Parque eólico da Casa dos Ventos, em Campo Formoso, na Bahia — Foto: Divulgação RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 29/05/2026 - 19:19 Casa dos Ventos investe R$ 200 bi em energia renovável no Ceará A Casa dos Ventos, fundada por Mário Araripe, está investindo em um ambicioso projeto para transformar o Brasil em um exportador de energia renovável. Com um data center de R$ 200 bilhões no Ceará, alimentado por energia eólica, a empresa busca atrair grandes empresas de tecnologia para processar dados no Brasil, invertendo a lógica atual de processamento externo. O projeto visa também explorar nichos como criptomoedas e produção de amônia verde. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Por trás do data center orçado em R$ 200 bilhões que está sendo construído para o TikTok no Ceará, há muito vento — e a estratégia de transformá-lo em “avenida de exportação de elétrons” a partir do Brasil e em escala industrial. Por trás do plano está a Casa dos Ventos, companhia fundada pelo empresário Mário Araripe em 2007 e que foi uma das primeiras a explorar o potencial eólico do Nordeste. Quase duas décadas depois, a companhia enxerga na corrida global pela inteligência artificial a oportunidade de extrair da energia limpa brasileira um valor até então inédito. — O data center da ByteDance (dona do TikTok) vai ser a grande âncora do que chamamos de exportação de elétrons. Projetos como esses funcionam como linha de transmissão virtual, que nos permite exportar energia como dados processados — explica Lucas Araripe, diretor-executivo da Casa dos Ventos e filho de Mário. — Como a corrida por data centers é uma corrida por energia, é natural que as companhias procurem lugares com energia mais limpa e barata. O Brasil tem isso em abundância e pode destravar um potencial que estava adormecido. O data center ficará no Complexo Industrial do Pecém, na Região Metropolitana de Fortaleza, localizado entre Caucaia e São Gonçalo do Amarante. Ele será alimentado por parques eólicos no Ceará e no Piauí, que somam cerca de R$ 11 bilhões e 2,1 GW (gigawatts), segundo o diretor da Casa dos Ventos. Só a primeira das quatro fases do projeto de data center abrange 300 MW e cerca de US$ 10 bilhões de investimento, sendo US$ 8 bilhões da ByteDance e o restante da Omnia, uma companhia do Pátria Investimentos. Como contou o blog da coluna no mês passado, o China-LAC, fundo de cooperação controlado pelo governo chinês, tornou-se acionista indireto do data center. — A ByteDance vai processar dados externos no Pecém; não serão dados do Brasil. Isso é importante porque, hoje, dois terços dos nossos dados são processados fora do Brasil. Então o projeto inverte essa lógica — detalha Lucas Araripe. — Mas o contrato com a ByteDance é só o começo. A gente quer fazer do Pecém, que tem “grid” superlimpo, cabos submarinos e regime tributário competitivo, o que foi feito na Malásia. Em poucos anos, o país atingiu alguns gigawatts de capacidade instalada em data centers. Nossa ideia é antecipar essa tendência, desenvolvendo os projetos e atraindo operadoras, para as quais forneceremos energia com exclusividade. E são contratos que também “dolarizam” nossas receitas. Segundo o executivo, a Casa dos Ventos conversa com outras companhias chinesas e americanas de tecnologia para atraí-las para o Pecém nas próximas fases. Além do Ceará, a empresa da família Araripe está estruturando outros três projetos de data center em São Paulo, mas esses voltados ao processamento de dados domésticos. A companhia ainda busca empresas e hyperscalers (Big Techs globais) interessadas em se associar aos projetos. Do Troller ao vento Lucas Araripe rebate críticas segundo as quais a instalação de data centers internacionais no Brasil representa uma nova forma de extrativismo. — Tudo o que a gente puder fazer para trazer carga para o Brasil é interessante, porque traz investimentos. Por causa desses projetos, o Brasil deverá construir parques eólicos e solares — responde. A Casa dos Ventos foi fundada por Mário Araripe logo depois de o empresário vender a marca de veículos off-road Troller à Ford por estimados R$ 400 milhões. O empresário havia comprado a montadora cearense uma década antes por apenas R$ 600 mil. (A Ford descontinuou a Troller em 2021, quando parou de produzir no Brasil). A tese era se posicionar antes da concorrência nas melhores regiões para geração eólica no litoral do Nordeste. Com os projetos de pé, a companhia passou a participar de leilões para entregar energia às distribuidoras e, alguns anos depois, passou a acessar o mercado livre de energia e a se posicionar junto a grandes consumidoras, como Vale e ArcelorMittal, para estruturar projetos de geração e fornecimento específicos para elas. Além da eólica, a Casa dos Ventos passou a investir em projetos solares e deve, nos próximos anos, tirar da Enel o posto de maior geradora de energia solar e eólica do país. A companhia deve atingir 4,3 GW de capacidade até setembro e 6,4 GW até 2028. Lista da Forbes Em 2023, a petroleira francesa TotalEnergies comprou 34% do portfólio de geração da Casa dos Ventos por meio de uma joint venture avaliada em mais de R$ 12 bilhões. No ano passado, Mário Araripe entrou para a lista de bilionários da Forbes, e hoje sua fortuna está estimada em US$ 3,4 bilhões. Segundo Lucas Araripe, embora o filão de data centers seja a principal aposta para o futuro, a companhia está explorando outros nichos: — Estamos começando a desenvolver alguns projetos para mineração de criptomoedas, que podem também ser uma forma de reduzir a necessidade de curtailment e funcionar como uma espécie de bateria. Também temos estudado a produção de amônia para fertilizante nitrogenado verde barato. Além disso, provocamos várias indústrias intensivas em vapor a apostar em caldeiras elétricas. Esse vapor vai ser mais barato que o gás. Nosso grande negócio é desenvolver teses de transição energética que gerem demanda.