Elas formam 'jardins' que estão entre os maiores ecossistemas do planeta, alguns abrangendo milhares de quilômetros quadrados Profundeza do oceano não impede crescimento de esponjas — Foto: Pexels RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 30/05/2026 - 15:26 Esponjas de águas profundas: ecossistemas ameaçados por humanos Esponjas de águas profundas criam vastos ecossistemas no fundo do mar, sobrevivendo em escuridão total com ajuda de micróbios. Esses parceiros utilizam quimiossíntese e heterotrofia para converter amônia e matéria orgânica em biomassa, sustentando a vida marinha. Contudo, atividades humanas como pesca e mineração ameaçam esses frágeis ecossistemas, reconhecidos pela ONU por sua importância ecológica. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Quando pensamos na vida marinha, geralmente imaginamos recifes de corais coloridos ou densas florestas de algas marinhas repletas de peixes e outros animais. O oceano que nos vem à mente é aquele banhado pela luz do Sol. Mas a maior parte do oceano não é assim. Em volume, cerca de 95% do oceano consiste no fundo do mar, permanentemente escuro e frio. Apesar dessas condições hostis, há vida no abismo do oceano. As esponjas marinhas estão entre os organismos que vivem nessas águas escuras e misteriosas. Elas formam “jardins” que estão entre os maiores ecossistemas do planeta, alguns abrangendo milhares de quilômetros quadrados no leito do oceano. Elas atuam como engenheiras do ecossistema, fornecendo habitats para muitos outros organismos que vivem no fundo do mar. Esponjas individuais também podem bombear e filtrar milhares de litros de água todos os dias através de seus corpos. Os nutrientes que elas liberam sustentam outros organismos. Mas sabemos muito pouco sobre como as esponjas sobrevivem, muito menos prosperam, no ambiente inóspito do fundo do mar. A simbiose com micróbios é uma parte importante do modo de vida das esponjas marinhas. Temos estudado esponjas do fundo do mar para compreender melhor a vida nas profundezas do oceano. Até agora, descobrimos que algumas esponjas estão repletas de microrganismos que utilizam energia proveniente de reações químicas. Isso é chamado de quimiossíntese e é comumente encontrado em outros organismos do fundo do mar, como mexilhões e vermes tubícolas que vivem em fontes hidrotermais – as “fontes termais” do fundo do mar. Nosso novo estudo, publicado na revista científica Microbiome, mostra que as esponjas e seus parceiros microbianos também usam uma segunda estratégia para sobreviver no fundo do mar. Duas estratégias, uma esponja Todos os organismos vivos produzem resíduos. Assim como os seres humanos produzem urina, muitas esponjas produzem amônia como um de seus resíduos. Neste estudo, analisamos as espécies Calyx de esponjas de águas profundas a uma profundidade de 830 metros. Cerca de 16% de seus parceiros microbianos utilizam o conhecido processo de quimiosíntese. Com a amônia como fonte de energia, eles usam o dióxido de carbono dissolvido na água para produzir biomassa – é um pouco como as plantas que crescem por meio da fotossíntese a partir da luz solar, mas no escuro. O tubarão 'Megaboca' é de espécie considerada uma das mais misteriosas do planeta 1 de 5 O tubarão 'Megaboca' é de espécie considerada uma das mais misteriosas do planeta — Foto: Reprodução/UFAL 2 de 5 O tubarão 'Megaboca' é de espécie considerada uma das mais misteriosas do planeta — Foto: Reprodução/UFAL X de 5 Publicidade 5 fotos 3 de 5 O tubarão 'Megaboca' é de espécie considerada uma das mais misteriosas do planeta — Foto: Reprodução/UFAL 4 de 5 O tubarão 'Megaboca' é de espécie considerada uma das mais misteriosas do planeta — Foto: Reprodução/UFAL X de 5 Publicidade 5 de 5 Megachasma pelagios é considerada uma das espécies mais misteriosas do planeta — Foto: Reprodução/UFAL . Em águas rasas bem iluminadas, muitas esponjas e corais abrigam micróbios fotossintéticos que os ajudam a produzir biomassa a partir do dióxido de carbono. Nossas descobertas mostram que, nas profundezas escuras do oceano, as esponjas têm parceiros microbianos que utilizam amônia em vez de luz para o mesmo processo. Os 84% restantes de parceiros microbianos são onde a coisa fica realmente interessante. Em vez da quimiossíntese, esses micróbios utilizam a heterotrofia, o que significa consumir matéria orgânica para gerar energia e biomassa (assim como a grande maioria dos animais, os seres humanos também são heterotróficos). O problema aqui é que há pouca matéria orgânica no fundo do mar. Tudo o que cai das águas superficiais, como plâncton morto e algas, é despojado por bactérias e pequenos crustáceos de qualquer coisa facilmente digerível à medida que afunda pela coluna d’água. Portanto, a pequena quantidade de matéria orgânica que chega ao fundo do mar geralmente é um alimento pobre para a própria esponja. Mas, como descobrimos, não necessariamente para seus parceiros microbianos. Acontece que os micróbios heterotróficos nas esponjas do gênero Calyx têm muitas enzimas especializadas na decomposição de compostos complexos, como xilano e pectina, que compõem as paredes celulares de difícil digestão das algas. Alimentar-se desses esqueletos de algas permite que os micróbios prosperem e transformem moléculas orgânicas em nutrientes que sua esponja hospedeira pode utilizar. Protegendo o que ainda não compreendemos Nosso estudo mostra que as esponjas e seus parceiros microbianos são reatores biogeoquímicos complexos. Eles utilizam e reciclam “urina” de amônia, dióxido de carbono e matéria orgânica de difícil digestão para gerar biomassa. A biomassa pode então sustentar o crescimento de outros organismos, como estrelas-do-mar e peixes, sustentando, por sua vez, a comunidade mais ampla de animais que vivem no escuro do fundo do mar. Infelizmente, esses ecossistemas estão sob pressão das atividades humanas. A pesca de arrasto em águas profundas destrói fisicamente os jardins de esponjas. A mineração em águas profundas, atualmente praticada ativamente em busca de metais raros usados em baterias e eletrônicos, ameaça perturbar o habitat do fundo do mar de maneiras que podem levar séculos para se recuperar. As Nações Unidas reconheceram os jardins de esponjas do fundo do mar como ecossistemas marinhos vulneráveis, um reconhecimento formal tanto de sua importância ecológica quanto de sua fragilidade. Mas o reconhecimento por si só não é suficiente. Se destruirmos esses habitats antes de compreendermos plenamente seu papel na transformação do carbono, podemos perder uma parte essencial do ciclo do carbono da Terra antes mesmo de percebermos que ela existia. * Alessandro N. Garritano é Pesquisador de Pós-Doutorado da Faculdade de Ciências na Universidade de Sydney; UNSW Sydney. *Torsten Thomas é Professor de Microbiologia na UNSW Sydney *Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.