A ex-secretária de Justiça dos Estados Unidos Pam Bondi se recusou a responder perguntas do Congresso sobre se o presidente Donald Trump tinha conhecimento das atividades do falecido criminoso sexual Jeffrey Epstein que levaram às acusações criminais contra ele ou se orientou Bondi a censurar arquivos do Departamento de Justiça tornados públicos, disseram parlamentares democratas nesta sexta-feira. Em uma entrevista fechada perante o Comitê de Supervisão da Câmara dos Representantes, Bondi também afirmou que Todd Blanche, atual secretário de Justiça interino, foi responsável pela divulgação dos documentos. “Eu não liderei todos os aspectos desse esforço nem conduzi pessoalmente a revisão dos documentos. Deleguei a supervisão desse processo ao [então] secretário assistente de Justiça, Todd Blanche”, disse Bondi em declaração por escrito à Câmara, obtida pela Reuters. O deputado Robert Garcia, da Califórnia, principal democrata no comitê, disse a jornalistas que Bondi se recusou a responder perguntas relacionadas a Trump, afirmando que um advogado do Departamento de Justiça sentado ao lado dela “interveio e disse à ex-secretária de Justiça que ela não responderia a essas perguntas”. Durante sua gestão, o Departamento de Justiça afirmou que não divulgaria informações que expusessem vítimas ou comprometessem investigações em andamento. Bondi enfrentou fortes críticas de democratas e de alguns republicanos durante sua passagem pelo cargo por causa da condução da divulgação de milhões de documentos relacionados a Epstein. Democratas e alguns republicanos acusaram Bondi de tentar proteger Trump de maior escrutínio. Trump se opôs à divulgação das informações até pouco antes de o Congresso aprovar amplamente uma lei determinando a publicação dos arquivos. A deputada democrata Melanie Stansbury, afirmou que Bondi disse ao comitê que o Departamento de Justiça divulgou 3 milhões dos 6 milhões de documentos relacionados a Epstein. “Isso é um acobertamento”, declarou. Erros reconhecidos Em sua declaração inicial ao painel, Bondi reconheceu “erros de censura” nos documentos, mas não detalhou quais foram essas falhas. Ela também defendeu a condução do caso Epstein pelo governo Trump e a divulgação dos arquivos. “Até onde sei, o departamento entregou tudo o que era exigido”, afirmou em sua declaração, obtida pela Reuters. A entrevista com Bondi terminou sem que ela falasse com jornalistas reunidos do lado de fora da sala do comitê. Antes do início do depoimento, o presidente do comitê, James Comer, do Kentucky, disse a jornalistas: “Hoje vamos perguntar por que documentos ainda não foram divulgados... quais documentos permanecem retidos e por que não foram entregues.” Trump demitiu Bondi em 2 de abril, em parte devido à forma como ela conduziu o caso dos arquivos Epstein. Trump e Epstein conviveram socialmente nos anos 1990 e no início dos anos 2000, mas Trump afirmou repetidamente que encerrou a relação antes de Epstein se declarar culpado, em 2008, por aliciamento de menor para prostituição. Epstein foi preso novamente em 2019 e acusado de tráfico sexual de menores, sob alegação de recrutar e abusar de garotas menores de idade em Nova York e na Flórida. Sua morte naquele ano, em uma cela em Nova York, foi considerada suicídio. Os arquivos Epstein revelaram ligações do financista com pessoas poderosas, incluindo Trump, o ex-presidente Bill Clinton e Andrew Mountbatten-Windsor, ex-duque de York. Todos afirmaram não ter conhecimento do suposto esquema de tráfico sexual de Epstein. Garcia criticou a decisão de Comer de não gravar em vídeo o depoimento de Bondi, o que, segundo ele, teria permitido ao público avaliar seu comportamento durante a entrevista. Uma sobrevivente dos abusos cometidos por Epstein também esteve presente para criticar a forma como Bondi lidou com o material. “É inacreditável para mim que o Departamento de Justiça tenha divulgado fotos de nudez... o Departamento de Justiça divulgou pornografia. Isso é inaceitável”, disse a sobrevivente Sharlene Rochard a jornalistas do lado de fora da sala da audiência.