Passou da hora de impeachment. Vamos ampliar o conceito de mandato tampão para que a inteligência das mulheres comande o jogo por algumas rodadas Briga generalizada entre policiais e bombeiros marca jogo beneficente em Nova York — Foto: Reprodução / Redes Sociais RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você Que a liderança global seja assumida por mulheres como alternativa para enfrentar crises, guerras e escândalos de corrupção historicamente protagonizados por homens. Atitudes cotidianas de desrespeito ao espaço público e uma postura de superioridade masculina se refletem na política, em crimes e na restrição de direitos das mulheres. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Escarrei na rua. Não foi um cuspe qualquer. Foi uma daquelas escarradas que às vezes vemos os homens darem na calçada. Eles puxam os líquidos do corpo com força, para depois botá-los pra fora, sem cerimônia. Pior do que isso, só aqueles que tampam uma narina e expelem um jato pela outra. Um comportamento primo-irmão de urinar na rua. Não escarrei exatamente por querer. Mas tentando manter alguma dignidade em um fim de gripe, me vi sem alternativa: na rua, com a boca cheia de catarro, saliva e fluidos indesejados, não tive alternativa a não ser expulsá-los numa cusparada em um canteiro da calçada. Constrangido, minha primeira reação foi olhar em volta, averiguar se alguém tinha presenciado aquela cena hedionda, que sempre critiquei, desrespeitosa com os outros e com o espaço público. Não tive testemunhas, só a minha cachorra que me olhava com uma cara de decepção. Se pudesse, ela botava a coleira em mim. O que não contava era com a sensação que viria a seguir, uma espécie de epifania: ah, é assim que aqueles homens se sentem quando escarram na rua! Não é à toa que nunca vemos mulheres cuspindo ou assoando o nariz na rua. Não há de ser por falta do que expelir. Mas é como se esses gestos dessem um empoderamento (mais um!), uma reafirmação de superioridade masculina. Uma escarrada metafórica: faço o que eu quero e não tô nem aí para vocês. Passe os olhos nas outras páginas do jornal e constate: todas as desgraças do mundo estão associadas à gestão masculina, egoísta e gananciosa. A guerra Irã e Estados Unidos é liderada por quem? Homens. E a guerra de Israel contra Palestina? Homens. Guerra Rússia contra Ucrânia, lembra? Homens. O Supremo Tribunal Federal? Nove homens. Candidatos à Presidência do Brasil? Até agora, todos homens. Presidente da Câmara e do Senado? Homens. O Papa, o rabino, o bispo, o pastor? Homens. O médium abusador, o médico estuprador, os agressores de cachorros e capivaras? Homens. Líderes do PCC e do Comando Vermelho? Homens. Jogadores que manipulam resultados para ganhar apostas em bets? Homens. Clientes bêbados que atiram cadeiras e garrafas em briga de restaurante? Homens. Golpe do INSS? Homens. Motoqueiros roubando celulares? Homens. O escândalo do Banco Master? Homens. Autoridades e políticos implicados no escândalo do Banco Master? Homens. Os mesmos homens de bem, que se dizem de fé, pais de família e que negam às mulheres direitos básicos, como decidir sobre o próprio corpo, como a manutenção ou não de uma gravidez. Uma cusparada forte na cara. A falha de caráter é inerente ao ser humano, mas o gênero masculino é pós-doutorado na matéria. Em vez de curso de masculinidade, já passou da hora de os homens sofrerem um impeachment e se sentarem no cantinho do pensamento. Vamos ampliar o conceito de mandato tampão, tão em moda, para que a criatividade e a inteligência das mulheres comandem o jogo por algumas rodadas. Elas não são santas. Mas para cada Carla Zambelli tem dez Silas Malafaia. Pior do que está, dificilmente ficará. Só elas são capazes de oferecer algo diferente dessa calçada escarrada que somos obrigados a atravessar. Quando nada, viveríamos num mundo menos hipócrita. E mais limpo. ——— Não deixa de ser irônico que a crise que abala Flávio Bolsonaro tenha origem na produção de um filme. É a cultura fazendo uma justiça simbólica contra quem tanto a ataca.