O Irã ameaçou nesta quarta-feira (20) expandir a guerra para além do Oriente Médio caso os Estados Unidos voltem a atacar. A ameaça se deu após o presidente Donald Trump ter dito na terça-feira que esteve a uma hora de reiniciar a campanha militar contra o país persa. Seis semanas após Trump suspender a Operação “Fúria Épica” em troca de um cessar-fogo, as negociações para encerrar a guerra avançaram pouco. O Irã apresentou uma nova proposta aos Estados Unidos nesta semana, mas suas declarações públicas repetem condições anteriormente rejeitadas por Trump, incluindo exigências de controle do Estreito de Ormuz, compensações pelos danos da guerra, suspensão das sanções, liberação de ativos congelados e retirada das tropas americanas da região. A agência de notícias semioficial iraniana Tasnim informou nesta quarta-feira que o ministro do Interior do Paquistão estava a caminho de Teerã para conversas com autoridades iranianas, enquanto Islamabad continua a liderar esforços de mediação entre Washington e Teerã. Trump afirmou na segunda-feira, e novamente na terça-feira, que esteve perto de ordenar uma nova campanha de bombardeios, mas recuou no último momento para dar mais tempo à diplomacia. “Eu estava a uma hora de tomar a decisão de fazer isso hoje”, disse Trump a jornalistas na Casa Branca. O Irã vem ameaçando repetidamente retaliar qualquer novo ataque atingindo países do Oriente Médio que abriguem bases americanas. Nesta quarta-feira, sugeriu também que atacaria alvos mais distantes. “Se a agressão contra o Irã se repetir, a guerra regional prometida se estenderá além da região desta vez”, disseram membros da Guarda Revolucionária em comunicado divulgado pela mídia estatal. Trump diz que os EUA podem atacar o Irã novamente, mas que Teerã quer um acordo Trump diz que os EUA podem atacar o Irã novamente, mas que Teerã quer um acordo — Foto: Reuters Petroleiros chineses cruzam Ormuz O Irã praticamente fechou o Estreito de Ormuz para todos os navios, exceto os seus próprios, desde o início da campanha militar EUA-Israel em fevereiro, provocando a maior interrupção da história no fornecimento global de energia. Os Estados Unidos responderam no mês passado com seu próprio bloqueio aos portos iranianos. Dois gigantescos petroleiros chineses carregados com cerca de 4 milhões de barris de petróleo deixaram o estreito nesta quarta-feira, no mais recente sinal de que o Irã está disposto a flexibilizar o bloqueio para países considerados amistosos. O Irã havia anunciado na semana passada, enquanto Trump estava em Pequim para uma cúpula, que havia chegado a um acordo para aliviar as regras para navios chineses. O ministro das Relações Exteriores da Coreia do Sul afirmou nesta quarta-feira que um petroleiro sul-coreano atravessava o estreito em cooperação com o Irã. A publicação especializada Lloyd’s List informou que ao menos 54 navios transitaram pelo estreito na semana passada, aproximadamente o dobro da semana anterior. Ainda assim, isso representa apenas uma pequena fração dos cerca de 140 navios diários que normalmente cruzavam a rota antes da guerra. Embarcações no Estreito de Ormuz , Musandam, Omã — Foto: REUTERS/Stringer Pressão para encerrar a guerra Trump enfrenta pressão para encerrar o conflito, com os preços elevados da energia prejudicando o Partido Republicano antes das eleições legislativas de novembro. Desde o cessar-fogo no fim de abril, seus comentários públicos oscilaram entre ameaças de retomar os bombardeios e declarações de que um acordo de paz estava próximo — muitas vezes na mesma fala. Na terça-feira, ele afirmou que a guerra terminaria “muito rapidamente”. O vice-presidente J.D. Vance, que liderou a delegação americana na única rodada de negociações de paz até agora, no mês passado, também demonstrou otimismo: “Estamos em uma situação bastante boa”, disse Vance em coletiva na Casa Branca. As oscilações da posição americana têm provocado fortes variações diárias nos preços do petróleo, embora as cotações estejam subindo semana após semana desde o início de maio. Os contratos futuros do Brent para um mês caíram cerca de 1,5% na manhã de quarta-feira, ficando pouco abaixo de US$ 110 por barril, mas ainda bem acima dos níveis da semana passada. “Os investidores estão ansiosos para avaliar se Washington e Teerã conseguem realmente encontrar um terreno comum e alcançar um acordo de paz, enquanto a posição dos EUA muda diariamente”, afirmou Toshitaka Tazawa, analista da Fujitomi Securities. Eleição EUA — Foto: Eric Gay/AP Cessar-fogo em grande parte mantido Os bombardeios EUA-Israel mataram milhares de pessoas no Irã antes de serem suspensos em um cessar-fogo no início de abril. Israel também matou milhares de pessoas e deslocou centenas de milhares no Líbano, invadido em perseguição à milícia Hezbollah apoiada pelo Irã. Ataques iranianos contra Israel e Estados do Golfo vizinhos mataram dezenas de pessoas. A trégua com o Irã foi em grande parte mantida, embora tenha havido aumento de ataques contra navios e países do Golfo no início de maio, quando Trump anunciou uma missão naval para reabrir o estreito. Trump cancelou a missão, chamada “Projeto Freedom” (“Projeto Liberdade”), após apenas 48 horas. Nesta semana houve uma nova onda de drones lançados contra a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, que afirmaram que os ataques partiram do Iraque, onde operam milícias aliadas ao Irã. Trump e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmaram, ao iniciar a guerra, que seus objetivos eram conter o apoio iraniano às milícias regionais, desmantelar o programa nuclear iraniano, destruir sua capacidade de mísseis e facilitar a derrubada do regime pelos iranianos. No entanto, a guerra ainda não privou o Irã de seu estoque de urânio enriquecido próximo ao nível militar, nem de sua capacidade de ameaçar vizinhos com mísseis, drones e milícias aliadas. A liderança clerical da República Islâmica, que enfrentava um levante popular no início do ano, resistiu à ofensiva das superpotências sem sinais de oposição organizada.