Um tribunal de Ancara rejeitou nesta sexta-feira (22) um recurso do principal partido de oposição da Turquia, o Partido Republicano do Povo (CHP), contra uma decisão que determinou a destituição de seu líder, Ozgur Ozel, informaram o jornal Cumhuriyet e outros veículos turcos. O CHP também recorreu a uma instância superior e ao Conselho Supremo Eleitoral da Turquia (YSK), mas ainda não houve decisão nesses casos. Mais cedo nesta sexta-feira, a oposição turca havia prometido resistir à decisão judicial de ontem, considerada sem precedentes, que destituiu seu líder, aprofundou a crise política no país e levou investidores a vender ativos turcos diante do temor de crescente instabilidade. Analistas afirmaram que a decisão, vista como um teste do frágil equilíbrio entre democracia e autoritarismo na Turquia, pode prolongar ainda mais os 23 anos de governo do presidente Tayyip Erdogan, ao mesmo tempo em que ameaça provocar novo revés na longa batalha do país contra a inflação elevada. A corte de apelações anulou na quinta-feira o congresso de 2023 do CHP, no qual Ozel havia sido eleito líder, citando irregularidades não especificadas. Em seu lugar, o tribunal reconduziu o ex-presidente do CHP, Kemal Kilicdaroglu, figura divisiva que perdeu para Erdogan nas eleições daquele ano. O CHP classificou a decisão como um “golpe judicial”, e Ozel prometeu combatê-la por meio de recursos legais e permanecer “dia e noite” na sede do principal partido de oposição em Ancara. O líder do principal partido da oposição turca, o Partido Republicano do Povo (CHP), Özgur Özel, discursa para seus apoiadores em Ancara, Turquia, em 22 de maio de 2026 — Foto: REUTERS/Efekan Akyuz Teste para a democracia As decisões podem reacender protestos contra Erdogan e também provocar desorganização e disputas internas na oposição do grande membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e importante economia emergente. A medida judicial de quinta-feira que optou pela destituição de Ozel “representa um acontecimento sem precedentes em nossa história administrativa e política”, afirmou Berk Esen, cientista político da Universidade Sabanci. “Se for mantida, abrirá caminho para que tribunais determinem lideranças partidárias, sem paralelo no sistema eleitoral turco desde 1946”, disse. As ações turcas despencaram inicialmente após a notícia e seguiram voláteis nesta sexta-feira, embora estáveis. A lira atingiu mínima recorde, levando o banco central a vender bilhões de dólares em reservas internacionais para manter a estabilidade. O JPMorgan previu que o banco central terá de elevar rapidamente os juros. “O principal risco é a dolarização doméstica”, afirmou Roger Mark, analista de renda fixa para mercados emergentes da Ninety One, referindo-se à corrida para trocar liras por moedas fortes. Segundo ele, porém, a saída de capital foi menos intensa do que no ano passado devido à “intervenção mais firme do banco central e à menor exposição externa” de investidores estrangeiros. O vice-presidente, Cevdet Yilmaz, minimizou o que chamou de “movimentos diários do mercado” e afirmou que a Turquia segue focada em seu programa econômico de redução da inflação, que estava acima de 32% no mês passado. Recep Tayyip Erdogan, presidente da Turquia, fala à imprensa durante a Cúpula do G-20 em Joanesburgo, África do Sul — Foto: Leon Sadiki/Bloomberg Pressão judicial O CHP, partido fundado por Mustafa Kemal Ataturk, criador da Turquia moderna, enfrenta separadamente uma repressão judicial sem precedentes, com centenas de integrantes e autoridades eleitas detidos desde 2024 sob acusações de corrupção e outros crimes, que o partido nega. Entre os presos está o prefeito de Istambul, Ekrem Imamoglu, principal rival de Erdogan e candidato presidencial do CHP, cuja detenção no ano passado provocou forte queda nos mercados e interrompeu temporariamente o ciclo de flexibilização monetária. A próxima eleição nacional está prevista para 2028, mas teria de ocorrer antes caso Erdogan, de 72 anos e limitado por mandato, queira disputar novamente. A destituição de Ozel foi vista como fator que aumenta as chances de uma eleição antecipada. O governo rejeita críticas de que utiliza o Judiciário para atingir adversários políticos, afirmando que a Justiça é independente.
Tribunal da Turquia rejeita recurso da oposição contra destituição de líder
Partido Republicano do Povo (CHP) também recorreu a uma instância superior e ao Conselho Supremo Eleitoral da Turquia (YSK), mas ainda não houve decisão nesses casos










