O Claude Mythos, o mais poderoso modelo de inteligência artificial da Anthropic, cujo mero anúncio provocou fortes reacções nos sectores da cibersegurança e da banca, poderá estar prestes a ser disponibilizado de forma mais ampla. Referências directas a uma versão denominada “claude-mythos-1-preview” foram recentemente detectadas no código-fonte da empresa e na interface de segurança da plataforma Claude, indiciando que a tecnológica se prepara para lançar esta ferramenta através dos seus serviços de programação e diagnóstico de sistemas.Até ao momento, a empresa liderada por Dario Amodei tinha recusado disponibilizar o modelo ao grande público, justificando a decisão com os riscos evidentes de uma utilização indevida. Aquando da revelação inicial, a direcção da startup alertou que os sistemas com capacidades avançadas de intrusão informática apresentam riscos de dupla utilização, defendendo que a introdução destas tecnologias na sociedade deve ser feita de forma gradual e com salvaguardas robustas. Contudo, os novos vestígios descobertos em plataformas de computação na nuvem da Google e da Amazon sugerem que o calendário para este lançamento poderá ter sido antecipado.Muralha digital contra falhas humanasA decisão original de restringir o acesso inseriu-se no Projecto Glasswing, uma iniciativa controlada na qual o modelo foi partilhado apenas com um grupo restrito de parceiros institucionais e empresas tecnológicas para fins exclusivamente defensivos. Desde o início dos testes em Abril, a Anthropic revelou, em comunicado, que a ferramenta foi capaz de identificar mais de dez mil vulnerabilidades de gravidade alta ou crítica no software mais importante e utilizado em todo o mundo.Num relatório recente, a tecnológica sublinhou que o progresso na segurança dos programas costumava estar limitado pela rapidez com que se encontravam novas falhas, passando agora a estar dependente da velocidade com que as equipas humanas conseguem verificar e corrigir o imenso volume de erros identificados pela inteligência artificial.A capacidade deve-se ao facto de o modelo conseguir compreender a arquitectura dos programas em profundidade e raciocinar sobre o comportamento dos sistemas, superando a esmagadora maioria dos especialistas humanos na detecção de pontos fracos. Numa das demonstrações práticas, o sistema localizou uma falha de segurança com 27 anos no sistema operativo OpenBSD, uma plataforma reconhecida globalmente pela sua fiabilidade e segurança e utilizada para gerir barreiras de protecção em infra-estruturas digitais críticas. O mais surpreendente é que a Anthropic garante não ter treinado especificamente o modelo para tarefas de pirataria informática. As capacidades terão surgido naturalmente como consequência do aperfeiçoamento das competências gerais de raciocínio, planeamento e autonomia da máquina.A possibilidade de o Claude Mythos chegar ao mercado pode levar a uma mudança profunda na forma como nos relacionamos com a segurança dos dados pessoais. Se, por um lado, a tecnologia permite antecipar ataques e blindar as aplicações de telemóveis, computadores e redes bancárias contra investidas criminosas, por outro lado, a sua eventual replicação sem os devidos controlos tornaria as ferramentas de intrusão acessíveis a agentes mal-intencionados. A própria liderança da Anthropic reconheceu em comunicações anteriores que nenhuma empresa desenvolveu ainda salvaguardas totalmente eficazes para evitar o desvio destes sistemas, realçando a urgência de criar barreiras de protecção antes de uma distribuição em larga escala.