Há uma narrativa sedutora circulando nos debates de política monetária no Brasil: a de que a inflação atual é, em sua essência, um fenômeno de oferta, fruto da guerra no Oriente Médio. Dessa premissa deriva a conclusão de que o Banco Central poderia se dar ao luxo de estender o horizonte de convergência da inflação à meta, porque não faria sentido contrair brutalmente a demanda para combater algo que vem de fora. O argumento soa técnico. O problema é que ele é empiricamente errado e, mais do que isso, perigoso.

Comecemos pelo dado que deveria encerrar a discussão antes mesmo de ela começar: a inflação de serviços no Brasil está rodando acima de 6% ao ano, bem acima do teto da meta de 4,5%. Os serviços subjacentes, que excluem os itens mais voláteis para isolar a tendência estrutural, rodaram perto de 6,15% ao ano se anualizarmos a taxa nos últimos três meses. Serviços intensivos em mão de obra sobem não porque o petróleo ficou mais caro no golfo Pérsico, mas porque a demanda doméstica está aquecida, o mercado de trabalho está apertado, a massa salarial real cresce e o crédito se expande, mesmo com a taxa de juros real perto de 10%. Isso é, por definição, um choque de demanda.

As expectativas de inflação no Brasil já estavam desancoradas antes da guerra, ainda que a Selic estivesse em 15%. Vale lembrar que as expectativas de médio e longo prazo desancoraram justamente quando membros do governo passaram a sinalizar o desejo de alterar a meta de inflação e nunca mais retornaram ao patamar de 3%.