Descobri as Birkenstocks na Itália, em 1986. Decidi que precisava de um par. já havia descoberto que, em viagem, conforto tem prioridade sobre estética Sandálias da Birkenstock em vitrine de Manhattan — Foto: Jeenah Moon/The New York Times RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você Adquiri meu primeiro par de sandálias Birkenstock em Veneza, em 1986, após insistir contra a vontade de um sapateiro que afirmava que o calçado "non è per lei". CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Abri a Revista Ela no domingo, e a primeira coisa que vi foi um anúncio da Birkenstock avisando que chegou ao Rio. Meus pés vibraram de alegria: tenho uma longa história com essas sandálias, e fiquei muito contente de saber que, finalmente, vou encontrá-las logo ali, na esquina. Descobri as Birkenstocks em 1986, durante a minha primeira viagem à Itália. Estava em Veneza e vi que, por toda parte, os turistas alemães usavam umas sandálias pesadonas com meias. Entendi imediatamente que não era pela beleza, e decidi que precisava de um par para ontem; àquela altura, com os pés torturados por um sapatinho lindo, eu já havia descoberto que, em viagem, conforto tem prioridade sobre estética. Naquela época Veneza era uma cidade do tamanho certo, e ainda não estava submersa em turistas. Lá fui eu pelo comércio, olhando as vitrines com calma; mas não era fácil encontrar Birkenstocks. Elas eram um hábito alemão, não italiano. Finalmente, lá para os lados do Castello — bem longe de onde eu estava — encontrei uma sapataria que tinha uma na vitrine. Entrei e disse o que queria. O sapateiro foi taxativo. — Non è per lei. Não era para mim. Mas por quê? — Questo non è per ragazze come lei, è per le tedesche. As sandálias não eram para moças latinas delicadas, eram para as alemãs, as tedescas. Insisti que, ainda assim, queria um par. Ele foi lá dentro e voltou com um monte de sandálias bonitinhas, com saltinho, sem saltinho, com laço e sem laço (havia uma moda de laços naquela época), até com umas Melissas. — Prova queste, guarda. Vedi se non sono più carine! Con questi piedi così belli... Concordei que eram mais bonitas mesmo, mas expliquei que estava em busca de conforto. E o homem irredutível. A discussão foi tão longe que até a palavra Birkenstock eu acabei aprendendo ali. Ele queria vender sandália, é lógico, mas estava horrorizado com a possibilidade de que eu levasse aquela coisa inadequada. Birkenstock em pé de brasileira era quase um erro moral. Naquela loja, naquela tarde, descobri que sim, que eu falava italiano — Mamãe é italiana, havia livros e revistas italianos pela casa e, às vezes, a própria língua vinha à tona, mas antes daquela viagem eu nunca tinha falado mais de meia dúzia de palavras seguidas. Saí triunfante com as minhas Birkenstocks — e nunca mais tirei do pé. Literalmente. Cheguei a ter Birkenstocks de luxo (uma prateada com tachinhas da Heidi Klum, uma outra chamada Tatami, várias de verniz) para poder frequentar eventos que exigiam traje elegante sem renunciar ao conforto. Monica Reissenweber, seguidora que virou amiga, e que era representante da marca numa cidadezinha alemã, virou minha fornecedora e me apresentou modelos e cores lindos, diferentes. Mais tarde elas chegaram às passarelas e eu quase morri de ciúmes, como adolescente que ouve uma banda “desconhecida” e se revolta quando vira hit. Mais tarde ainda, me acostumei com o fato de que todo mundo usava as “minhas” sandálias. Sic transit gloria mundi. Ainda naquele ano de 1986, porém, quando voltei para o Brasil, Papai ficou olhando longamente para os meus pés. — Minha filha, essa é a última moda? Eu acho que preferia a penúltima.
O sapateiro de Veneza
Descobri as Birkenstocks na Itália, em 1986. Decidi que precisava de um par. já havia descoberto que, em viagem, conforto tem prioridade sobre estética









