Com juros elevados, crédito mais criterioso e maior pressão sobre o caixa das empresas, especialistas apontam que a gestão financeira deixou de ser apenas uma área de suporte e passou a ocupar posição estratégica nas decisões de crescimento. Valdir Agostinho Piran Júnior — Foto: Divulgação Em períodos de maior liquidez, acesso facilitado ao crédito e crescimento acelerado da economia, muitas empresas conseguem expandir suas operações sem enfrentar grandes obstáculos financeiros. No entanto, quando o cenário muda e o mercado passa a exigir mais eficiência, organização e planejamento, a gestão financeira assume um papel ainda mais relevante. Nos últimos anos, empresários de diferentes segmentos passaram a conviver com uma realidade marcada por juros mais elevados, maior seletividade das instituições financeiras e aumento da preocupação com fluxo de caixa, liquidez e capacidade de pagamento. Nesse contexto, decisões que antes pareciam secundárias passaram a influenciar diretamente a sustentabilidade dos negócios. No entendimento de Valdir Agostinho Piran Júnior, executivo da Intra Asset, o mercado vive um momento de amadurecimento. Segundo ele, o foco deixou de estar apenas no crescimento da receita e passou a considerar a qualidade financeira das operações. Muitas empresas continuam vendendo e crescendo, mas isso não significa necessariamente que estejam mais saudáveis financeiramente. Hoje existe uma preocupação muito maior com geração de caixa, previsibilidade e capacidade de enfrentar cenários adversos Essa mudança de percepção pode ser observada em diversos setores da economia. Empresas que registraram forte expansão nos últimos anos agora precisam lidar com custos financeiros mais elevados, margens mais pressionadas e uma necessidade crescente de planejamento. Ao mesmo tempo, bancos, fundos e investidores passaram a aprofundar suas análises antes de conceder crédito ou realizar aportes. Aspectos como governança, estrutura financeira, histórico operacional e capacidade de adaptação ganharam espaço nas avaliações. O caixa passou a contar uma história diferente Durante muito tempo, faturamento e patrimônio foram os principais indicadores observados pelo mercado. Hoje, a realidade é mais complexa. Uma empresa pode apresentar crescimento consistente nas vendas e, ainda assim, enfrentar dificuldades financeiras se não conseguir transformar esse crescimento em geração efetiva de caixa. É justamente esse ponto que tem chamado a atenção de especialistas do mercado financeiro. Segundo o especialista Valdir Piran Júnior, a liquidez passou a funcionar como uma espécie de termômetro da saúde empresarial. Muitas empresas continuam vendendo e crescendo, mas isso não significa necessariamente que estejam mais saudáveis financeiramente. Hoje existe uma preocupação muito maior com geração de caixa, previsibilidade e capacidade de enfrentar cenários adversos — Valdir Piran Júnior Essa visão tem levado muitas empresas a revisarem processos internos, renegociarem estruturas financeiras e buscarem formas mais eficientes de administrar recursos. Crédito mais seletivo exige planejamento Outro fator que vem transformando o ambiente corporativo é a mudança na forma como o crédito é concedido. Com maior cautela por parte das instituições financeiras, empresários passaram a perceber que acesso a recursos depende cada vez mais da qualidade das informações apresentadas e da consistência dos indicadores financeiros. Na prática, isso significa que o planejamento deixou de ser um diferencial e passou a ser uma necessidade. Empresas que mantêm controle sobre fluxo de caixa, indicadores de desempenho e estrutura de capital tendem a enfrentar menos dificuldades na hora de buscar financiamento para expansão ou capital de giro. Essa realidade também impulsionou o crescimento de soluções financeiras mais customizadas, capazes de acompanhar as características específicas de cada negócio. Tecnologia e informação ganham protagonismo A evolução tecnológica também tem contribuído para transformar o mercado financeiro. Ferramentas de análise de dados, inteligência artificial e monitoramento contínuo passaram a oferecer uma visão mais detalhada sobre o comportamento financeiro das empresas. Isso permite avaliações mais precisas e reduz riscos tanto para quem concede quanto para quem busca crédito. Para especialistas do setor, como é o caso de Valdir Piran, a tendência é que esse movimento continue se intensificando nos próximos anos, tornando a informação qualificada um dos ativos mais valiosos para empresas e investidores. Um novo momento para as empresas brasileiras O cenário atual exige uma postura mais estratégica por parte dos gestores. Crescer continua sendo importante, mas o crescimento precisa estar acompanhado de organização financeira, planejamento e capacidade de adaptação. Empresas que conseguem equilibrar expansão e disciplina financeira tendem a atravessar períodos de maior instabilidade com mais segurança e previsibilidade. Nesse contexto, a gestão financeira deixa de ser apenas uma atividade operacional e passa a ocupar posição central na construção de negócios mais sólidos, preparados para enfrentar os desafios de um mercado cada vez mais seletivo e competitivo.