Uma mesa branca, desproporcionalmente grande para o silêncio do átrio do Museu das Artes de Sintra (MU.SA). Em redor da mesa, trinta cadeiras vazias aguardam por corpos, obras e vozes. Aos poucos, a sala enche-se. Vinte e sete artistas de Sintra, todos vestidos de preto, e com uma obra debaixo do braço, ocupam as cadeiras."O evento chama-se ‘Lugar Vazio’ porque parte da ideia de ocupar um lugar que tem estado vazio para o artista sintrense, ou que, muitas vezes, não parece estar verdadeiramente disponível para ser ocupado. No âmbito do Dia Mundial dos Museus, a Câmara Municipal de Sintra convidou-nos a trazer um projeto para dentro do museu. E nós pensámos que, se temos três horas para ocupar o museu, queremos levar para lá os artistas que têm vindo a dialogar connosco", explica Rodrigo Faria, coordenador e gestor de projetos do Ponto Kultural, espaço de criação e experimentação em Algueirão-Mem Martins, criado pelo coletivo Unidigrazz, prestes a cumprir um ano de existência.O Ponto Kultural nasce da falta de espaço, de apoios e de visibilidade para os processos artísticos. "Quando surgiu a oportunidade de termos um espaço, nunca o pensámos como algo apenas para nós, enquanto coletivo, mas como um lugar aberto que pudesse dar plataforma a outros artistas, acolher residências, bolsas, workshops e palestras", explica Rodrigo. "Temos uma programação trimestral sustentada por bolsas e residências artísticas, com apoio financeiro e de mentoria."À volta da mesa, falo com alguns dos artistas presentes."A minha linguagem nasce do movimento em saltos altos, da identidade queer e da forma como o meu corpo ocupa os diferentes espaços", explica Hugo Silveira, dançarino, enquanto mostra um botim de salto alto. "Foi o primeiro salto que usei nas formações de High Heels, nem era do meu tamanho e dançava de fecho aberto, mas abriu‑me as portas para ser quem sou hoje e para descobrir a forma de movimento com que me identifico atualmente." No projeto "Mar Alto", Hugo percorre as estações de comboio da linha de Sintra. "Pretendo criar espaço para nós como pessoas queer e não nos isolarmos nos nossos blocos de betão, celebrando a nossa existência no exterior."Bruno Nunes é brasileiro, filho de imigrantes, e assina artisticamente como Senun. "Vim para Portugal ainda muito novo e isso influencia diretamente a forma como penso e construo imagem." A obra que apresenta é uma fotografia do músico "Prodígio", uma imagem que "representa mais do que uma trajetória individual, é uma memória coletiva ligada à linha de Sintra e a uma geração que influenciou música, linguagem e estética contemporânea em Portugal, mesmo muitas vezes fora dos espaços tradicionais de legitimação cultural". Para Bruno, essa fotografia é também um gesto de ocupação: "um artista criado na periferia da linha de Sintra, que mostra que o sonho de muitos jovens na mesma situação se pode tornar realidade."Madalena Santos assina o seu trabalho como RGBored. O caminho pela ilustração digital começou em 2018, na licenciatura em design de moda: "Lembro-me de dizerem que os meus desenhos técnicos das roupas pareciam ilustrações e que não era o pretendido. Em casa, apliquei a mesma técnica a pessoas e, depois, comecei a ilustrar também pensamentos e emoções que não sabia bem como exprimir por palavras."Mostra-me "Brainwash", uma BD que representa uma lavagem cerebral literal, protagonizada por uma ovelha. "Quis reiterar a importância de mantermos o nosso espírito crítico, de ouvirmos o nosso instinto e questionarmos algumas imposições da sociedade que nem sempre nos servem ou preenchem", conclui.Fábio Silva é realizador e está a trabalhar no filme "O Sangue da Aliança", centrado na mãe, uma mulher cabo-verdiana, quase septuagenária, que se separa após quase 40 anos de relação. O filme cruza patriarcado, depressão e as marcas históricas da emigração das décadas de 1960 e 1970. Fábio traz consigo o livro Pele Negra, Máscaras Brancas, de Frantz Fanon. "Apesar de ter sido publicado há várias décadas, continua extremamente atual e inspira-me profundamente. Muitas vezes serve de alicerce ao meu processo criativo, por me fazer refletir sobre território, comunidade e, sobretudo, a necessidade de compreendermos os processos históricos que ainda hoje nos segregam. Só assim podemos criar obras politicamente conscientes, anticoloniais, que deem visibilidade às questões associadas à periferia."Maria Caetano Vilalobos é poeta, performer e professora. Calmaria é o seu segundo livro de poesia. "Trouxe-o no seguimento de responder ao lugar vazio que se cria entre a raiva e o amor. Nesse limbo-dilema em silêncio antes de agir e responder. Calmaria é sobre fé e tentar encontrar o equilíbrio apesar do caos." A sinopse: "Na rebentação a busca pela maré baixa. Nos agueiros a esperança pela maré alta. No fogo cruzado o silêncio cúmplice. O escapismo da realidade como bote salva‑vidas. A apneia como paradoxal ferramenta de sobrevivência. O amor. Sempre. Raiz."
Ponto Kultural: um lugar vazio cheio de gente
No Museu das Artes de Sintra, 27 artistas sentam-se à volta de uma mesa e falam das suas obras. Durante três horas, o “lugar vazio” deixa de o ser.







