O caminho até as cachoeiras, mirantes e trilhas do Parque Nacional da Tijuca nunca esteve tão movimentado. Em 2025, o local bateu recorde de público ao receber mais de 4,9 milhões de visitantes, aumento de mais de 249 mil pessoas em relação a 2024. O resultado mantém a unidade, pelo 18º ano seguido, como o parque nacional mais visitado do país. Os números, por outro lado, ampliam um desafio atual e cada vez mais urgente: como preservar uma área ambiental sensível diante da pressão crescente do uso público. A resposta está, segundo os gestores, na conscientização ambiental. No dia 11 de junho, qualquer pessoa interessada poderá participar gratuitamente de um curso on-line e ao vivo de introdução à Leave No Trace (Não Deixe Rastros), metodologia internacional voltada à redução de impactos ambientais em áreas naturais. As inscrições podem ser feitas pelo site da Gear Tips. A iniciativa integra uma série de ações educativas que vêm sendo ampliadas dentro do parque após o crescimento da visitação. O Parque Nacional da Tijuca foi o primeiro do Brasil a receber as capacitações do programa. Em 2025, três turmas formaram 42 pessoas entre gestores, brigadistas, monitores ambientais, guias e profissionais ligados ao atendimento ao público. A ideia agora é expandir as formações e criar multiplicadores capazes de orientar visitantes e reduzir comportamentos considerados prejudiciais à floresta. Chefe do parque e analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Viviane Lasmar afirma que o crescimento da visitação já vinha sendo monitorado. — Quando bem manejado, o turismo aproxima a sociedade da unidade de conservação, fortalece o apoio à proteção da floresta e contribui para viabilizar investimentos na gestão — diz. As mudanças começam a ser vistas. Na Floresta da Tijuca, o histórico restaurante A Floresta passa por processo de recuperação e restauração. O parque ainda deve receber melhorias viárias, reforma de alojamentos usados por pesquisadores e reforço da estrutura operacional. Além disso, nos próximos meses, no Alto Corcovado, área onde fica o Cristo Redentor e que concentra a maior parte do fluxo turístico, a administração prevê entregar ainda neste semestre três novos elevadores com equipamentos de última geração e eficiência energética, concluir obras de contenção de encostas, recuperar estruturas históricas e instalar nova estação de tratamento de esgoto. O Alto Corcovado já ganhou oito novos banheiros, incluindo unidades acessíveis e com fraldário, novas ilhas de hidratação, lojas de autoatendimento, novo Centro de Atendimento ao Visitante do ICMBio e novo mirante com vista para a cidade. O crescimento da visitação acompanha uma tendência nacional. Segundo levantamento do ICMBio, 175 unidades de conservação federais somaram 28,5 milhões de visitas em 2025, o maior número desde o início do monitoramento, em 2000. Os parques nacionais concentraram 13,6 milhões desses visitantes. No caso do Parque Nacional da Tijuca, o aumento da circulação também elevou a pressão sobre cachoeiras, áreas sensíveis da floresta e caminhos de acesso. Entre os principais desafios enfrentados estão o descarte irregular de lixo, a degradação das trilhas, o excesso de ruído e a aproximação inadequada da fauna silvestre. Para tentar conter os impactos, o parque vem reforçando medidas de ordenamento da visitação. Uma delas é o Protocolo Operacional da Visitação (PROV), documento que estabelece regras e orientações para visitantes, prestadores de serviço e demais usuários. O protocolo organiza horários, circulação de veículos e normas de conduta. No setor Floresta, há limite de acesso para veículos motorizados: entram até 300 carros e 40 motocicletas por turno. Já na região da Vista Chinesa, a circulação é proibida em fins de semana e feriados. Segundo Viviane, a preocupação com a superlotação é constante. Parte do esforço para tentar suavizar esse cenário passa pela tentativa de mudar hábitos comuns entre os visitantes. — Muitas atitudes parecem pequenas quando vistas isoladamente. Mas, quando repetidas por milhares de pessoas, alteram a fauna, degradam trilhas, aceleram processos de erosão e impactam a experiência dos próprios visitantes — comenta Pedro Lacaz Amaral, representante da metodologia Leave No Trace no Brasil e fundador da empresa Gear Tips. Durante as capacitações, situações comuns da rotina do parque são usadas como exemplo prático. Entre elas, visitantes que saem da trilha principal para desviar de lama e aproximação excessiva da fauna para tirar fotos. Outro foco de ação trata do descarte de resíduos. Mesmo com lixeiras em pontos de maior circulação, a administração tenta reduzir cada vez mais o descarte interno. Isso porque restos de alimentos e lixo deixados no chão acabam atraindo animais silvestres, que conseguem abrir algumas lixeiras e espalhar resíduos pela mata. Estes mesmos animais não podem ser alimentados, outra prática a ser combatida. — Alimentá-los altera o comportamento deles, aumenta riscos de contaminação e os deixa mais vulneráveis à presença humana — diz Viviane Lasmar.