais. Para ele, a piora projetada até o fim do ano deve se dar mais por conta de uma mudança no cenário externo do que por questões eleitorais do Brasil. Isso não quer dizer que a casa veja o cenário eleitoral como neutro para o câmbio, mas, sim, binário, com a projeção sendo um “meio termo” entre os possíveis resultados. “Está tudo muito incerto. Vai ser uma disputa polarizada entre a situação e a oposição, e poderemos ter dois cenários distintos”, afirma. No cenário de uma vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Rondinelli diz não esperar por uma depreciação brusca do câmbio, voltando a picos recentes, de R$ 6,00 e R$ 6,20. “Não vejo um cenário catastrófico, até porque o cenário global ainda deve ser de dólar mais fraco”, diz. Além disso, o economista aponta que, com o Banco Central se mostrando bastante vigilante ao processo inflacionário, os juros não irão cair muito mais até o fim de 2026, o que é outro fator de proteção do real. “Entendemos que o espaço do BC para cortes de juros foi reduzido, o que nos levou a subir a Selic esperada para o fim do ano para 14%”, diz.
Dólar à vista recua com alta do petróleo dando suporte ao real
Houve alívio na percepção global de risco ao longo da sessão, mas moeda americana seguiu em alta na maioria dos mercados
O real apreciou 0,39% segunda-feira com alta do petróleo e melhora no sentimento EUA-Irã. Volatilidade cambial cresce no segundo semestre (dólar previsto em R$ 5,15-5,20), elevando custos cloud/SaaS para operações no Brasil.









