O primeiro-ministro da Hungria, Péter Magyar, classificou o acordo a que chegou com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, como “histórico”, e brincou, dizendo que iria mais vezes a Bruxelas se o resultado fosse receber tanto dinheiro. O acordo, no entanto, é político — ainda é preciso que a Hungria cumpra uma série de metas para poder receber as verbas.O anúncio foi feito pela presidente da Comissão Europeia depois de uma reunião entre os dois. Os húngaros, declarou Von der Leyen, “fizeram uma escolha clara: escolheram a democracia, escolheram voltar ao coração da Europa”. E assim, mal a Hungria cumpra reformas que foram acordadas nesta sexta-feira relativas ao Estado de direito, serão entregues mais de dez mil milhões em fundos de recuperação da pandemia, 4,4 mil milhões de fundos de coesão e 2,2 mil milhões relativos a programas académicos com reformas para liberdade académica (com o fim da tutela das universidades por fundações).Péter Magyar garantiu que será possível levar a cabo estas reformas antes de 31 de Agosto, quando termina o prazo para a sua aplicação, até porque o seu Governo “tem a maioria governamental mais robusta” da Europa.O primeiro-ministro disse ainda que a verba corresponde a 14% do Orçamento do Estado do país, “para ter uma ideia de que tipo de quantia estamos a falar”. A própria Von der Leyen disse que era “uma quantia bastante significativa”, mas que “o povo húngaro merece”, já que está a ser feito um “excelente trabalho” num espaço curto de tempo e, por isso, havia optimismo também entre o mercado e investidores, cita o site húngaro 444.O montante foi maior do que o que era esperado numa primeira fase e o diário britânico The Guardian classifica o anúncio como uma grande vitória política para Péter Magyar, que nos dias anteriores falou várias vezes da esperança de chegar a um acordo ainda nesta semana. O acordo, declarou, “envia um sinal político muito forte”.O primeiro-ministro da Hungria diz que o país teve uma posição negocial dura e que lutou “por cada cêntimo”.Da União Europeia, era esperado que na próxima semana a Hungria enviasse um plano concreto para a aplicação das verbas. Magyar indicou que as primeiras aplicações deverão ser feitas em melhorias na infra-estrutura de rede de electricidade, compra de comboios intercidades e programas de apoio a pequenas e médias empresas.Quanto às reformas, estas incluem 27 “supermetas” que a Hungria tem de cumprir obrigatoriamente para receber todas as verbas (dizendo respeito sobretudo às áreas da independência judicial, concursos públicos, combate à corrupção), e outras que, se não forem cumpridas, implicam uma diminuição das verbas, mas não o cancelamento do total.O jornal online Politico diz que, depois do caso da Polónia, em que houve verbas dadas antes da concretização de reformas para o Estado de direito, havia vozes a pedir uma abordagem mais cautelosa. Mas a Hungria está numa situação diferente da da Polónia, já que Magyar tem uma maioria suficiente para levar a cabo mudanças constitucionais.Péter Magyar afirmou que, em algumas áreas, como a corrupção, o Governo quer ir além do que é pedido pela União Europeia. Nesta semana, Budapeste fez já um pedido de adesão à procuradoria europeia.Presidente desafia MagyarMagyar voltou ainda a pedir a demissão do Presidente, Tamás Sulyok, o que tem feito repetidas vezes, dizendo que este faz parte do regime do Fidesz, o partido do antigo primeiro-ministro Viktor Orbán, e que, tendo sido eleito pelo Parlamento cessante e face a uma viragem tão grande na sua constituição, deveria afastar-se para permitir ao Governo seguir com a sua agenda de mudança, essencial para receber os fundos europeus.Mas Sulyok parece não estar disposto a afastar-se. Numa publicação no Facebook, o Presidente diz que está empenhado na entrega das verbas europeias à Hungria. E, no final da publicação, anunciou que pediu assistência à Comissão de Veneza, o órgão consultivo independente constituído por especialistas em matérias constitucionais do Conselho da Europa (que não é uma instituição comunitária), para avaliar as questões constitucionais ligadas ao pedido de Magyar e para o que descreveu como sendo “uma situação constitucional profundamente contraditória”, que afecta a presidência.Na véspera, Magyar reuniu-se com o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, dizendo que “a Hungria vai ser de novo um parceiro fiável na aliança militar mais forte do mundo”, embora tenha repetido que Budapeste não irá enviar quaisquer armas ou equipamento militar para a Ucrânia.