Gavião Peixoto, no interior de São Paulo, lidera pelo terceiro ano consecutivo o ranking de municípios com melhor qualidade de vida do Brasil, segundo o Índice de Progresso Social (IPS) Brasil 2026, divulgado nesta quarta-feira. A cidade, de cerca de 4,8 mil habitantes, obteve 73,10 pontos em uma escala de 0 a 100. Na outra ponta, Uiramutã, em Roraima, aparece na última posição, com 42,44 pontos. O levantamento, elaborado pelo Imazon em parceria com outras organizações, avalia os 5.570 municípios brasileiros a partir de 57 indicadores sociais e ambientais, com dados de fontes públicas como DataSUS, IBGE, Inep e MapBiomas. O ranking mostra a permanência de fortes desigualdades regionais: 18 das 20 cidades mais bem colocadas ficam no Sul e no Sudeste, enquanto 19 das 20 piores posições estão no Norte e no Nordeste. Entre os municípios com melhor desempenho aparecem, depois de Gavião Peixoto, Jundiaí (SP), com 71,80 pontos; Osvaldo Cruz (SP), com 71,76; Pompéia (SP), também com 71,76; e Curitiba (PR), com 71,29. A capital paranaense é a única capital entre os cinco primeiros colocados do país. Diferentemente do PIB, que mede a riqueza gerada por uma cidade, o IPS busca avaliar se essa riqueza se traduz em condições concretas de vida para a população. "O IPS é um índice que surge de um entendimento de que desenvolvimento econômico, por si só, não corresponde necessariamente a desenvolvimento social", afirma ao g1 Melissa Wilm, coordenadora do IPS Brasil. "A proposta é medir o que realmente importa na vida das pessoas, diferente de métricas tradicionais, que olham principalmente o quanto foi gasto em determinada área, para olhar o que de fato as pessoas se beneficiaram com o investimento que foi feito". A média nacional ficou em 63,40 pontos, uma alta discreta em relação a 2025, quando o índice foi de 63,05, e a 2024, quando havia sido de 62,85. "O progresso foi tímido. A maioria dos municípios subiu no máximo um ou dois pontos de um ano para o outro", diz Melissa. Curitiba lidera entre as capitais Entre as capitais, Curitiba aparece em primeiro lugar pelo segundo ano consecutivo, com 71,29 pontos. Na sequência estão Brasília (70,73), São Paulo (70,64), Campo Grande (69,77) e Belo Horizonte (69,66). As piores notas entre as capitais foram registradas por Porto Velho (58,59) e Macapá (59,65), as únicas fora do grupo de melhores desempenhos do país. A diferença entre Curitiba e Porto Velho ultrapassa 12 pontos. A cidade de Porto Velho, em Rondônia — Foto: EVARISTO SA / AFP Segundo Melissa Wilm, uma boa colocação no IPS exige desempenho equilibrado em diferentes áreas avaliadas pelo índice. "Curitiba é uma das capitais que tem um desempenho elevado em praticamente todas essas áreas, em especial no componente de qualidade do meio ambiente, com indicadores que olham para áreas verdes urbanas, emissões de CO2 e desmatamento", diz a coordenadora. Mesmo assim, a capital paranaense ainda tem pontos de atenção. Um deles é a inclusão social, especialmente em indicadores relacionados à população em situação de rua. "Curitiba é um município que tem uma fragilidade dentro do tema de inclusão social, em indicadores como famílias em situação de rua, que precisam de atenção dentro dessa capital", afirma. Norte concentra piores indicadores ambientais A região Norte, que reúne municípios da Amazônia Legal, concentra os piores desempenhos do IPS Brasil 2026. O dado chama atenção também no componente de Qualidade do Meio Ambiente, contrariando a percepção de que a região estaria automaticamente associada à preservação ambiental. Os indicadores ambientais considerados pelo levantamento incluem desmatamento acumulado, emissões de gases de efeito estufa, focos de calor e supressão de vegetação. No ranking estadual, o Distrito Federal lidera, com 70,73 pontos, seguido por São Paulo (67,96), Santa Catarina (65,58), Paraná (65,21) e Minas Gerais (64,66). As últimas colocações são de Pará (55,80), Maranhão (57,59) e Acre (58,03). A diferença de quase 15 pontos entre o primeiro e o último colocado, segundo Melissa, evidencia a desigualdade entre os estados brasileiros. Se fosse comparado às unidades da federação, o Brasil ocuparia apenas a décima posição. O que o IPS avalia O IPS Brasil é dividido em três grandes dimensões: Necessidades Humanas Básicas, Fundamentos do Bem-Estar e Oportunidades. A primeira teve a melhor média nacional, com 74,58 pontos, e avalia temas como alimentação, saúde, moradia, saneamento e segurança. Moradia foi o componente de maior nota no país, com 87,95 pontos. Fundamentos do Bem-Estar teve média de 68,81 pontos e reúne indicadores de educação, acesso à internet, saúde e qualidade ambiental. O componente Acesso à Informação e Comunicação foi o que mais avançou de 2025 para 2026, impulsionado pela ampliação do acesso da população a tecnologias e meios de comunicação. Já Oportunidades teve o pior desempenho, com média de 46,82 pontos. A dimensão inclui direitos individuais, inclusão social, liberdades pessoais e acesso ao ensino superior. Os componentes mais críticos foram Direitos Individuais, com 39,14 pontos; Acesso à Educação Superior, com 45,97; e Inclusão Social, com 47,22. Segundo o relatório, Inclusão Social vem registrando queda desde 2024, reflexo de problemas como violência contra minorias, baixa representatividade política e aumento de famílias em situação de rua. Em 2026, 706 cidades brasileiras ficaram no grupo mais bem avaliado pelo IPS, enquanto apenas 23 municípios apareceram na faixa mais crítica.