Em 2015, Guilherme Derrite, então primeiro-tenente da Polícia Militar de São Paulo, hoje deputado federal (PP-SP), afirmou que "policial bom tem que ter pelo menos três homicídios no currículo". A frase, que poderia soar como bravata, revelou-se o prenúncio de uma política oficial a se consolidar no estado anos depois.

Em fevereiro de 2024, Derrite já era secretário da Segurança Pública quando promoveu uma intervenção inédita na PM: substituiu 34 dos 63 coronéis da corporação, inclusive integrantes do alto comando. A medida fortalecia uma linha de atuação mais dura —ou seja, mais letal.

Os números confirmaram a guinada: as polícias Civil e Militar vinham reduzindo sua letalidade entre 2020 e 2023, mas no ano seguinte apenas a PM matou 775 pessoas, o dobro do ano anterior. Era o início de uma nova curva ascendente, que se mantém até hoje. As operações Escudo e Verão, na Baixada Santista, tornaram-se símbolos dessa política. Sobre elas o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) afirmou em legitimação: "Podem ir na ONU, na Liga da Justiça, no raio que o parta, que eu não tô nem aí".

Pouco importa que saibamos, há 40 anos, que os mortos nas favelas são peças substituíveis de mercados ilegais globais. Que, há 30 anos, o PCC tenha sido criado justamente como efeito colateral dessa mesma política, do então governador Luiz Antônio Fleury Filho. E que saibamos, há 100 anos, que quem decide sobre a vida e a morte num território torna-se ali o soberano.