Os Estados Unidos realizaram na noite de segunda-feira ataques no sul do Irã contra plataformas de lançamentos de mísseis e embarcações que tentavam instalar minas no Estreito de Ormuz, numa ação descrita como uma defesa para as tropas americanas posicionadas na região. Os ataques aconteceram horas depois de o presidente dos EUA, Donald Trump, ter reiterado que as negociações com Teerã para estender o frágil cessar-fogo e reabrir o Estreito de Ormuz estavam “avançando bem”. Pelo lado iraniano, dois dos principais negociadores do país foram ontem a Doha para conversas com o primeiro-ministro do Catar, um dos mediadores do diálogo com o governo americano. Os militares dos EUA disseram que os novos ataques foram realizados em “legítima defesa”, acusando o Irã de tentar lanças minas marítimas no Estreito de Ormuz, por onde normalmente passam cerca de 20% do petróleo e do gás natural consumidos no mundo. “As forças dos EUA realizaram ataques em legítima defesa no sul do Irã para proteger nossas tropas de ameaças das forças iranianas”, disse Tim Hawkins, porta-voz do Comando Central das Forças Armadas dos EUA. Por sua vez, a Guarda Revolucionária do Irã afirmou ter “abatido com sucesso” um drone MQ-9 dos EUA. Também alertou que Washington estaria violando o cessar-fogo firmado entre as partes e que se reserva o direito de responder a qualquer ação americana. Após os ataques, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, disse nesta terça-feira que a negociação de um acordo com o Irã pode “levar alguns dias”, frustrando as esperanças de um fim iminente para o conflito. Citando os ataques realizados pelas forças americanas, Rubio afirmou que o Estreito de Ormuz precisa ser aberto “de um jeito ou de outro”. “Os estreitos têm de estar abertos; de uma forma ou de outra, eles vão estar abertos, por isso precisam de estar abertos”, disse Rubio aos repórteres a bordo do seu avião em Jaipur, na Índia. Rubio disse a repórteres em Nova Délhi que os EUA dariam à diplomacia todas as chances de sucesso antes de considerar a possibilidade de negociar com o Irã de “outra forma”. Ele acrescentou que havia “algo bastante sólido sobre a mesa”, referindo-se às negociações sobre a reabertura do estreito e uma “negociação muito real, significativa e limitada no tempo sobre a questão nuclear”. As declarações de Rubio ocorrem após Trump ter feito uma longa declaração nas redes sociais dizendo que as negociações com o Irã estavam avançando, apesar de a mensagem ter sido acompanhada de novas ameaças caso não haja um entendimento entre as partes. “Será apenas um grande acordo para todos ou nenhum acordo”, escreveu ele. Segundo fontes com conhecimento das negociações, os termos do acordo preveem a reabertura gradual do Estreito de Ormuz e a remoção de minas por parte do Irã. O país deixaria de cobrar taxas para que embarcações cruzem a passagem com segurança. Em paralelo, os dois países começariam a discutir o programa nuclear iraniano, com Teerã assumindo o compromisso de negociar a diluição ou a entrega de seu estoque de urânio enriquecido a níveis próximos do necessário para a produção de uma bomba atômica. Ontem, Trump afirmou em outra postagem nas redes sociais que o urânio “será imediatamente entregue aos Estados Unidos (...) ou, preferencialmente, em conjunto com a República Islâmica do Irã, destruído no local, ou em outro local aceitável, com a Comissão de Energia Atômica, ou seu equivalente, acompanhando esse processo e esse evento”. Países do Golfo Pérsico, entre eles Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar, pediram a Trump que continue apostando na diplomacia. Eles temem que a retomada da guerra leve o Irã a voltar a lançar drones e mísseis contra seus territórios, como ocorreu no início do conflito, causando dezenas de bilhões de dólares em danos e matando dezenas de pessoas. Também nas redes sociais, Trump pressionou Arábia Saudita, Catar e outros países a aderirem os chamados Acordos de Abraão, uma iniciativa americana para garantir o reconhecimento de Israel. É pouco provável que isso ocorra, a menos que Israel tome medidas em direção à criação de um Estado palestino, algo descartado pelo governo do primeiro-ministro do país, Benjamin Netanyahu. Em outra indicação das tensões da região, Netanyahu disse ontem que Israel intensificaria os ataques contra a milícia Hezbollah, apoiada pelo Irã, no Líbano. Logo em seguida, os militares israelenses disseram que estavam atacando a infraestrutura do Hezbollah no Vale de Bekaa, no leste do Líbano, e em outras áreas. Israel e o Líbano chegaram a um acordo de cessar-fogo em meados de abril, mas o governo de Netanyahu continuou realizando ataques aéreos que, segundo o país, são atos de autodefesa contra o Hezbollah, que não fazia parte da trégua. Navios ancorados no Estreito de Ormuz — Foto: Reuters