O "czar de segurança eleitoral" do presidente Donald Trump, Kurt Olsen, tentou, no ano passado, proibir máquinas de votação usadas em mais da metade dos estados americanos. A ação de Olsen se baseava em questionamentos sobre se o Departamento de Comércio poderia declarar seus componentes como riscos à segurança nacional, segundo duas pessoas com conhecimento direto do assunto. Olsen, assessor da Casa Branca e advogado encarregado por Trump de provar teorias amplamente desacreditadas sobre fraude eleitoral, liderou o plano contra máquinas da Dominion Voting Systems. A ideia surgiu enquanto ele e outros integrantes do governo discutiam formas de o governo federal assumir o controle das eleições dos estados americanos — proposta defendida publicamente por Trump. Olsen defendia um sistema nacional de votação com cédulas de papel contadas manualmente, segundo as fontes, atendendo a uma demanda frequente de Trump. Segundo especialistas em segurança eleitoral, essa medida poderia ser menos precisa e potencialmente mais arriscada do que o sistema atual de máquinas com registros auditáveis em papel usado pela maioria dos estados e cidades americanas. O plano para excluir as máquinas avançou a ponto de autoridades do Departamento de Comércio começarem, em setembro, a analisar possíveis justificativas legais para implementá-lo, segundo três fontes adicionais. A iniciativa acabou fracassando porque Olsen e outros assessores não conseguiram apresentar provas que justificassem a medida, afirmaram duas das fontes. O episódio faz parte de um esforço mais amplo do governo Trump para avançar sobre a autoridade de estados e governos locais na condução das eleições, prerrogativa garantida pela Constituição americana justamente para impedir que o Executivo concentre poder eleitoral. Olsen trabalha com as principais agências de inteligência e segurança dos EUA para investigar alegações de fraude eleitoral. Uma investigação da Reuters publicada neste mês mostrou que integrantes do governo e investigadores em ao menos oito estados buscaram acessar registros confidenciais, pressionaram por acesso a equipamentos eleitorais e reexaminaram casos de fraude já rejeitados por tribunais e análises bipartidárias. Trump e aliados republicanos também tentam redesenhar distritos eleitorais antes do habitual para obter vantagem nas eleições legislativas de novembro. Segundo as fontes, Olsen pretendia invalidar as máquinas da Dominion antes das eleições de meio de mandato. Entre os envolvidos nas discussões estavam Paul McNamara, assessor do chefe da inteligência Tulsi Gabbard, e Brian Sikma, auxiliar especial de Trump no Conselho de Política Doméstica da Casa Branca. Olsen trabalhou de perto com o Escritório do Diretor de Inteligência Nacional (Odni). No início do verão passado, McNamara pediu a autoridades do Departamento de Comércio que avaliassem classificar chips e softwares da Dominion como riscos à segurança nacional, segundo as fontes. Na época, McNamara liderava uma força-tarefa do Odni encarregada de investigar vulnerabilidades em máquinas de votação americanas. As fontes afirmam que ele discutiu o tema com autoridades graduadas do Departamento de Comércio, comandado pelo secretário Howard Lutnick. A Reuters não conseguiu determinar se Lutnick participou ou tinha conhecimento das discussões. Um porta-voz do departamento afirmou que ele nunca se reuniu nem discutiu integridade eleitoral com McNamara. Olivia Coleman, porta-voz do Odni, afirmou que o órgão “não apresentou nem coordenou qualquer plano com o Departamento de Comércio para banir máquinas da Dominion”. Olsen, McNamara e Sikma não responderam aos pedidos de entrevista. Em reação à reportagem, o senador democrata Alex Padilla afirmou que Olsen deveria ser demitido, classificando-o como ameaça à democracia. FOTO DE ARQUIVO: Kurt Olsen observa durante sua declaração inicial em um julgamento de contestação eleitoral no Condado de Maricopa, em Phoenix, Arizona, EUA, em 17 de maio de 2023 — Foto: Mark Henle/The Republic/USA TODAY NETWORK/Foto de Arquivo Temores de novo caos eleitoral Democratas e especialistas em integridade eleitoral temem que, diante da expectativa de perdas republicanas nas eleições de meio de mandato, o governo tente restringir votos e criar bases para contestar derrotas com novas alegações infundadas de fraude. Mais de 98% das jurisdições eleitorais americanas já produzem registros em papel para cada voto, segundo a Comissão de Assistência Eleitoral dos EUA. Especialistas apoiam amplamente o atual modelo híbrido entre tecnologia e papel, que permite auditorias posteriores. Defensores da contagem manual alegam que ela elimina riscos de invasões cibernéticas. Mas Alex Halderman, professor da Universidade de Michigan, afirmou que o sistema manual cria outros riscos, como erros de contagem e inserção ilegal de votos. “Mudar para contagem manual seria caótico”, disse. “E poderia facilitar fraudes”, prosseguiu. O porta-voz da Casa Branca, Davis Ingle, classificou a reportagem como baseada em vazamentos seletivos e desinformação. Busca por vestígios de “adversários estrangeiros” As regras americanas de segurança da cadeia de suprimentos dão ao secretário de Comércio poder para restringir transações com empresas de tecnologia ligadas a países classificados como “adversários estrangeiros”, incluindo China, Rússia e especificamente o governo do ex-presidente venezuelano, Nicolás Maduro, derrubado pelos EUA em janeiro. Um dos focos de Olsen era a teoria já desmentida de que máquinas da Dominion teriam sido contaminadas por códigos controlados por venezuelanos para roubar a eleição de 2020 de Trump. Investigações e processos judiciais desde 2020 nunca encontraram evidências de invasão das máquinas. Em 2023, a Fox News pagou US$ 787 milhões à Dominion em um acordo judicial por divulgar falsas alegações de fraude eleitoral. Em 2024, ao menos 27 estados americanos usavam máquinas da Dominion, número semelhante ao de 2020. A empresa, sediada em Denver, foi comprada em outubro passado pela Liberty Vote USA. Mesmo assim, Trump segue repetindo as acusações. Em 12 de maio, ele republicou um vídeo antigo da rede ultraconservadora One America News alegando falsamente que máquinas da Dominion apagaram milhões de votos. Em maio de 2025, Olsen ajudou a liderar uma operação federal que apreendeu máquinas da Dominion usadas em Porto Rico na eleição para governador de 2024. Uma análise posterior identificou algumas vulnerabilidades conhecidas, mas não encontrou códigos venezuelanos nem evidências de invasão. Na época das discussões com o Departamento de Comércio, a equipe de Olsen desmontou algumas máquinas acreditando encontrar componentes fabricados por países considerados adversários. As fontes afirmam que encontraram um chip embalado na China pela Intel, além de outros produzidos no Japão, Coreia do Sul e Malásia. Segundo as fontes, o relatório de Olsen descreveu os chips apenas como “do Leste Asiático”, numa tentativa de ocultar o fracasso em identificar riscos de segurança nacional. Uma reunião na Casa Branca em setembro discutiu se os equipamentos da Dominion continham vestígios de códigos venezuelanos. Após o encontro, um indicado político do Departamento de Comércio pediu à área responsável por riscos estrangeiros em cadeias tecnológicas que avaliasse possíveis medidas contra as máquinas. O setor analisou o caso, mas não tomou qualquer medida, segundo duas das fontes. Presidente Trump fala à imprensa em Washington nesta terça-feira (19/05) — Foto: REUTERS/Kevin Lamarque