Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, de 56 anos, foi preso em 26 de fevereiro deste ano pela Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (Ficco/RJ), composta por agentes das Polícias Federal e Civil, com apoio do Ministério Público Federal (MPF). Na ocasião, o superintendente da PF, Fábio Galvão, o definiu como "o mais sanguinário dos capos do jogo do bicho". A alcunha não é à toa: as delegacias de homicídios do Rio investigam mais de uma dezena de assassinatos em que ele é suspeito de ser o mandante. Atualmente, tem três mandados de prisão só pela Delegacia de Homicídios da Capital (DHC). Início na contravenção Antes de ganhar notoriedade nacional, porém, agia de forma discreta e era pouco conhecido fora da Baixada Fluminense. Os negócios ilegais começaram em Duque de Caxias, onde herdou parte do império do pai e passou a controlar pontos do jogo do bicho numa cidade dividida quase como território de guerra. Na tentativa de ampliar a operação, investiu no mercado ilegal de cigarros e estruturou um esquema milionário baseado em intimidação, corrupção e violência. Segundo as investigações, comerciantes que se recusavam a vender os produtos da quadrilha passavam a sofrer ameaças e represálias. O bicheiro é apontado pela Polícia Federal como chefe da máfia de cigarros contrabandeados no Rio, com fábricas montadas em fundos de quintal. A corporação estourou três unidades clandestinas, nas quais imigrantes paraguaios eram submetidos a condições análogas à escravidão. Depois de se tornar chefe da máfia do cigarro e um dos bicheiros mais influentes do país, expandiu a atuação para cerca de dez estados, embora a base continue em Caxias. 'SantíssimaTrindade' do bicho Na contravenção, Adilsinho também buscou ampliar sua área de influência e protagonizou, ao lado de Rogério Andrade, a articulação para a criação de uma chamada "nova cúpula" do jogo do bicho. O grupo — que reunia ainda Vinicius Drumond, filho de Luiz Pacheco Drumond, o Luizinho Drumond, da velha cúpula — chegou a ganhar, entre funcionários, o apelido de "Santíssima Trindade". A intenção foi revelada pelo próprio Adilsinho em uma conversa interceptada pela Polícia Federal em 2021. — O "verde e branca" falou comigo de fazer uma nova organização. Só que eu não consigo falar com ele. Eu também quero, eu também quero poder — disse. Segundo a PF, "verde e branca" era uma referência a Rogério Andrade, patrono da Mocidade Independente de Padre Miguel, cujas cores estão presentes na bandeira da escola de samba. Um dos mandados de prisão contra Adilsinho está ligado justamente ao crime que firmou sua aliança com Rogério: o suposto comando da morte de Marco Antônio Figueiredo Martins, o Marquinho Catiri, em 2022. Catiri tocava os negócios de Bernardo Bello, rival do sobrinho de Castor de Andrade — o próprio Rogério. Bello foi casado com Tamara Garcia, filha de Waldemiro Paes Garcia, o Maninho, banqueiro de bicho assassinado em 2004 quando saía de uma academia em Jacarepaguá. A aliança, porém, não durou. Vinicius rompeu a tríade por se considerar traído por Adilsinho e declarou guerra ao antigo aliado. A vítima da retaliação atribuída ao filho de Luizinho foi o empresário Manuel Agostinho Rodrigues Miranda, executado a tiros de fuzil em setembro de 2024, em Del Castilho, na Zona Norte do Rio. Segundo as investigações da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), Agostinho cuidava de bingos para Luizinho Drumond, mas, após a morte do patrão, não quis permanecer com o filho do contraventor e passou a trabalhar com Adilsinho. Ao tomar conhecimento, de acordo com uma fonte da DHC, Vinicius teria se sentido traído. Daí surgiu, como linha de investigação, a hipótese de que ele teria ordenado a morte do ex-funcionário. Os negócios — que envolvem bingos, cassinos, apostas on-line e cigarros contrabandeados — movimentam milhões de reais por mês. Para escapar da polícia, Adilsinho montou um esquema de rotatividade de imóveis, evitando permanecer muitos dias no mesmo local. Para prendê-lo, agentes monitoraram seus passos durante dois meses. A operação contou com drones e helicóptero para retirá-lo rapidamente do esconderijo, uma casa em Cabo Frio. A estrutura de segurança não era por acaso: além de comandar um império criminoso e manter um verdadeiro exército de policiais como seguranças, Adilsinho passou anos foragido, justamente por ser acusado de envolvimento em dezenas de assassinatos.