País que elegeu Lula em 2022 era bem diferente do que elegeu Lula em 2002, afirma cientista político Jairo Nicolau Lula ao tomar posse em 2003, 2007 e 2023 — Foto: AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 23/05/2026 - 13:06 "Transformações do Eleitorado Brasileiro: 20 Anos de Mudanças" O livro "O país dividido", do cientista político Jairo Nicolau, analisa 20 anos de eleições presidenciais no Brasil, destacando transformações significativas no perfil e comportamento dos eleitores. O eleitorado brasileiro tornou-se mais velho, escolarizado e feminino, enquanto a tecnologia alterou a forma de consumo de notícias. Nicolau observa que, embora o PT tenha permanecido forte, o antipetismo mudou, com Bolsonaro substituindo o PSDB. As questões morais influenciaram o cenário político, com evangélicos migrando para a direita. A polarização, segundo Nicolau, pode ser episódica e reversível, questionando a continuidade da divisão após Lula e Bolsonaro. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O Brasil que elegeu Lula em 2022 era bem diferente do que elegeu Lula em 2002. A conclusão é do cientista político Jairo Nicolau, que analisa duas décadas de disputas presidenciais em “O país dividido”. O livro cruza dados e esquadrinha pesquisas para examinar as mudanças no perfil e no comportamento do eleitor. “Para onde quer que olhemos, veremos profundas transformações”, resume o professor do CPDOC da Fundação Getulio Vargas. Em 20 anos, o eleitorado ficou mais velho, mais escolarizado e mais feminino. Ao mesmo tempo, uma revolução tecnológica mudou a forma de receber notícias e acompanhar campanhas. O horário eleitoral na TV perdeu importância, e milhões de brasileiros passaram a se informar — ou a se desinformar — pelas redes sociais. Outras coisas não mudaram tanto. Nas seis eleições analisadas, o PT sempre esteve no segundo turno: venceu com Lula (2002, 2006, 2022) e Dilma (2010, 2014) e perdeu uma única vez com Haddad (2018). Já o campo antipetista mudou de cara. Nas primeiras quatro disputas, o PSDB liderou a direita com Serra (2002 e 2010), Alckmin (2006) e Aécio (2014). Nas últimas duas, foi destronado por Bolsonaro. O autor faz uma ressalva: os tucanos tinham pouco em comum com o capitão. “O PSDB sempre foi reconhecido por suas posições moderadas e democráticas, enquanto Bolsonaro se notabilizou pelo discurso antidemocrático.” Nicolau liga a ascensão do bolsonarismo à aposta em temas morais, como identidade de gênero e casamento homoafetivo. Isso induziu um deslocamento do grupo religioso que mais cresce no país. “Os evangélicos votaram majoritariamente no PT até 2010 e depois migraram para a direita, consolidando-se como um dos pilares de apoio a Bolsonaro em 2018 e 2022”, anota. O professor afirma, no entanto, que o eleitorado é mais complexo do que sugere o rótulo genérico de “país conservador”. Um exemplo: a maioria rejeita a legalização das drogas e do aborto, mas aceita o casamento e a adoção por casais homoafetivos. A demografia também ajuda a entender as urnas. Nas últimas duas eleições, cresceu a distância entre o voto feminino e o masculino. As mulheres apoiaram mais o PT, e os homens aderiram em peso a Bolsonaro. No corte por raça, os pretos votaram mais na esquerda, e os brancos, na direita. A escolha dos pardos tendeu a acompanhar o resultado geral da eleição. O cientista político evita avançar o sinal na interpretação dos dados. Ao examinar a votação por escolaridade, assinala a migração para a direita dos eleitores com ensino médio, mas evita cravar uma razão para o fenômeno. “Só pesquisas qualitativas mais detalhadas poderão responder”, pontua. O livro mostra que fazer boas perguntas pode ser mais produtivo que repetir as teses da moda. Na visão de Nicolau, faltam elementos para afirmar que o país estaria rachado em duas metades cristalizadas e irreconciliáveis. “A polarização brasileira pode ser mais episódica, personalizada e potencialmente reversível”, alerta. Para ele, não há garantia de que a dinâmica das últimas eleições se repetirá de 2030 em diante. “Em outras palavras: quanto dessa divisão deriva da força das figuras de Lula e Bolsonaro — e quanto sobreviverá na ausência delas?”, questiona.
Livro mostra transformações do Brasil em 20 anos de eleições presidenciais
País que elegeu Lula em 2022 era bem diferente do que elegeu Lula em 2002, afirma cientista político Jairo Nicolau















