Na entrevista recente ao Jornal de Notícias, a Ministra do Trabalho, Maria do Rosário Palma Ramalho afirmou que “os países que são mais flexíveis pagam melhor”. A frase resume perfeitamente a premissa da direita portuguesa sobre o mercado laboral: quanto menos proteção tiver quem trabalha, mais dinâmica a economia, mais competitivas as empresas e mais altos os salários.Para vender esta ideia de que a desregulação traz prosperidade quase automaticamente, os exemplos são sempre os mesmos: os países nórdicos. Alegadamente contratam e despedem com rapidez e, ainda assim, acumulam produtividade elevada, salários altos e índices de felicidade invejáveis.Só que, para a narrativa funcionar, a direita — e os liberais em particular — precisam de fazer um recorte muito conveniente da realidade e omitem, por desonestidade intelectual, tudo o que desmonta a tese da “flexibilidade”.A direita gosta de repetir que, nestes países, o Estado interfere pouco nos salários, nos horários ou nas relações laborais - e é verdade. Mas acontece que o Estado não legisla porque não precisa. O mercado laboral nórdico não é um faroeste onde o patrão dita unilateralmente as regras: pelo contrário, é um dos sistemas laborais mais organizados e sindicalizados. Na Dinamarca, na Suécia e na Noruega, entre 50% e 70% dos trabalhadores estão sindicalizados. Os acordos coletivos abrangem praticamente toda a economia e funcionam como verdadeira lei laboral paralela. Portanto, a tal “flexibilidade” só existe porque do outro lado da mesa existe um poder sindical forte, capaz de negociar em pé de igualdade e, se necessário, paralisar setores inteiros da economia.É precisamente isto que os defensores portugueses da flexibilização preferem ignorar. Em Portugal, a mesma direita que idolatra o modelo nórdico é também a que passou décadas a atacar sindicatos, a desvalorizar contratação coletiva e a tratar greves como birras dos trabalhadoresO segundo ponto importante chama-se flexigurança. O discurso liberal nacional adora a primeira metade da palavra: flexibilidade. Empresas capazes de despedir rapidamente, contratos menos rígidos, menos entraves ao mercado. Mas ignora a segunda metade: segurança. Sim, na Dinamarca, uma empresa consegue despedir um trabalhador com relativa facilidade — mas o trabalhador despedido é amparado rede de proteção social fortíssima, financiada pelo Estado, que pode garantir até 90% do salário anterior durante largos meses, enquanto investe na sua formação, reconversão profissional e reintegração no mercado de trabalho. Ou seja, a flexibilidade existe porque há segurança. O trabalhador aceita maior mobilidade laboral porque sabe que não ficará na precariedade ou no desemprego. Querer importar apenas a facilidade dos despedimentos sem financiar seriamente a proteção social chama-se precariedade.E quem paga todo este sistema? Quem financia os subsídios de desemprego generosos, a formação contínua, a saúde universal, o ensino superior praticamente gratuito e os serviços públicos de excelência que sustentam a confiança social dos países nórdicos? Aqui, o discurso liberal português implode, porque não podemos aumentar impostos.A Dinamarca tem uma das cargas fiscais mais altas do mundo, acima dos 45% do PIB. A Suécia mantém um Estado social gigantesco financiado por impostos elevados sobre rendimento e consumo. A Noruega gere, através do Estado, um fundo soberano de dimensão colossal alimentado pelos recursos energéticos do país.Se a direita portuguesa analisasse os países nórdicos com os mesmos critérios que usa internamente — peso do Estado, despesa pública, carga fiscal ou intervenção económica — teria inevitavelmente de concluir que estes países são experiências “socialistas”.Os salários e a produtividade nórdica não nasceram do desmantelamento de direitos laborais nem do corte de impostos. Nasceram de décadas de investimento público maciço, educação de qualidade, serviços públicos fortes, negociação coletiva robusta e sindicatos com poder real.A Ministra do Trabalho tem razão numa coisa: a flexibilidade pode coexistir com bons salários. Só se esqueceu de explicar que, nos países que usa como exemplo, essa flexibilidade é sustentada por impostos elevados, proteção social fortíssima e um Estado robusto: precisamente tudo aquilo que a direita portuguesa passa a vida a tentar desmontar.
A flexibilidade nórdica que a direita quer
Se a direita portuguesa analisasse os países nórdicos com os mesmos critérios que usa para Portugal, teria inevitavelmente de concluir que estes países são “socialistas”.









