O Presidente da Lituânia, a primeira-ministra e outros membros do Governo foram esta quarta-feira obrigados a refugiar-se em abrigos subterrâneos e o tráfego aéreo no aeroporto de Vílnius foi temporariamente suspenso depois de um drone ter violado o espaço aéreo do país, no mais recente de uma série de incidentes de segurança na região do Báltico.O Estado-membro da NATO e da União Europeia suspendeu também o tráfego ferroviário em redor da capital, Vílnius, enquanto escolas e jardins-de-infância foram instruídos a levar as crianças para abrigos.“Dirijam-se imediatamente para um local seguro, cuidem dos vossos familiares e aguardem novas recomendações”, afirmou o Exército da Lituânia num alerta enviado às pessoas na capital. Foi também emitido um alerta no edifício do Parlamento lituano, onde se encontravam parlamentares e ministros.Falando à Reuters a partir de um abrigo subterrâneo, o ministro da Defesa, Robertas Kaunas, afirmou que aeronaves militares estavam a tentar neutralizar a ameaça.“A missão de policiamento aéreo da NATO foi activada e está a visar um drone detectado no espaço aéreo lituano”, declarou Kaunas.

O alerta da Lituânia surgiu um dia depois de um caça da NATO ter abatido um alegado drone ucraniano sobre a Estónia.Os Estados bálticos, todos fortes apoiantes da Ucrânia, atribuíram os incidentes a Moscovo, afirmando que a Rússia desvia drones ucranianos dos seus alvos pretendidos na Rússia, embora sem apresentar provas para essas alegações.O Kremlin afirmou esta quarta-feira que estava a acompanhar a situação. Anteriormente, tinha acusado os Estados bálticos de permitirem que a Ucrânia lançasse drones a partir do seu território, algo que estes negam veementemente.Kaunas afirmou que o drone tinha vindo da Letónia. As autoridades disseram não saber se o aparelho tinha caído ou deixado a Lituânia. Os caças da NATO não conseguiram localizá-lo. O incidente durou cerca de uma hora e o alerta aéreo foi depois levantado. O tráfego aéreo e ferroviário também foi retomado.A Ucrânia intensificou os ataques de longo alcance com drones contra a Rússia, incluindo na zona do mar Báltico. Desde Março, vários drones militares ucranianos desviaram-se para o espaço aéreo de membros da NATO — Finlândia, Letónia, Lituânia e Estónia — que fazem fronteira com a Rússia.O secretário-geral da NATO, Mark Rutte, afirmou esta quarta-feira que a resposta da aliança ao incidente na Estónia tinha sido “calma, decisiva e proporcional”.“Se os drones vêm da Ucrânia, não estão lá porque a Ucrânia quis enviar um drone para a Letónia, Lituânia ou Estónia. Estão lá devido ao ataque imprudente, ilegal e em grande escala da Rússia”, disse Rutte aos jornalistas em Bruxelas.O primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, afirmou que “a guerra entre a Ucrânia e a Rússia pode em breve conduzir a uma situação em que teremos de reagir com firmeza”.O Governo da Letónia caiu na semana passada devido à forma como geriu as incursões.O primeiro-ministro estónio, Kristen Michal, declarou perante o Parlamento que pretendia obter poderes mais amplos para lidar com ameaças de drones militares, com o objectivo de colmatar lacunas na detecção, resposta e protecção de infra-estruturas críticas.“Temos de permitir que as forças de defesa identifiquem e combatam melhor os drones militares”, afirmou Michal.Drones foram desviados?O ministro dos Negócios Estrangeiros da Lituânia, Kestutis Budrys, escreveu na rede X que os incidentes eram “um acto transparente de desespero (da Rússia) — uma tentativa de semear o caos e desviar a atenção de uma realidade simples: a Ucrânia está a atingir duramente a máquina militar russa”.“A minha mensagem para o Kremlin: boa tentativa. Falharam outra vez.”O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, afirmou que as Forças Armadas russas estavam a acompanhar de perto a situação relacionada com drones que sobrevoavam o espaço aéreo dos Estados bálticos e estavam a formular uma resposta adequada, informou a agência noticiosa estatal russa TASS.O especialista em drones Hans Liwang, da Universidade de Defesa da Suécia, afirmou que era tecnicamente possível manipular e, até certo ponto, orientar drones ucranianos, caso estes fossem guiados por sistemas de comunicação baseados em satélite, como GPS ou GNSS.“Mas é provavelmente razoável assumir que estes aparelhos navegam também através de muitos outros meios, por exemplo, através de uma câmara que simplesmente reconhece objectos, como estradas, para os orientar”, disse.Liwang afirmou que os drones ucranianos eram semelhantes aos Shahed iranianos usados por Moscovo e que também poderiam navegar através do rastreio de sinais locais de telemóveis, acrescentando que o número relativamente reduzido de drones desviados indicava que a Rússia tinha capacidade limitada para os manipular.“Se fosse o caso de os russos conseguirem desviar drones com sucesso sobre os países bálticos, provavelmente já teríamos visto mais incidentes do que aqueles que vimos até agora”, concluiu.