A província do leste da República Democrática do Congo mais afetada pelo surto de ebola no país proibiu velórios nesta sexta-feira, um dia após moradores entrarem em confronto com a polícia ao tentarem recuperar o corpo de uma vítima. O incidente, ocorrido na cidade de Rwampara, na província de Ituri, foi parecido com as centenas de ataques a unidades de saúde durante o surto de 2018-2020 no leste do Congo e evidenciou a dificuldade de impor medidas rígidas de controle sanitário que entram em choque com costumes locais. A Organização Mundial de Saúde declarou o surto da rara cepa bundibugyo do ebola como emergência de saúde pública de importância internacional. A OMS afirma que a detecção tardia, a ausência de vacina ou tratamento específico, a violência armada generalizada e a alta mobilidade da população tornam o Congo especialmente vulnerável. Quase 750 casos suspeitos e 177 mortes suspeitas já foram registrados no leste do país, afirmou nesta sexta-feira o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus. Dois casos também foram confirmados na vizinha Uganda. “Esses números mudam à medida que a vigilância e os testes laboratoriais melhoram, mas a violência e a insegurança dificultam a resposta”, disse Tedros. Nesta sexta-feira, a OMS elevou a avaliação de risco do surto no Congo de “alto” para “muito alto”, mantendo o risco regional em nível elevado e o risco global em nível baixo. Dezenas de grupos armados atuam no leste do Congo. Um deles, o grupo rebelde M23, apoiado por Rwanda, controla amplas áreas tomadas no ano passado, incluindo cidades onde casos de ebola foram detectados. Também nesta sexta-feira, um governador indicado pelo M23 na província de Kivu do Norte suspendeu o transporte público entre Goma, sede dos rebeldes, e Butembo, importante cidade próxima à província de Ituri. Governo de Ituri impõe medidas restritivas Em decreto divulgado nesta sexta-feira, o governo provincial de Ituri determinou que sepultamentos deverão ser realizados apenas por equipes especializadas e proibiu o transporte de corpos em veículos que não sejam médicos. As autoridades também limitaram reuniões públicas a 50 pessoas e suspenderam o campeonato local de futebol. O ebola é um vírus frequentemente fatal que provoca febre, dores no corpo, vômitos e diarreia. A transmissão ocorre por contato direto com fluidos corporais. Corpos de vítimas de ebola permanecem altamente infecciosos após a morte, e enterros inseguros, nos quais familiares manipulam o corpo sem equipamentos de proteção adequados, são uma das principais formas de disseminação da doença. “Qualquer pessoa que toque o corpo durante o transporte, lavagem, preparação ou movimentação corre risco extremamente alto de contrair o vírus”, explicou Laura Archer. O primeiro caso conhecido do atual surto morreu em Bunia, capital de Ituri, em 24 de abril. O vírus se espalhou quando participantes do funeral tocaram o corpo durante cerimônia na cidade vizinha de Mongbwalu. Moradores de Bunia, República Democrático do Congo, usando máscaras nesta sexta-feira (22/05) — Foto: REUTERS/Gradel Muyisa Mumbere Durante o surto de 2018-2020, o segundo mais letal já registrado, com quase 2.300 mortes, unidades de saúde foram atacadas tanto por civis revoltados com a resposta das autoridades quanto por grupos armados interessados em explorar politicamente e economicamente a crise. O incidente em Rwampara ocorreu após a família do jogador de futebol Eli Munongo Wangu recusar um enterro seguro, contestando que ele tivesse morrido em decorrência do vírus. “Precisamos intensificar os esforços para educar a população”, afirmou à Reuters o diretor regional da OMS para a África, Mohamed Yakub Janabi. “Há muita desinformação circulando, e isso se tornou uma epidemia por si só.” Voluntários começaram a visitar residências para combater informações falsas sobre o ebola, informou a Federação Internacional da Cruz Vermelha nesta sexta-feira. Ruanda restringe entrada O governo de Ruanda anunciou nesta sexta-feira que proibirá a entrada de estrangeiros que tenham viajado ou transitado pela República Democrática do Congo nos últimos 30 dias. Cidadãos ruandeses e residentes que estiveram no Congo nesse período serão submetidos à quarentena. A OMS pediu que os países mantenham as fronteiras abertas, alertando que fechamentos podem incentivar travessias informais e dificultar a entrega de ajuda humanitária. Os Estados Unidos também restringiram viagens vindas do Congo, Uganda e Sudão do Sul. O governo americano afirmou que está “ativamente envolvido” em esforços para encontrar tratamentos contra a cepa Bundibugyo do ebola, segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC). Também nesta sexta-feira, o principal responsável humanitário da ONU, Tom Fletcher, anunciou a liberação de cerca de US$ 60 milhões de um fundo emergencial para combater o surto. “Precisamos agir antes que este surto de ebola saia do controle”, escreveu Fletcher na rede X. “Estamos operando em ambientes extremamente difíceis para salvar vidas. Enfrentamos conflitos e grande movimentação populacional.”