Uma autocaravana, um SUV Jaguar, um telescópio, diversas máquinas de café, um conjunto de saleiro e pimenteiro, um corta-relva, dois relógios luxuosos, várias consolas e videojogos, dois tampos de sanita e vários conjuntos de DVD das séries Killing, Borgen ou Sherlock Holmes, entre outras.Peter Murrell, chefe executivo do Partido Nacional Escocês (SNP) durante 22 anos, admitiu em tribunal que gastou mais de 400 mil libras (cerca de 463 mil euros) nestes produtos e em muito mais, dinheiro que desviou dos cofres do partido independentista, O ex-marido da antiga primeira-ministra da Escócia, Nicola Sturgeon, declarou-se culpado na segunda-feira pelo crime de desvio de fundos do SNP entre 2001 e 2023, e arrisca uma longa pena de prisão. A sentença será conhecida no dia 23 do próximo mês.

Depois de o escândalo ter rebentado em 2023, levando Sturgeon, que foi ilibada pela Justiça em Março, a ser temporariamente detida, a declaração de culpa e os pormenores sobre os gastos de Murrell estão a abalar novamente o partido que domina a política escocesa deste 2007 e que voltou a ser o mais votado nas eleições do passado dia 7 para o Parlamento de Holyrood, em Edimburgo.John Swinney, actual primeiro-ministro da Escócia, que era líder do SNP quando Murrell foi nomeado chefe-executivo, em 2001, descreveu a confissão do ex-marido de Sturgeon em tribunal como uma “terrível quebra de confiança e uma traição avassaladora” aos militantes do partido e disse estar “devastado” e com um “sentimento pessoal de horror” sobre o caso.Num comunicado divulgado na segunda-feira, pouco depois de Murrell se ter declarado culpado pelo desvio de 400.310 libras, a antiga primeira-ministra (2014-2023), que se separou dele em 2025 depois de 15 anos de casamento, recusou a ideia de que “teria de ter sabido” de onde provinha o dinheiro do marido, insistindo que “não teve qualquer conhecimento ou suspeitas de que os artigos pessoais” de Murrell “tivessem sido adquiridos com fundos do SNP”.“Fui ilibada de qualquer irregularidade após uma investigação longa e minuciosa. No que diz respeito a muitos dos artigos em questão, por exemplo, relógios caros e consolas de jogos, eu nem sequer tinha conhecimento de que tinham sido comprados. De facto, no que diz respeito ao artigo de maior valor – uma autocaravana – eu não tinha conhecimento da sua existência até esta surgir na investigação policial no início de 2023, nem estava estacionada na nossa entrada, como tem sido alegado por alguns”, explicou.Dizendo-se “zangada, magoada, triste e muito angustiada com o impacto das acções” do ex-marido “na família, nos amigos e no SNP”, Sturgeon afirmou que “ser enganada e desiludida por um marido que amava e em quem confiava” lhe “causou uma dor profunda”.Não obstante, quer os Conservadores Escoceses, quer o Labour Escocês, partidos “irmãos” do Partido Conservador e do Partido Trabalhista britânicos na Escócia, dizem que as declarações de Sturgeon e de Swinney sobre o seu desconhecimento de um caso de “fraude em larga escala” no SNP “não são credíveis”, alegando que ambos os líderes tentaram impedir o escrutínio às finanças do partido nacionalista de esquerda.“Swinney devia fazer o que está certo e compensar todos os que deram o seu dinheiro ao SNP”, reagiu Jackie Baillie, líder dos trabalhistas escoceses, citada pelo Guardian.Independência, “Brexit” e pandemiaPeter Murrell foi chefe executivo do SNP entre 2001 e 2023, tendo desempenhado um papel importante quer na vitória do partido nas eleições legislativas escocesas de 2007, a primeira de sempre, quer no triunfo de 2011, com maioria, que deu o pontapé de saída para a convocatória do referendo à independência da Escócia, em 2014.A vitória do “não” à secessão (55,3%-44,7%), nesse referendo, levou o então líder do SNP e primeiro-ministro, Alex Salmond, a passar o testemunho a Nicola Sturgeon, que guiou o partido e a nação durante o atribulado processo de saída do Reino Unido da União Europeia e a crise sanitária, económica e social da pandemia de covid-19.